Baby I'm amazed at the way you love me all the time
Maybe I'm afraid of the way I love you
Baby I'm amazed at the the way you pulled me out of time
Hung me on a line
Maybe I'm amazed at the way I really need you
Baby I'm a man and maybe I'm a lonely man
Who's in the middle of something
That he doesn't really understand
Babe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me.
Baby won't you help me understand?
Segunda-feira, 13 de Julho de 2009
Maybe I'm Amazed
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 18:07 |
Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
:: Pride & Prejudice (o livro!) ::

JANE AUSTEN,
Orgulho e Preconceito
(Pride And Prejudice [1813],
Penguin Books, 428 pg.)
AMOR À ÚLTIMA VISTA
- notas de leitura -
Foi-me preciso engolir muito orgulho e vencer muito preconceito para topar encarar este romance-para-moças, leitura tão indigna para homens viris! Jane Austen, porém, me foi recomendada com empolgação por fontes tão dignas de crédito, que eu quis vencer minha tendência ignorantona a considerá-la como literatura de mariquinha, altamente kitsch e salta-pocinhas, e ir checar na fonte se a qualidade desta obra era mesmo inegável. Mergulhar nesta literatura, hoje reconhecida como das mais brilhantes da língua inglesa, a ponto de ser inserida por Harold Bloom entre as obras mais importantes do Cânone Ocidental, é descobrir uma autora de gênio na crônica social e no desvelamento psicológico da gente de seu tempo – e que possui, no fundo, uma mordaz ironia. Tudo isto salva sua obra de ser romantismo ingênuo para o consumo de moçoilas que esperam pelo príncipe encantado, tornando-a um clássico da literatura universal.Jane Austen nos apresenta a um mundo hoje desaparecido e demodé. Um tempo onde o complexo processo de cortejar uma virgem virtuosa e bem-nascida demandava dos rapazes esgrimas “retóricas” espantosas. (Meus caros, chamar isso de “xaveco” é uma ofensa à complexidade inominável dos processos de sedução e persuasão em jogo!). Um tempo onde as moçoilas, sempre muito pudicas, ainda ruborizavam frente a olhares viris mais atrevidos e mantinham seus corpos muito bem escondidinhos detrás de pesados vestidos, véus e rendados. Um tempo em que os cavalheiros, sempre muito bem-trajados e polidos, se punham de joelhos para beijar com delicadeza a mãozinha enluvada das dondocas. Um tempo em que mamães casamenteiras dedicavam suas vidas à missão de casar seus rebentos com “homens honestos, ricos e de bom nascimento”. Um tempo onde todo um complexo jogo social, repleto de fofocas, fuxicos e boatos, envolvia os arranjos de matrimônio, e onde os interesses materiais eram levados em consideração até mais do que os afetos (apesar destes terem, também, um pouco de lugar).
Confesso, a princípio, que tive uma certa dificuldade para não ler com ironia toda essa finesse, esses hábitos tão civilizados, essas civilidades tão polidas, esse nhém-nhém-nhém aristocrático, que enche estas páginas tão maravilhosamente escritas, mas que podem soar, às vezes, tão afetadas e artificiais. Os personagens de Jane Austen são sempre, mesmo os mais atrevidinhos, repletos de pudicícia, desvelos, frescuras, ornamentos de linguagem e mil uma formas de ostentar sua “alta classe”.
É um mundo bem estranho às minhas peregrinações literárias mais frequentes, que normalmente vão dar em bodegas mais trash e bairros malsãos de cidades pestíferas. Minha juventude, eu passei na companhia dos junkies pirados de William S. Burroughs, dos fodidos-na-vida de Henry Miller, dos maníacos sexuais de Philip Roth, dos niilistas-sem-cura de Céline, das diabólicas maledicências poéticas de Rimbaud, Baudelaire e Lautreámont... Entrar no “ambiente” de Jane Austen, depois de ter passado tanto tempo na companhia desses insanos, é como visitar um palácio hi-class todo brilhoso e chique, depois de ter dormido por várias madrugadas na sarjeta, lambido pelos vira-latas e acordado pelos lixeiros.
O preciosismo, a delicadeza, a polidez irreprochável desses personagens é algo espantoso: não se acha em Jane Austen nem um grãozinho de grosseria ou truculência. Essa é a literatura de uma verdadeira lady! Até mesmo nos momentos em que os personagens precisam se dizer coisas desagradáveis e machucantes, o fazem de um modo extremamente classudo. O mais hilário dos exemplos é o do Mr Collins que, ao recusar um conselho de Elizabeth, faz mil piruetas retóricas para justificar sua “falta de educação”: “Pardon me for neglecting to profit by your advice, which on every other subject shall be my constant guide, though in the case above us I consider myself more fitted by education and habitual study to decide on what is right than a young lady like yourself...” (pg. 109). Très, très refiné!
Rachel Browstein, no estudo que dedica a Austen no Cambridge Companion, destaca que a leitura predileta de Jane Austen eram estas “ficções domésticas centradas em heroínas do sexo feminino” do tipo que se tornaram populares com os romances açúcarados de Richardson, Clarissa (1747) e Pamela (1742). Eram obras “severamente criticadas moral e esteticamente” pelos críticos de literatura, principalmente por serem “deliberadamente didáticas” no sentido de tentar “conscientemente instaurar padrões de moralidade”. Estes livros – apelidados de courtship novels - “davam aulas” às mocinhas sobre as engrenagens do cortejo masculino a uma virgem pudica e virtuosa, ressaltando sempre como ela deveria agir para manter-se digna e não sucumbir nem aos vícios da carne, nem às perfídias dos homens que são lobos em pele de cordeiro.
Mas o que faz Jane Austen ser um nome de tanto destaque na literatura dos últimos séculos é talvez o fato dela não ter sido uma mera repetidora destas fórmulas novelescas, mas sim a gênia que recriou o “romance-para-moças” através de um olhar que, além de espetacularmente sagaz e perceptivo, traz uma carga de ironia fortíssima. E não se trata de uma ironia fútil nem de um humor superficial, feito de palhaçadas e gracinhas, mas de um procedimento literário que besunta de alegre ironismo o “clima” dessas páginas tão deleitosas. “The seriousness of her irony baffles those readers who think wit must be either decorative or definite”, aponta Browstein, confessando que considerado esta “playful and purposeful irony” como a “coisa mais importante em Jane Austen” (pg. 34).
* * * * *

ELIZABETH BENNETT
Elizabeth Bennett, “heroína” de Pride and Prejudice, é sem dúvida a mais fascinante e adorável personagem do livro – e nela, talvez, Jane Austen construiu uma das “criaturas” que melhor encarna esta “playful and purposeful irony” à qual Browstein se refere. Frente à frivolidade das irmãzinhas, que mal largaram a chupeta e já saíram à caça de oficiais, querendo garfar um ricaço bonitão para um matrimônio que idealizam que será sublime, Lizzie mostra-se muito mais complexa, madura, sarcástica e sagaz.
Seu senso-de-humor é um dos mais afiados dentre todos os personagens do livro (“I dearly love a laugh!”, diz), e não é surpresa que ela, a princípio, antipatize tanto com Darcy, que mostra-se circunspecto, calado, antipático e funebremente sério. Mas o humor de Lizzie não impede que ela seja, no fundo, uma mulher extremamente “ética” - daquelas que não usa a ironia para massacrar o que é “sábio” e “bom”, mas somente para alfinetar o que vê como frívolo, tolo, hipócrita e vicioso. Isso fica bem descrito neste magistral diálogo:
DARCY: “The wisest and the best of men, nay, the wisest and best of their actions, may be rendered ridiculous by a person whose first object in life is a joke.”
ELIZABETH: “Certainly. There are such people, but I hope I am not one of them. I hope I never ridicule what is wise and good. Follies and nonsense, whims and inconsistencies do divert me, I own, and I laugh at them whenever I can.”
(pg. 62-63)
Entre essas 5 irmãs, Elizabeth é a única que demonstra ter uma vida subjetiva mais rica e variada, uma alminha mais judiada por angústias de pequenez (“What are men to rocks and mountains?”, exclama a certo ponto) e que reclama de malesque só ela em Orgulho e Preconceito parece sentir: “disappointment and spleen” (pg. 174).
É também deliciosamente insubmissa, em certas ocasiões, como nas saborosas cenas em que confronta Lady Catherine De Bourgh, a nojenta e autoritária dama da alta-classe que trata os Bennetts como se fossem vira-latas. “She [Elizabeth] had heard nothing of Lady Catherine that spoke her awful from any extraordinary talents or miraculous virtue, and the mere stateliness of money and rank she tought she could witness without trepidation” (pg. 182), conta a narradora.
Adoro isso: que Elizabeth não se torne baba-ovo de socialite escrota nenhuma só por ela ter grana e poder! Adoro que ela seja capaz de enfrentar “sem trepidar” uma “nobre dama” que faz com que os outros se intimidem e abaixem as cabecinhas! “Elizabeth suspected herself to be the first creature who had ever dared to trifle with so much dignified impertinence” (pg. 187), escreve Austen – e, lendo essa frase, não fiz nada menos que vibrar! Como frente a um lindo gol do meu time do coração em final de campeonato.
* * * * *
WIT AND VIRTUE
O fato de Elizabeth ser a união da mais esperta sagacidade (she's so witty!) e da mais conscienciosa “preocupação moral” se confessa um pouco na admiração que ela não cessa de nutrir por sua irmã Jane. Em Orgulho e Preconceito, Jane Bennett é a criatura mais angelical e irrepreensivelmente bondosa, e Elizabeth não pára de elogiar as virtudes de sua maninha, sem o mínimo sinal de ciúme ou raiva (no quê Austen, me parece, demonstra não ser lá uma pHd em psicologia “fraternal”: onde já se viu irmãs se darem assim tão bem, cáspita?!?)De certo modo, Jane Bennett parece uma abençoada criatura que está sempre “de bem com a vida” e com sua própria consciência, sempre repleta de “cheerfulness” e dotada desse caráter privilegiado (que Jane Austen descreve lindamente): “the serenity of a mind at ease with itself, and kindly disposed towards every one, that had been scarcely ever clouded” (pg. 209).
ELIZABETH PARA JANE: “Your sweetness and desinterestedness are really angelic. (...) I feel as If I had never done you justice, or loved you as you deserve. (...) You wish to think all the world respectable, and are hurt if I speak ill of anybody.” (pg. 153) O fato de admirar na irmã esse tendência a “achar que todo mundo é bonzinho” e de ver tudo “sob a melhor luz” não impede que Elizabeth se manifeste contra essa noção de um “bom-mocismo generalizado”.
Elizabeth têm um olhar mais lúcido, que descobre os vícios e defeitos dos humanos com um realismo penetrante, acabando por parecer um tanto amarga e desiludida em relação à ingênua jovialidade da irmã Jane: “The more I see of the world, the more I am dissatisfied with it; and every day confirms my belief of the inconsistency of all human characters, and of the little dependence that can be placed on the appearance of either merit or sense.” (153)
Elizabeth, apesar de presa na teia de convencionalismo que a rodeia – e que faz com que todas as moças desejem um casamento (claro que monogâmico e vitalício!) com um homem "honesto" e de "bom nascimento", como papai e mamãe exigem! - é uma mulher que traz em si uma "insubmissão interior" bem mais pronunciada do que suas "silly little sisters". Por isso, como Harold Bloom escreve no Cânone Ocidental, ela é uma das “grandes heroínas de Jane Austen” (junto com Emma, Fanny e Anne), já que elas “possuem tanta liberdade interior que suas individualidades não podem ser reprimidas”.
Mulher ambiciosa e orgulhosa de sua inteligência e sarcasmo, Elizabeth tem uma língua à qual não falta veneno nem sagacidade. Há, por exemplo, uma cena em que Lizzie e Darcy estão dançando e ela, irônica e cáustica, querendo provocá-lo a sair de seu taciturno silêncio, alfineta seu calcanhar de Aquiles: o orgulho. “We are each of an unsocial, taciturn disposition, unwilling to speak unless we expect to say something that will amaze the whole room, and be handed down to posterity with all the eclat of a proverb.” (pg. 103)
As virtudes e nobrezas do caráter de Elizabeth também se explicitam nas críticas severas que ela faz ao comportamento de suas irmãs caçulas. No caso em que a louquinha da Lydia foge de casa com o demônio encarnado que é Wickham, Elizabeth não poupa o anátema: "Our importance, our respectability in the world, must be affected by the wild volatity, the assurance and disdain of all restraint that mark Lydia's character... she will soon be beyond the reach of amendment...from the ignorance and emptiness of her mind, wholly unable to ward off any portion of that universal contempt which her rage for admiration will excite... Vain, ignorant, idle and absolutely uncontrouled!" (pg. 255-56)
Liz fustiga sem dó o caráter vicioso da irmã – que é vaidosa, preguiçosa, frívola, ignorante e que nada faz além de seu tempo além de flertar com homens “interessantes”. O próprio Mr Bennet, pai das donzelas e fonte de altos sarcasmos, comenta: "At any rate, she cannot grow many degrees worse, without authorizing us to lock her up for the rest of her life." (256) Em meio à irmãzinhas tão fúteis e abobalhadas, Elizabeth aparece como um prodígio de nobreza, inteligência e fina ironia – um mulherão!
* * * * * *
LOVE AT LAST SIGHT
Sendo muito simplista e redutor, daria para dizer que a grande “moral da história”, em Orgulho e Preconceito (que é sim um nobre exemplar daqueles tempos onde os romances tinham sim uma “moral da história!), reduz-se àqueles velhos ditos clichêzudos que tantas mamães e vovós beatas, metidas a sábias, nos repetiram 50 mil vezes: que as “aparências enganam” e que “primeiras impressões nem sempre nos contam a verdade”!
Darcy é um personagem que todos abominam ao primeiro contato, Elizabeth inclusive. Ele aparece como um sujeitinho arrogante, intratável e horrorosamente antipático nas situações sociais, daqueles que não bate-papo nem tira as mocinhas pra dançar nos bailes. Ele possui dois grandes vícios paralelos: o orgulho e o ressentimento. “I cannot forget the follies and vices of others so soon as I ought, not their offences against myself”, confessa. “My temper would perhaps be called resentful. My good opinion once lost is lost for ever.” (63)
Elizabeth, ouvindo isso, forma uma péssima imagem de Darcy como alguém que odeia todo mundo e que se gaba da “implacabilidade de seus ressentimentos” como se isso fosse um mérito. Quando o venenoso Wickham lhe conta sobre os maus-tratos que sofreu nas mãos de Darcy, ela atinge um dos ápices de revolta contra este último: “I had supposed him to be despising his fellow-creatures in general, but did not suspect him of descending to such malicious revenge, such injustice, such inhumanity as this!” (pg. 90)
A cena em que Darcy pede Elizabeth em casamento, para absoluto espanto dela, é uma dos momentos mágicos da história da minha relação com a literatura: são páginas que li quase perdendo o fôlego, esquecendo do tempo, “caindo” totalmente dentro do diálogo, tão cativante e dramática é a situação. Pois Elizabeth está sendo cortejada por um homem que odeia: um sujeitinho pretensioso, abominavelmente orgulhoso, que fez das piores patifarias contra o pobre Wickham e que ainda foi responsável por estragar a possibilidade de casamento entre Jane e o Mr. Bingley! Ainda que ela sinta um pinguinho de satisfação por ver Darcy manifestar tão surpreendente desejo (“it was gratifying to have inspired unconciously so strong an affection” - pg. 215), ela não pode evitar lançar contra ele o anátema, o jorro de sua ira, sua cruel e machucante rejeição, expressa nos termos mais duros:
ELIZABETH PARA DARCY: “From the very beggining, from the first moment of my acquaintance with you, your manners impressing me with the fullest belief of your arrogance, your conceit, and your selfish disdain of the feelings of others, were such as to form that ground-work of disapprobation, on which succeeding events have built so immoveable a dislike; and I had not known you a month before I felt that you were the last man in the world whom I could ever be prevailed on to marry.” (pg. 215)
Se a declaração de Darcy gera nela uma onda de ira e retaliação, em que ela fere sem dó um homem que então desprezava com toda a força de sua alma, a carta de Darcy representa um "ponto de virada", uma reviravolta quase completa. É com esta carta que se começa a desvelar aos olhos de Liz o "verdadeiro caráter" do Mr. Darcy e uma certa "intimidade" começa a se estabelecer entre os dois. "...she had never, in the whole course of their acquaintance, an acquaintance which had latterly brought them much together and given her a sort of intimacy with his ways, seen any thing that betrayed him to be unprincipled or unjust - any thing that spoke him of irreligious or immoral habits" (pg. 229).
O arrependimento pelo preconceito que alimentou, e o "choque" positivo de perceber em Darcy um "bom homem" que ela nem suspeitava que podia viver por detrás de uma superfície tão antipática e pouco convidativa, fazem com que convivam nela, por uns tempos, um imbróglio de vergonha por si mesma e de crescente admiração pelo Darcy que antes desprezara. Ela até mesmo é obrigada a engolir seu orgulho, reconhecendo que as críticas que Darcy faz à sua família eram "merecidas" - o que não surpreende o leitor que soube captar toda a ironia que Lizzie volta contra suas irmãs caçulas, fúteis garfadoras de oficiais, e sua mãe, obcecada casamenteira. "The justice of his charge struck her too forcibly to deny." (230)
Aqui, o amor está muito longe de ser à primeira vista e só surge depois que os “pombinhos” já se bicaram, se xingaram, se machucaram até não poder mais. Tendo expectativas bem baixas em relação ao Darcy que ela considerou, a princípio, um sujeitinho desprezível e antipático, Liz não se choca pouco com a transformação que ocorre na imagem dele dentro dela: “the difference, the change was so great, and struck so forcibly on her mind, that she could hardly restrain her astonishment from being visible.” (288)
O caráter “anti-social” de Darcy, que o pessoalzinho altamente sociável e polido que o rodeia reputa como um “vício”, depois irá se desvelando, principalmente ao olhar de Elizabeth, muito mais como uma virtude. Até que enfim ela descubra, fascinada, que gosta do fato dele não ser um homem frívolo, um hedonista superficial, capaz de se encantar por qualquer mariazinha de belos peitos e dotes - e que tinha até altas exigências em relação à “mulher ideal”. Esta, para Darcy, precisa ter algo “substancial”, que ele sugere que só será conquistável pela leitura (“in the improvement of her mind by extensive reading” - pg. 43).
Quando, mesmo depois de ser rejeitado sem a mínima ternura por Liz, Darcy mostra-se gentil e amável, ela não consegue erguer diques contra as marés de ternura e de gratidão que lhe adentram o coração voltadas ao seu ex-inimigo:
"...when she considered how unjustly she had condemned and upbraided him, her anger was turned against herself; and his disappointed feelings became the object of compassion. His attachment excited gratitude, his general character respect..." (pg. 234). “Gratitude, not merely for having once loved her, but for loving her still well enough, to forgive all the petulance and acrimony of her manner in rejecting him, and all the unjust accusations accompanying her rejection. He who, she had been persuaded, would avoid her as his greatest enemy, seemed most eager to preserve the acquaintance. (...) Such a change in a man of so much pride excited not only astonishment but gratitude – for to love, ardent love, it must be attributed.” (291)
Aqui se mostra com clareza que Jane Austen parece colocar o afeto acima da paixão, como Harold Bloom bem apontou. Elizabeth, que no livro passa por um certo “encantamento à primeira vista” com Wickham, e depois descobre-o como lobo em pele de cordeiro, encontra um “verdadeiro” amor que é baseado não em impressões apressadas, fugidias e sensíveis, mas em gratidão, estima e admiração. Nos meandros dessa narrativa, Jane Austen parece filosofar que o amor só é sólido se baseado não somente em encantamentos dos sentidos, mas num vínculo afetivo mais profundo baseado em valores como personalidades harmônicas, interesses comuns, confiança mútua, intimidade e confiança (em suma: “a general similarity of feeling and taste”, pg. 382). Tanto que Elizabeth, quando pensa nas chances de felicidade de Lydia e Wickham, não deixa de suspeitar que seriam pífias: “...how little of permanent happiness could belong to a couple who were only brought together because their passions were stronger than their virtue, she could easily conjecture.” (342)
Consuma-se, pois, a inversão de papéis: Wickham, ainda mais depois que foge com Lydia, passa a ser demonizado (e como! Lizzie chega a sugerir que "o vício contido em toda raça humana estava concentrada em um só indivíduo"). Inicialmente adorado e admirado pela sua "casca" sedutora e simpática, ele é depois visto por Elizabeth, sob o efeito das revelações de Darcy, sob uma luz bem menos favorável. Ela passa a vê-lo como alguém sem escrúpulos, que não hesitou em trabalhar pelo naufrágio do caráter de Darcy, e que é francamente mercenário em sua escolha de mulheres. Darcy, depois de conhecido a fundo e em detalhe, aparece sobre uma luz intensamente favorável. "There certainly was some great mismanagement in the education of those two young men. One has got all the goodness, and the other the appearance of it." (pg. 249) Elizabeth sente-se invadida por um intenso remorso ao perceber o quanto tinha alimentado falsas imagens sobre estes dois homens, baseadas essencialmente em preconceitos apressados. "She grew absolutely ashamed of herself. Of neither Darcy nor Wickham could she think without feeling that she had been blind, partial, prejudiced, absurd." (229)
A própria opinião pública, “instituição” que Austen é mestra em descrever com ironia devido à sua volatilidade e instabilidade, sua frivolidade e maledicência, sofre também uma revolução: “All Meryton seemed striving to blacken the man who, but 3 months before, had been almost an angel of light. (...) Everybody declared that he was the wickedest young ma in the world; and every body began to find out that they had always distrusted the appearance of his goodness.” (323)
Darcy e Lizzie, de certo modo, no fim dessa montanha-russa emocional que enfrentaram, tornam-se gratos um ao outro pelas lições que se deram. Ela, encarnação do Preconceito que Austen pôs no título de seu romance, confessa que sua relação com ele fez com que ela vencesse esse seu vício: “gradually all her former prejudices had been removed” (405). Já ele, que por seu lado é encarnação do Orgulho, confessa que também aprendeu com ela a reconhecer sua pequenez e sua insuficiência: “Dearest, loveliest Elizabeth! What do I not owe you! You taught me a lesson. (...) By you, I was properl humbled. You showed me how insufficient were all my pretensions to please a woman worthy of being pleased.” (407)
* * * * *
RESSALVAS
Por maior que seja minha admiração por uma obra literária tão bem-composta, tão deliciosa de ler, repleta de perspicácia e fina ironia, eu não posso evitar sentir um certo desagrado por certos “fatores”. Por exemplo isto: apesar da trama de “Orgulho e Preconceito” estar inteirinha centrada nas atrações e repulsões entre os sexos, a descrição desses “jogos” de sedução jamais “se rebaixa” ao nível do carnal, do sexual. Este é um livro “sobre o amor”, de 400 e tantas páginas, em que nenhum casal, jamais, dá uns beijinhos na boca ou se diverte com uns amassos ou umas trepadas! Os mocinhos, quando se interessam pelas ladies, jamais têm ereções imprevistas, jamais olham famintos para as zonas erógenas ou arriscam cantadas com um sugestivo cunho luxurioso. Tudo em Jane Austen me soa asséptico, higiênico e bem-comportado demais – e a sexualidade é completamente varrida para debaixo do tapete, num processo que Milan Kundera talvez considerasse como puro “kitsch” literário. Claro que era de se esperar que liberdade para fazer, falar e escrever sobre sexo não tivesse espaço de manifestação no mundo subjetivo de uma filha de reverendo, vivendo em tempos de moralidade vitoriana, que não pôde assimilar todas as benesses da libertação sexual advinda com a pílula anticoncepcional, o movimento hippie e todas as conquistas do feminismo no século 20.Jane Austen, pois, mantêm-se sempre “elevada”, “espiritual”, como se o amor nada tivesse a ver com os corpos, com a libido, com o tesão – e com isso mutila de sua obra algo crucial tanto para a compreensão quanto para o retrato literário das criaturas humanas. Se digo que ela nunca “se rebaixa” ao domínio carnal, não será também por causa de um preconceito da autora (obviamente condicionado por sua educação e a cultura de seu tempo!), que faz com que ela censure e não permita que existam em sua obra esses “elementos” que ela aprendeu a chamar de “sujos” e “baixos” e indignos de figurarem nas páginas da Alta Literatura?
Toda essa pudicícia austeniana daria, aliás, uma ótima paródia – imaginem que hilário um Orgulho e Preconceito Versão Pornô, com diálogos mais ou menos assim:
ELIZABETH: Oh! Darcy! I'm obliged to confide that I shall not be able to conceal from you any longer the fact that I'm so god-damned horny! Shouldn't you punish me violently with your sword for my reproachable misconduct on being such a nasty little girl?
DARCY: Oh! Lizzie! I shall in no time have you acquainted with my noble willie-willie, who shall punish you infinitely!
Se Jane Austen tivesse “apimentado” este seu prato com um pouquinho de erotismo, talvez se saísse com um romance ainda mais excitante de ler e com um cheiro mais forte de realidade – mas que certamente iria escandalizar bem mais seus contemporâneos. Mas seria exigir dela que fosse o que não poderia ter sido, dadas suas circunstâncias biográficas e sua educação. Uma Jane Austen pimentinha, endiabrada, só poderia surgir no pós-1960, na esteira das conquistas do feminismo e da revolução sexual, e até me arrisco a sugerir que uma candidata já surgiu: Erica Jong, a ótima autora americana, que não é menos excelente por ter sido best seller, e que me soa como um mix entre Austen, Woody Allen, Sterne, Fielding e proto-Sex And The City em seus romances deliciosos - como “Medo de Voar”, “Salve Sua Vida” e “Fanny”, entre outros.* * * * *
Outra coisa que me dá um pouco de comichão é que há também uma constante idealização do matrimônio que soa bem ingênua e demodê a alguém como eu, acostumado a ler os ataques furiosos de Wilhelm Reich e José Ângelo Gaiarsa ao casório e que foi “educado” sobre o assunto por obras como Cenas de Um Casamento, de Bergman, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols, e Revolutionary Road, de Sam Mendes (só pra ficar em poucos exemplos).
Os personagens de Jane Austen estão sempre doidinhos pra casar, como se isso fosse a coisa mais doce e sublime do mundo: o “grande dia” de subir ao altar é visto pelo Mr. Collins, por exemplo, como “the day that was to make him the happiest of men” (pg. 137); ver as filhas casadas causa à mamãe Bennett certos êxtases quase orgásticos; e as mocinhas, quando se consuma o pacto de casamento, vêem-se como as mais felizes das criaturas. Que possa haver uma pontinha de ironia austeniana na descrição dessas altas expectativas românticas em relação ao idílio conjugal, até acredito que possa ser verdade; mas como deixar de considerar isso como água-com-açúquice exagerada, nós todos que não temos um pingo dessa crença no maravilhosidade da “coisa”?
Também neste sentido Elizabeth parece uma mulher menos ingênua, mais complexa e infinitamente mais sábia do que todas as mulheres que a rodeiam neste livro. Ela não está “doidinha pra casar”, como as maninhas, e recebe as propostas de Mr. Collins e de Darcy sem dar mostrar de tolas ingenuidades ou de crenças absurdas em mágicas felicidades que nasceriam do enlace. Atormentada por dúvidas, filosofa a certo momento:
“...since we see every day that where there is affection, young people are seldom withheld by immediate want of fortune from entering into engagements with each other, how can I promise to be wiser than so many of my fellow creatures if I am tempted, or how am I even to know that it would be wisdom to resist?” (pg. 164)
O próprio casamento dos pais não é nada tão idílico e harmonioso a ponto de parecer algo digno de inveja. Em um dos trechos mais impregnados de fina ironia do romance (e quiçá de todo o romance inglês do século 19), Austen escreve:
"Had Elizabeth's opinion been all drawn fro her own family, she could not have formed a very pleasing picture of conjugal felicity or domestic confort. Her father captivated by youth and beauty, and that appearence of good humour, which youth and beauty generally give, had married a woman whose weak understanding and illiberal mind, had very early in their marriage put an end to real affection for her. Respect, esteem, and confidence, had vanished for ever; and all his views of domestic happiness were overthrown. (...) Her ignorance and folly had contributed to his amusement. This is not the sort of happiness which a man would in general with to oew to his wife; but where other powers of entertainment are wanting, the true philosopher will derive benefit from such as are given." (261)
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 13:35 |
Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
:: Quills ::
[Quills, de Philip Kaufman, EUA, 2000, 124min]
Kate Winslet e Joaquin Phoenix
“De tudo o que se escreve,
só aprecio o que é escrito com o próprio sangue.”
NIETZSCHE
Não faltaram as fogueiras para os hereges, as perseguições aos "desencaminhados", o sacrifício de "ovelhas desgarradas", as tentativas de exorcismo dos “possuídos” pelo dêmo, as queimas e censuras de livros malsãos, e todo o resto dos terrorismos dos beatos sanguinários, mas alguns “demônios” foi impossível calar. A voz de alguns “possessos” ressoa através dos séculos e das mordaças, para desespero das Igrejas e seu kitschismo sistemático. O Marquês de Sade, um dos protótipos supremos do homem blasfemo, com o capeta no corpo, louco para escandalizar, foi um desses que não se deixou reduzir ao silêncio por nada neste mundo. Nem tampouco por nenhuma ameaça de punição no outro ou qualquer promessa de recompensa dos céus em que cuspia.
O excelente filme de Philip Kaufman retrata o endemoniado autor francês na fase em que está preso num hospício. Ali goza de regalias que não possuem nenhum dos outros 200 louquinhos ali encerrados: tem um quarto luxuoso, vinho fino, sofás confortáveis, pena e papel à vontade e tratamento pra lá de “humanitário” por parte do padre que administra o asilo-de-loucos.
Encarnado por Geoffrey Rush com uma garra e uma visceralidade de encher de sangue os olhos do espectador, o Marquês de Sade é retratado aqui a descer numa espiral infernal em sua rebelião sem freios contra o Estado, a Religião e a Repressão Sexual, Política e de Expressão.
A princípio, extasiado com suas travessuras, mostra-se um capetinha alegre que, trancafiado pelas autoridades, consegue continuar publicando seus livros pornográficos e sacrílegos com a ajuda de uma lavadeira do manicômio (Kate Winslet) e de editores que sabem do imenso potencial comercial daquela obra escarlate e iconoclasta. É a época em que “Justine” torna-se um imenso sucesso na Paris napoleônica repleta de guilhotinas e decapitações públicas, “decorada” com anãs prostitutas e livros libertinos pirateados em becos. O falatório sobre o best-seller é tão disseminado que o próprio imperador Napoleão tem que tomar medidas drásticas contra o desbocado Marquês, reduzindo a chamas suas obras e enviando um “psicoterapeuta” tirano e sádico (vivido por Michael Caine) para pôr-lhe juízo.A história, daí em diante, vai ganhando contornos cada vez mais trágicos, até se resolver num banho de sangue, vísceras e excrementos que parece uma junção de Shakespeare com Bocaccio levada à telona por um Pasolini dos novos tempos. “I've got all the demons of hell in my head”, confessa o Marquês, “and my only salvation is to vent them on paper.” Essa necessidade absolutamente imperiosa de escrever para exorcizar os próprios demônios é o que será atacado pelo médico-vilão contratado para silenciá-lo. Poderiam simplesmente matá-lo, esse Marquês tão irreverente e incômodo, mas preferem impedi-lo de se pronunciar. Não sabem que estão lidando com um homem para quem a escrita é como a respiração, como o alimento, e que irá se debater furiosamente, até seu último alento, contra os que querem impedir sua voz de soar. “My writing is involuntary, like the beating of my heart...”.

As acusações contra esta obra literária ultra-polêmica são inúmeras: o Marquês de Sade representa um “profundo insulto às pessoas decentes”, escreve nada além de uma “enciclopédia de perversões”, só revela “o pior da humanidade”, enche páginas onde a crueldade humana atinge os mais horrendos cumes e é quase "celebrada"... Que os escritos do Marquês de Sade, desde aquelas tempos, fazem soar os alarmes e são vistos como “perigosos”, daninhos, geradores de péssimos efeitos éticos, é bem sabido. Mas é interessantíssimo acompanhar os duelos que, em vida, o autor enfrentou contra seus opositores. Os diálogos de Sade com o padre (vivido por Joaquin Phoenix) são primorosos ao pôr frente-a-frente duas concepções de mundo radicalmente diversas que se chocam:
“Não crei o mundo, só o registro!”, diz Sade.
“Somente seus horrores e mais escuros pesadelos!”, retruca o padre. “E com quê objetivo? Nada além de sua própria gratificação mórbida!”
“Escrevo sobre as grandes verdades universais que cimentam a humanidade num só todo, por todo o mundo”, defende-se Sade, de certo modo tentando justificar o valor de seu trabalho pelo “realismo” de seu retrato (altamente misantropo) da “podridão dos corações humanos”. “Nós comemos, nós cagamos, nós trepamos, nós matamos e nós morremos.”
E o padre, contra essa unilateral sugestão de uma “universalidade” do mal, lembra da nossa capacidade para o bem: “Nós também somos capazes de amor, de construir cidades, de compôr sinfonias, de perseverar na vida. Não será a missão da arte nos elevar acima do nível das bestas?”
* * * * *
A revolta de Sade é não somente o ímpeto furioso de uma fera enjaulada por autoridades que não respeita, mas também expressão de um ateísmo radical, que vai muito mais longe do que a mera negação da existência de Deus e recai numa longa procissão irada de provocações e dedos-médios levantados para um céu abominavelmente vazio – e contra todos aqueles que, iludidos e enlouquecidos, continuam pregando sobre a sapiência e bondade do Criador em meio às guilhotinas e às criancinhas que morrem de fome.
Quando o padre tenta convertê-lo, ele se recusa terminantemente a abraçar um Deus tão abominável: “This monstruous God of yours? He strung up His very own son like a side of a veal. I shudder to think what He'd do to me”. Em outro momento do filme, o Marquês, com uma visão límpida dos horrores sociais que o rodeiam, lembra ao padre que vivem numa realidade que tem como protagonista “the endless procession of the guillotine”: “We're all lined up waitin' for the crunch of the blade. The rivers of blood are flowing beneath our feet. I've been to hell. You've only read about it.”
Como uma criança pimentinha que, ao ser castigada, só se torna mais endiabrada, o Marquês de Sade vai num crescendo de revolta e maledicência à cada chinelada, à cada chicotada, à cada tortura que lhe infligem. O padre e o “psiquiatra” tentam, cada um de seu modo, regenerá-lo, moralizá-lo, domesticá-lo, “harness the beast that rages in his soul”. Mas sempre em vão. Se lhe retiram a pena e o papel, ele utiliza ossos de frango e gotas de vinho para escrever em seu lençol, depois entregue à lavadeira que o repassa para os editores. Quando lhe tiram isso, ele usa lascas de espelho para romper a própria pele e escrever com o próprio sangue em suas próprias roupas. Esvaziam seu quarto de todos os móveis, todos objetos, deixando também o Marquês nu em pêlo. Ainda assim, ele acha meios de continuar criando sua insistente obra-blasfêmia, ainda que seja sussurando sua insana prosa através de buracos na parede para os loucos vizinhos. Como último recurso, cortam-lhe fora a língua, amarram-no ao chão com correntes, preso numa catacumba sem luz, e ainda assim ele escreve nas paredes com os próprios excrementos!
O filme de Kaufman, ao contrário do Salò ou 120 Dias de Gomorra de Pasolini, não faz uso da técnica do “choque pelo choque” e não foi feito meramente para escandalizar os suscetíveis, mas sim para fazer-nos sentir visceralmente as contradições e batalhas de um destino humano dilacerante.Por um lado, o Marquês de Sade é descrito como um homem de extrema sagacidade, um escritor de brilhantismo e força, dotado de muito senso de humor e lucidez na crítica social. Em seu contato com a lavadeira, jamais descamba para o completo desrespeito ou para o apelo à força bruta: é um perfeito gentleman, apesar de suas safadices, e tenta convencê-la pela retórica e pelas carícias a “experimentar sem vergonha os prazeres da carne”, prometendo fazer nela altas delícias “ao Sul do Equador”. Momentos de humor fino e genial não faltam, sejam nos excertos dos contos, sejam em certos diálogos (como na cena em que o Marquês convida o padre a tomar um vinho para que o papo role com mais desenvoltura, “because conversation, like some parts of the anatomy, works really better when lubrificated”).
Mas o filme tampouco faz dele um “herói” e deixa aberta a possibilidade de que sua obra seja de fato perversa e daninha, instigando as pessoas a cometerem os crimes e abusos narrados em seus contos – o que acaba ocorrendo quando um dos loucos, em transe sanguinário sob o efeito das palavras do Marquês, assassina Madeleine. Mas resta a questão: o louco já não tinha uma predisposição à violência e à falta de contenção pulsional, sendo a obra do Marquês um mero estopim para o trasnbordamento de um oceano de fúria bruta que ele já trazia dentro de si?
Já as duas “autoridades” que agem diretamente sobre seu caso acabam caindo em perversidades disciplinatórias e sadismos corretivos que os tornam até piores do que os personagens que povoam os livros do Marquês de Sade – e é aí que está a genial ironia deste filme genial. Do mesmo modo que homens supostamente “santos” sujaram de sangue suas batinas ao perseguirem os heréticos e as bruxas, tornando-se muito mais diabólicos em suas inquisidoras perseguições do que suas vítimas, também aqui os “agentes da punição” tornam-se mais malévolos e anti-éticos do que o Marquês que tentam exorcizar. O padre, a princípio tão promissor em seu “humanitarismo”, atinge um estado horrendamente psicótico em que diz: “I'm not the first man God has asked to shed blood on His name”. O “psiquiatra”, desde o começo um poço profundo de perversidade, um mercenário/torturador sem escrúpulos, vai progressivamente aparecendo aos olhos do espectador como um homem ainda mais nojento e vicioso do que o artista atormentado que foi contratado para “consertar”.
Se hoje, em pleno século 21, estamos assistindo filmes hollywoodianos sobre o Marquês de Sade, com atores do primeiro escalão, sendo indicados ao Oscar por seus papéis, e podemos facilmente comprar livros dele, inclusive em shopping centers, é sinal de que sua voz, por mais sacrílega e blasfematória que seja, tem uma força irreprimível. Esta obra, polêmica e explosiva, prossegue como um espectro, assustador e fascinante, que muitos continuam a perseguir, mas que ninguém jamais conseguiu apagar da face da Terra, fazendo de conta que tais palavras e pensamentos nunca nasceram.
“In conditions of adversity, the artist flourishes”, sugere o Marquês em certo ponto do filme. Esta voz artística que se levanta dos lodaçais do destino, irada e insana, é testemunho de uma vida que os poderes assépticos e repressores não puderam silenciar. Se, para além do horror que o Marquês de Sade nos causa, ele é também uma figura de tamanho fascínio, talvez seja porque sentimos um certo respeito místico por um homem que esteve pessoalmente no inferno, enquanto nós só lemos a respeito. E é um inferno na Terra! Um inferno que lhe inscreveram na carne através de torturas e censuras; um inferno que o homem construiu com suas guilhotinas e suas religiões que decapitam os que pensam diferente; um inferno criado por uma repressão da sexualidade que só cria neuroses e perversões e jamais conduz ninguém à "santidade" alguma; um inferno em que encerram-se em hospícios as vozes da discórdia e que se empurra-se rumo a loucura aquele que questiona a normalidade - um inferno, enfim, contra o qual ele se insurgiu com toda a fúria, provando com seu tresloucado heroísmo que pode-se romper até com as mais apertadas e indestrutíveis das mordaças.
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 09:46 |
Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
:: colecionador de palavras preciosas (III) ::
“Tudo faz amor”. E eu acrescento, quando me dizes “faz amor”: até mesmo o passo com a estrada, até a baqueta com o tambor. Até o dedo com o anel, até a rima com a razão, até o vento com a vaga, até o olhar com o horizonte. Até o riso com a boca, até o vime com o facão, até o corpo com a cama e a bigorna debaixo do martelo. Até o fio com a tela, a terra com o verme, o edifício com a estrela, o sol com o mar. Assim como a flor faz com a árvore, até a cedilha faz com o c, até o epitáfio com o mármore, e a memória com o passado. A molécula com o átomo, o calor com o movimento, um tomo juntado ao outro, até a argola com a corrente... tudo, enfim, exceto o Ódio e o coração que Ele corrompe. Sim, tudo faz amor, debaixo das asas do próprio Amor, como se fosse no seu Palácio. Até as torres das cidadelas com a saraivada de balas. Até as cordas da harpa com a falange do dedo. Até o braço com a atadura e a coluna com o teto. (...) Tudo, enfim, tudo em todo o universo, exceto a face com a bofetada...” --- GERMAIN NOUVEAU (1852-1920)
“Muito se teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada... bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado...” --- das anotações de Harry Haller (em O Lobo da Estepe, de Herman Hesse)
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"Un ciel délivré des ombres, c'était l'horreur pour moi. Je n'appréciais que les temps gris, et cela en raison de la mélancolie en moi, de l'insecte de mélancolie qui cheminait en moi comme dans une souche creuse, vermoulue. C'est une maladie qui affecte l'esprit d'autant plus sûrement qu'il craint alors de s'en défaire: le mélancolique est celui qui est persuadé d'avoir tout perdu - sauf sa mélancolie à quoi il tient farouchement. C'est la maladie de celui qui, dépité de n'être pas tout, choisit, par un revers enfantin de l'orgueil, de n'être rien. (...) Cette maladie m'est passé, madame. Je ne sais trop comment, mais elle m'est passé. Aujourd'hui je sais vous aimer, et si je goûte toujours les ciels gris, c'est d'une manière plus calme: je les aime parce qu'ils sont, non parce qu'ils confirmeraient une catastrophe éprouvée au-dedans de mon esprit. Au fond, même dans ces accès de mélancolie, je n'ai jamais trop su quoi faire de cette vie sinon l'aimer, l'aimer follement et le lui dire: écrire des lettres d'amour, éclairer la blancheur d'un papier en y renversant de l'encre... (...) Je vous aime, madame - même si cet amour ne vaut pas et ne vaudra jamais pour un acquiescement au monde: on ne peut ressentir la douceur de cette vie sans en même temps concevoir une colère absolue contre le mal qui la serre de toutes parts." --- CHRISTIAN BOBIN, L'Inespérée
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 17:18 |
Domingo, 21 de Junho de 2009
:: estômagos que roncam em uníssono ::

A UTOPIA DE UM PÃO
- José Padilha, diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174, explora mais uma vergonha nacional (a fome no Nordeste) em seu novo documentário Garapa -
“José Padilha é um cineasta in – inquieto e inconformado com a realidade que o cerca, a ansiedade à flor da pele. Está sempre a mil por hora, como se estivesse o tempo todo dirigidno um filme sem começo nem fim, com um roteiro imaginário na cabeça, em busca de um final feliz que nunca chega. Tem sede e fome de justiça, não se conforma em ver nada errado”, escreve Ricardo Kotscho (na revista Brasileiros, #23). Agora o brilhante diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174 retorna em seu terceiro filme, Garapa, apostando mais uma vez na imensa potencialidade do cinema como um instrumento de conscientização social. A impressão que fica é a de que ele confia no cinema como um modo de construir uma empatia, uma identificação e uma comoção do espectador com as realidades sociais que nenhum livro, relatório ou estatística é capaz de transmitir. E, ao sentir o impacto indelével que é chocar-se com Garapa, quem haveria de negar esse poder extremo que às vezes consegue conquistar a imagem cinematográfica?
Mais de 70 anos desde a escrita de Vidas Secas, de Graciliano Ramos (de 1938), 45 anos depois do lançamento de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (de 1964), e 20 anos desde Ilha das Flores, de Jorge Furtado (de 1989), para ficar em poucos exemplos, temos que admitir: as existências no sertão continuam áridas, as barrigas roncam sem parada e as bocas humanas vão engolindo a comida que até os porcos rejeitariam. É verdade que já estamos ouvindo faz décadas sobre a péssima distribuição de renda e de terra que faz do Brasil um dos países mais injustos sobre a face da Terra. Mas não há nada de supérfluo em mais uma obra que venha nos rememorar de uma chaga que ainda não parou de sangrar e que estamos longe de ter conseguido remediar. A situação é urgentíssima, e sempre foi urgentérrima, mas é urgente faz tanto tempo que até nos esquecemos que há um sinal vermelho piscando e que os alarmes, há dúzias e dúzias de anos, estão enlouquecidamente soando. Garapa é um lembrete que vem em boa hora, para retirar as vendas que indústria do entretenimento e do consumo nos mete nos olhos para que não vejamos o quanto a situação é crítica e deprimente.
Garapa foi filmado antes de Tropa de Elite, em pleno verão de 2005, na cidadezinha de Quixadá (a 200km de Fortaleza). Mas só foi montado e finalizado com a ajuda do capital gerado pelo blockbuster que mostrou o Capitão Nascimento e seus asseclas do BOPE em confronto sangrento contra os traficantes do Rio.
Padilha diz que, dos três filmes que fez, este é o mais “universal”. Sinal de que não pretendeu fazer apenas um filme de brasileiro, e para brasileiros, mas um testemunho e um protesto que devem ser ouvidos em qualquer canto do planeta Terra, onde – para nos rendermos à pobreza comunicativa de uma estatística – cerca de 1 bilhão de seres humanos, uma pessoa em cada sete, passa fome.
A escolha do preto e branco talvez se explique por aí: por um lado, o “fato” retratado nada tem de “colorido” - é uma realidade sombria, acizentada e tétrica, em que o Sol sempre flamejante não faz com que os destinos sejam menos negros. Por outro, o preto e branco também auxilia a deixar o retrato com vocação para a universalidade, já que um filme à cores traria muito marcada os tons específicos da paisagem e do solo no sertão nordestino brasileiro, enquanto que o p&b torna aquele cenário semelhante a qualquer pocilga terceiro-mundista, seja no Oriente Médio, na Ásia, na África ou na América Latina.
Além disso, a monotonia da cor ecoa a monotonia da miséria, já que à vida destes esfomeados, reduzida ao mais primário, se vê presa num chão-a-chão sem futuro, um presente sem horizontes e um passado que vai-se esquecendo rápido pois não há nele nada digno de ser rememorado. Um tempo em que a única e terrível obsessão e é manter um organismo vivo – e com quê custo!
Aqui somos apresentados a crianças que vão viver e vão morrer, a maioria delas, sem jamais conhecer o gosto do chocolate, sem jamais saber como é essa tal de Coca-Cola e que dificilmente conseguirão realizar essa façanha: se tornar “gente grande”. Porque por ali virar adulto é mais difícil que tudo: quase todo mundo morre tentando.
São crianças com os dentes podres, que são arrancados à força e que berram sem fim pelas madrugadas por um remédio que não há e por um dentista que não se pode pagar. Mas que importa ficar banguela, se não há carne nem pão que fosse preciso morder? Ah, amiguinhos, no Ceará ter dentes sadios é quase um luxo desnecessário, já que a principal fonte de nutrição da molecada é a “garapa”, ou melhor, água com açúcar!
São crianças piolhentas, imundas, que andam sem roupa não porque o clima convide a uma alegre brincadeira de nudismo, mas sim porque não possuem um mísero trapo com que cobrir seus corpinhos calcinados de sol. Têm a pele lotada de “perebas”, que o médico diz que é alergia, mas que não desaparecem (pelo cotnrário: só se multiplicam!) pelo contato cotidiano com as moscas, muriçocas e outros insetos que infestam casas que jamais conhecerão o inseticida. Ah, mas não é lindo de ver os primatas vivendo em comunismo com os artrópodes e as bactérias?
Esses pobres “filhos da miséria” são “arranjados” por seus pais como se fossem uma epidemia - devido à falta de métodos contraceptivos e ausência de consciência clara da necessidade de controle de natalidade. Uma das mães, que antes dos 30 anos de idade já possui 11 filhos, sem ter condições econômicas de alimentar sequer UM, usa uma linguagem sintomática: filho, para ela, é algo que a gente “pega” - como se pega uma doença ou um resfriado. Por mais que ela queira controlar a disseminação de uma prole que vem ao mundo chorando, para viver de estômago roncando, e morrer cedíssimo e definhando, ela não tem os meios para barrar essa enxurrada de novos seres que saem de seu ventre e que vêm se adicionar ao imenso e desolador cenário da miséria.
E, se a situação das crianças é de quebrar o coração, o que dizer dos adultos? São pessoas um tanto enlouquecidas por excesso de privação e humilhação. Quantas milhares de Estamiras não deverão estar espalhadas por este sertão, balbuciando discursos de raiva e humilhação à beira dos barracos e lixões?! São lares marcados pelo desemprego sem horizontes, pelo alcoolismo crônico e incurável, pela troca de ofensas entre os cônjugues, por cenas de estupro marital que não são denunciadas, por uma triste resignação a uma vida que talvez nem seja digna desse nome... Apesar de tudo, são seres que frequentemente se aferram à fé e crêem que “Deus dá”. Mas que Deus é esse, sempre silente nas nuvens, que não mexe um dedinho de sua mão onipotente para amortecer a fome de 1 bilhão de seus “filhos”? E o que ocorreria, se os despossuídos desse mundo deixassem de orar nas igrejas por uma ajuda que não chega jamais e se pusessem a agir em prol de uma transformação concreta desse mundo que parece abandonado por seu Criador?
E, enquanto marido e mulher trocam grosserias e sopapos, num português de analfabetos, em meio a crianças que murcham vivas de subnutrição, enquanto o papai vai vender o leite para ter sua dose diária de cachaça, o espectador no cinema talvez se sinta envergonhado de sua pipoca e seu refrigerante, que aprecia no conforto de um multiplex em que pagou 20 reais de ingresso e mais 20 de guloseimas. Numa sessão de cinema de Garapa, há casais ou grupos de amigos que gastam mais em duas horas do que uma família de 12 pessoas gasta em um mês. Mas não é isso o mais grave – a alfinetada final o filme reserva para o créditos, que nos contam, para nosso escândalo, o número de pessoas que morreram de fome durante a projeção do filme. Garapa é também um filme que acredita que há coisas muitos mais urgentes a fazer do que assistir filmes.
* * * * *
ESMOLA NÃO!
Um documentarista não é um agente humanitário. Está ali, com sua câmera, para registrar o real como o encontra, sem alterá-lo ou maquiá-lo antes de captá-lo. Todo o sentido do filme se perderia se uma equipe de produção tratasse de “arrumar o cenário” dentro destas casas e “dar dicas” às famílias sobre como deveriam se comportar assim que se apertasse o “REC”. José Padilha é magnífico e exemplar neste sentido, demonstrando plena compreensão de qual é a atitude de um documentarista de gênio – e coloca-se, desde já, entre os mais brilhantes nomes do documentário nacional dos últimos anos ao lado de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles.
Vendo aquelas crianças passando fome frente à câmera alguns de nós talvez faça a pergunta, pondo em cheque à ética daquele que segura o instrumento que apenas observa, passivamente, um espetáculo terrível que ele poderia concretamente remediar: “por que o pessoal do filme não paga um almoço pr'essa gente? não dá umas esmolas? não liga pras assistentes sociais? não ajuda a parar a sangria com band-aid e torniquete?”
É que este filme não está aqui para nos dar edificantes lições de moral sobre a necessidade de caridade, de generosidade, através do pífio e inútil exemplo da esmola. O que esses seres humanos precisam não é de esmola, isso é certo, e todos aqueles que estão ansiosos para se libertarem do ônus da culpa social através desse meio não recebem deste filme nem fiapo ou rastro de permissão. Pelo contrário: Garapa traz, no fundo, um implícito cansaço com os paliativos, e nos deixa com a sensação de que algo muito mais radical, uma modificação de uma magnitude muito maior, é necessária para amelhorar este triste quadro. Para Padilha, a atitude de “mostrar o real”, sem maquiagens, não se opõe à atitude paralela de “modificar o real”, sem covardias e medidinhas paliativas, que só aplacam por minutos a dor, deixando intacta a doença.
Um documentarista também não é um dramatizador, e Garapa, apesar de poder ser visto como um filme profundamente dramático e perturbador (tanto que muitos espectadores saem do cinema dizendo-se tão chocados quanto quando viram Dogville pela primeira vez!), não parece ter essa intenção: de dramatizar. Em momento algum utiliza-se trilha sonora musical para sentimentalizar, nem se procura utilizar artifícios cinematográficos para fazer as lágrimas virem aos olhos dos observadores de todas aquelas tristezas. A situação é tão triste, tão triste, que os olhos ficam secos. Tão secos quanto aquele sertão que lágrima alguma torna menos árido.
Toda a renda de Garapa vai ser revertida em benefício de famílias carentes do Ceará. A única coisa que me entristece numa atitude tão louvável, e tão digna de ser imitada, é que um filme destes provavelmente não fará nem 10% do sucesso que fez Tropa de Elite - apesar de ser um filme tão “violento” quanto, e talvez ainda mais desolador. O filme anterior de Padilha foi certamente um dos grandes filmes nacionais da década (em termos de público, de debate social gerado, de cópias pirateadas e vendidas no mercado negro e de repercussão no exterior, rendendo até mesmo um Urso de Ouro em Berlim). Mas trazia uma violência crua, um tanto estilizada, podendo ser enxergado como um tarantinesco do terceiro-mundo que oscilava entre a crítica social e a espetacularização da violência. Já Garapa nada tem de cinema espetaculoso e não traz um grão de hollywoodianismo em suas veias. Acho isso absolutamente magistral: trata-se um filme brasileiro que possui uma estética que é absolutamente limpa de qualquer contaminação da estética para-as-massas do cinemão americano, ao mesmo que carrega uma grande vocação para a universalidade. É, sem dúvida, um dos filmes mais importantes, brilhantes e chocantes que fez o cinema brasileiro nesta década e nos contamina com uma sensação de indignação e urgência que são imprescindíveis na tentativa de transformar um quadro tão deprimente. E agora, esqueçamos o cinema e os textos sobre cinema, e mãos à obra!
NOTA: 10.0
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 09:19 |
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
:: a little bit of poetry! ::
Et maintenant c'est le mystère,
Demain, triste, mais frèle et blanche,
(trad: Mário Faustino. in: Artesanatos de Poesia.) Postado por Eduardo Carli de Moraes às 10:15 |
Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
:: boiando na sopa de letrinhas ::

Concebo a Leitura como uma das mais importantes e fascinantes das aventuras humanas. Desdenho um pouco os Colombos e Cabrais, que entram em caravelas em busca de novos continentes, pois sei que não preciso de barcos nem de velas para viajar para as mais variadas e espantosas plagas. Todo livro é uma viagem. E em toda viagem a jornada é a recompensa, e não o chegar-ao-fim. Viajo tranquilamente dentro dum quarto. E estar na prisão não me seria tão duro se eu tivesse acesso a todos os livros do mundo - e a papel e caneta que pudessem sair de minha cela e ganhar o mundo.
Mergulhando nos livros, chego diariamente a terras incognitas, mil delas, proeza de que se gabam os conquistadores de terem realizado apenas um dia (ou poucos) de suas vidas! Ah, e que terras selvagens e inexploradas, desconhecidas de nossos radares e mapas, são mais interessantes de desbravar, de conhecer e de descobrir do que a mente de nossos companheiros na vida-jornada? Especialmente aqueles que, por terem profundamente pensado, belamente se exprimido ou intensamente vivido, chegaram a ser selecionados pela peneira do tempo como a fina flor da humanidade!
Mas sempre senti que minha jornada de leitura não pode ser imposta de fora: não sigo os itinerários e os mapas que me mandam seguir na Escola, mas sim construo meu próprio caminho, guiado pelo impulso do meu desejo e da minha curiosidade. Só consigo ler com proveito o que quero ler, e não o que é preciso ler. Talvez por isso sinta tamanho carinho pela leitura, e encontre nela tantos prazeres, e goste tanto de dedicar tanto da minha vida à isto - esta coisa por tantos desdenhada, e que na vida de tantos não ocupa quase nada... Ah, os “homens práticos”, como desprezam esses que ficam nadando em sopas de letrinhas! Como se não fosse este um dos únicos meios de realmente crescer como homem! Ler mais para ser mais, ler mais para viver melhor: acredito com toda a convicção nessa besteira, caros burocratas!...
Ler é viver! Melhor dito: ler é munição para viver; dá as ferramentas com quê pensar esse viver; põe a mente em diálogo, em regime dinâmico, longe da letargia; oferta um acervo de remédios para curar os males desse viver; e, se procurarmos bem, podemos achar um baú de sabedorias potencialmente amelhoradoras e salvadoras desse viver... Pra mim, ler não é "brincadeira": é uma das coisas, na vida, que mais conta. Acho que não leio "à toa", “por hobby”, pra "passar o tempo", pois preciso “me inteirar”, pra me gabar de ser "sabido", porque livro é um “bom sonífero” - nem mesmo porque acho que “conhecimento é importante”! Acho que é o motor é muito mais uma furiosa fome, uma desvairada necessidade, um ardente e incontrolável desejo de decifrar o mistério do mundo...
É a grande Esfinge, a grande incógnita que me olha de dentro do Cosmos, o que me impulsiona a viajar por estes mares de palavras e idéias, em busca de luzes que me aclarem e me expliquem o mistério - que sei, no fundo, inexplicável e ineclarável por inteiro. Ainda bem! Pois assim a busca continua, sempre e sempre, perpétua e irrealizável, quando sei que nunca terei todas as respostas. E nunca me estancarão o parto de perguntas, que fluem do meu sangue afora como hemorragias!
As bibliotecas? São templos muito mais veneráveis do que as igrejas e os cemitérios. E ali estão certos objetos que deveríamos adorar com um fervor imensamente maior do que aqueles que voltam os crentes para as estátuas dos messias ou os crucifixos. Um livro, apesar de concretamente ser apenas papel e tinta, representa nada mais nada menos que uma janela aberta para que possamos olhar dentro de outra mente. Não é pouca coisa. Não desejas olhar pelo buraco da fechadura que dá para o mistério de outros seres? E que seria de nós, se não pudéssemos conhecer, ainda que por este mísero buraquinho, um pouco do que disseram e pensaram, que sentiram e compartilharam, todos os melhores homens da humanidade?
É possível estabelecer diálogo com os mortos, sim senhor! E não falo de espiritismo mela-cueca, supertição escrotilda ou misticismo de meia-tijela. Esses que um dia nasceram mas que hoje are not among the living, deixaram, alguns deles (e certamente poucos!), seus relatos, testemunhos, raciocínios, lutas, dúvidas, vitórias e desfalecimentos - e por isso podemos seguramente dizer: não viveram em vão. Já todos aqueles que viveram e nada deixaram, nem de escrito, nem de construído, nem de composto, nem de dito, nem de amado, esses seguramente viveram mal e viveram, talvez, em vão. Como aqueles que viveram para destruir. Viver, sem que isso seja fazer algo à toa, me parece ser isso, no mínimo: viver dando testemunho do que isto significa para nós; de como sentimos essa aventura e esse mistério; de como reagimos aos choques e às maravilhas que se interpõem em nosso caminho. Do not go quietly into your grave!
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"Ler bem pode ajudar a viver, porque o sujeito se informa, se identifica, se transfere, principalmente se anima. Mas o que leva as pessoas a escrever é uma angústia diferente destas: a angústia de riscar um destino, interferir na história, se colocar no campo de jogo. Logo, ler não é condição para escrever, mas sim munição para viver, e para escrever também. A atitude de ler é metonímia da vontade de entender o mundo. A atitude de escrever, por sua vez, é metonímia da pretensão legítima e transcendente de transformar o mundo." - GUSTAVO BERNARDO, Redação Inquieta
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O LIVRO DOS LIVROS?
Mas não nego que às vezes venha o cansaço. Gostaria que houvesse tudo o que procuro já reunido, sintetizado e expresso de maneira impecável e final no Livro dos Livros. É uma ilusão que talvez muitos de nós alimentemos, no começo dessa longa jornada de busca existencial que é a leitura: a de que um dia acharemos o livro que contêm todas as respostas, o livro que traz remédios para todos os males, o livro que, compreendido e assimilado, transformado em “posse” nossa, irá nos tornar, de uma vez para sempre, completos, felizes, serenos e sábios!
Há desses que passeiam pelas bibliotecas com os corações incendiados, investigando com furor naquele oceano de palavras em busca de uma panacéia, de um baú de esplendorosos tesouros, algo que fosse a solução final para todas as interrogações e dolorosidades! Muitos jamais o encontram (é o meu caso!), e percebem que isso que chamamos de “sabedoria” é algo todo esparramado, disperso, como um espelho que se desfez em cacos ou pétalas de uma flor que jamais será completamente re-pétalizada...
Há um Livro Final, que contenha em si todas as Verdades Eternas, depois do qual nenhum outro livro precisará ser escrito, já que neste Livro Supremo estarão todas as sabedorias, todas as belezas, todas as soluções para todos os mistérios? Ou será que todas as obras de escritura, como sugere Mallarmé, representam um “imenso concurso pelo texto verídico, entre as épocas ditas civilizadas ou letradas”, concurso este que nunca chega ao fim?Que os religiosos acreditem nisto – que delirem que a Bíblia Sagrada, por exemplo, “esgota” a Verdade, diz toda a Verdade, não deixa espaço algum para uma adição de verdades ou a revelação de novas verdades - isso não impede que pensemos, nós ateus, que este Livro Absoluto não existe, nunca existiu, nem nunca existirá. “É a ausência do Livro que deste modo deploramos”, diz Derrida, e é como se chorássemos por esta “ausência da escritura divina”, por este Deus que jamais nos empresta sua pena, que jamais dá a resposta para esta Charada que se chama Cosmos, por ficar sempre no formidável silêncio de que são capazes somente as coisas que não existem.
Por isso a escritura, diz Derrida, pode ser sentida como algo perigoso e angustiante, aventura sem seguros e cheia de riscos, jornada em que embarcamos sem saber ao certo para onde vamos... “A escritura é para o escritor, mesmo se não for ateu, mas se for escritor, uma navegação primeira e sem Graça.” Ler-e-escrever é navegar em mar tormentoso, na rota da decifração dos mistérios, sabendo que Deus algum nos auxilia nessa jornada e que temos como guias somente o que outros falaram – os relatos (decerto preciosos!) de outros navegantes. “Se a criação não fosse revelação, onde estaria a finitude do escritor e a solidão da sua mão abandonada por Deus?” - pergunta o filósofo.
O Livro dos Livros não existe, e a Sabedoria Completa não se encontrará em um só lugar, mas sim esparramada por aí - e cada um de nós só resgata dela algumas migalhas! Às vezes nem isso. É esta “certeza perdida”, esta “ausência da escritura divina”, o que “comanda toda a estética e crítica modernas” - comenta Derrida. Isso nos condena a ler-e-escrever sem antes conhecer as verdades, é claro (que sentido teria sair em busca do que já temos?); ler-e-escrever na tentativa e na batalha para descobrir-las; ler-e-escrever numa certa escuridão e num certo tateamento, como crianças que vão entrando, ao mesmo tempo curiosas e temerosas, num quarto sem luz; ler-e-escrever, de certo modo, como sonâmbulos, e destes que nem mesmo conseguem estar certos de que não despencarão em abismos...
Mas sem isso, onde estaria a Aventura?
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 16:21 |
:: beba com responsabilidade! ::

Mas calma lá! "True Blood", o viciante seriado novo da HBO (que sempre manda bem: quem viu Deadwood, Six Feet Under, In Treatment, Os Sopranos etc. que o diga!), pode ser rejeitado fácil pelos desavisados como mais um besteirol de terror americano, mas acreditem: é uma deliciosa criação da teledramaturgia estadunidense. É a nova empreitada do genioso e esclerosado Alan Ball - roteirista vencedor do Oscar por "Beleza Americana" e a grande mente por trás de "A Sete Palmos" (que eu considero, disparado, a melhor série da década). "True Blood" só na superfície é sobre vampirismo. No fundo, a treta é mais embaixo. À parte os Contos Macabros - que me dão uma baita saudade do tempo em que eu assistia, lá pelos 12 anos de idade, ao "Contos da Cripta" nas madrugadas da Band - é um endoidecido american-way-of-life chronichle, que versa sobre alcoolismo, vício a entorpecentes, indústria da pornografia, exorcismos e excomunhões, crianças abusadas por parentes e mais uma pá de tretas do Lado Sombrio da Vida.
No mundo não-tão-ficítico-assim da série, os vampiros de fato existem, têm caninos pontiagudos, vestuários góticos, paixão por ambientes mau-iluminados e estão obviamente louquinhos por um sanguinho humano. Mas a grande sacada aqui é: por acaso os humanos são menos sedentos por sangue do que eles? That's the point. A série desmistifica um pouco: os vamps não pegam fogo ao se depararem com um crucifixo, não derretem com água benta e são imunes ao alho. Mas um pouco da velha mística vampiresca é reiterada: essas criaturas, mortas há muito tempo atrás e deixadas a vagar pela Terra, não se alimentam e não suportam a luz do Sol. Sua única nutrição? Sangue humano. Mas as caridosas autoridades, para evitar a guerra e retirar os pescoços dos ainda-vivos do "Cardápio", trataram da coisa com muitíssima classe: INDUSTRIALIZARAM O SANGUE HUMANO. Você pára em qualquer boteco, qualquer loja de conveniência, qualquer farmácia, e ali está, ao lado da Coca Cola, da bomba de gasolina da Shell ou das fraldas para o Bebê essa belezura: TRUE BLOOD, uma garrafinha long-neck, servida quentinha, com sangue humano fresquinho. Um desbunde!

Desse modo, não há guerra civil entre os vivos e os mortos - mas sim uma tentativa de convivência pacífica e ordenada num mundo onde vamps e não-vamps são iguais aos olhos de Deus e igualmente amparados pelo colo maternal da Mãe América. A sociedade inteira discute publicamente a questão do preconceito contra os vampiros, que por vezes são expulsos de bares cristãos por serem considerados presenças malsãs. Mas reclamam como se fossem parte de qualquer minoria racial ou étnica: "Discriminação contra vampiros é crime punível pela Lei no magno estado da Louisiana!", protesta um vamp. Porque vampiro também é gente, pô!
A humana que sabe muito bem disso chama-se Sookie Stackhouse, uma loirinha boazudinha e com poderes paranormais ("escuta pensamentos" - é mole?!?). Ela é garçonete num bar-e-bilhar um tanto porralouca do Sul americano, lá onde a intolerância racial é historicamente mais pronunciada, e onde os vampiros não são assim tão benquistos. A bela, diáfana e louríssima Sookie (vivida por Anna Paquin, que foi vencedora do Oscar por "O Piano" quando era pirralha) vai se encantar pelo Vampiro Bill - um galã charmoso, irresistível e extremamente pálido de 173 anos de idade e que morreu na Guerra Civil Americana, em 1862, lutando pelo Sul caipira contra o Norte opressor.
Tá achando que é pouco? Alan Ball ainda nos reserva muitas surpresas neste seu novo FREAK SHOW. Pra vocês verem o naipe da coisa, é só dizer que há um personagem, de nome Lafayette, que é nada menos que um Negro Homossexual Cozinheiro Porra-Louca e Boca-Suja que é nas horas livres um Traficantes de Drogas e um Michê (mas só dá o rabo para vampiros, e não em troca de dinheiro: recebe em sangue-vampiresco!). Já o irmão de Sookie, Jason Stackhouse, é um junkie ninfomaníaco, burro feito uma porta, que arranja uma namoradinha neo-hippie e "conectada à Gaia" ("a Terra é um imenso organismo e tudo está interconectado", etc. etc. etc.), com quem causa por aí em busca da DROGA DA ESTAÇÃO: vamp-blood, a experiência mística-psicodélica que deixa o LSD, o ecstasy e a ayahuasca no chinelo.Alan Ball, sem vergonha, chama o seriado de "popcorn TV for smart people" - e taí uma ótima definição para essa pipoquice televisiva irresistível. A grande "sacada" do seriado é ser altamente curtível como mero entretenimento - e, puta que o pariu, que maestria eles têm em acabar um episódio nos deixando sedentos pelo próximo, como se fôssemos vampiros famintos! - ao mesmo tempo que é sagaz e denso o bastante para agradar espectadores mais exigentes. O mundo de True Blood, afinal de contas, não é assim tão "imaginário" quanto parece: que um seriado de temática tão "fantástica" possa soar "realista", fazendo uma crônica social deliciosamente impregnada de humor negro, talvez seja sintoma de que vivemos num planeta que, não muito diferentemente do microcosmos de True Blood, está também infestado de sanguessugas.
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 00:15 |
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
:: chicoso! ::
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 05:09 |
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
:: we'll always have Paris! ::
Filosofando "Casablanca"!
Essa noção da Memória como um Imenso Depósito onde guarda-se, tal como foi, o que um dia foi presente, ou como um Álbum de Fotografias, com retratos exatos e verazes de como foi nossa caminhada, é problemática e muito provavelmente falsa. Os afetos, os desejos, as esperanças e o intenso desejo de alegria e felicidade podem fazer com que a verossimilhança e a lucidez percam a batalha para o retoque, o kitsch e as lembranças inventadas. “Valsa a Bashir”, por exemplo, conta dum experimento psicológico onde mostrou-se a "cobaias" algumas fotos de 10 lugares onde elas estiveram na infância – sendo que 9 eram fotos legítimas e uma era falsa. Esta imagem falsa, que mostrava a pessoa num local onde ela jamais esteve, era reconhecida pelas pessoas como verdadeira na grande maioria dos casos. Os céticos, que não ousaram reconhecer com certeza aquela cena no seu passado, todos converteram-se à essa certeza quando foram expostos à imagem pela segunda vez. Claro que, no caso, a imagem era feliz, aprazível, mostrando a criança num ambiente agradável, cálido, envolvente, acolhedor e divertido, como um parque de diversões ou um piquenique no bosque ensolarado com mamãe e papai sorridentes e enternecidos...
A memória humana se insere, pois, neste "tudo flui" de que falava Heráclito: é mutante e transformante, oscila e varia conforme o presente. Está aí um adicional de fragilidade a este deus-de-pés-de-barro tão frágil e ferível que é o amor: não só ameaçado pelo desgaste, pelos atritos, pelo tédio, pela solidão, pela morte, pelas brigas, pelos ciúmes, pela possessividade, pelo sadismo, pelo capitalismo, e por tantas outras forças que o atacam, têm ainda que cuidar para que não perca os bens que viveu e que agora estão retidos nos frágeis frascos da memória.
É um pouco este o drama emocional que emoldura um dos grandes filmes da história do cinema, Casablanca. Ali, a memória de um tórrido affair romântico em Paris, entre o celebérrimo casal Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, não cessa de modificar-se, feito um camaleão do passado, conforme o presente se desenrola - como um tapete adentrando o salão escuro do futuro. 
No filme, há o retrato de um Milagre Psicológico: a Regeneração de uma Memória. Ou melhor: uma transformação radical de um memória que, antes guardada como uma chaga e um tormento, passa a ser abraçada com ternura e gratidão. E, neste caso, o agente benigno que opera essa doce cirurgia é ninguém menos que a Verdade – apresentada como algo deveras redentor. The truth shall set you free. Este homem, que sofre por não saber porque foi abandonado, torna-se, ao contato redentor com a verdade, ao assimilá-la através da compreensão, quase que completamente curado (ao menos da mágoa: que dizer do bem-mal que agora o acometerá, a saudade?).

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
:: colecionador de palavras preciosas (II) ::
"Epitáfio é uma frase que se grava numa lápide, contando algo sobre o enterrado. Já escolhi a minha. Não é original. É a mesma de Robert Frost: 'Ele teve um caso de amor com a vida...'. Quintana, sabendo que a morte o esperava em alguma esquina, escolheu a sua: 'Eu não estou aqui...'. Já imaginaram? Caminhando pelo cemitério, as lápides se sucedendo graves e fúnebres. 'Aqui jaz', 'Aqui jaz...'. De repente olhos batem na frase 'Eu não estou aqui'. É possível evitar o riso? É possível evitar amar quem assim brincou com a própria morte?" (RUBEM ALVES, em especial sobre Quintana na Revista Língua, número 8)
* * * * *
"A duração, seja os séculos para as civilizações, seja os anos e dezenas de anos para o indivíduo, tem uma função darwiniana de eliminação do inapto. O que é apto a tudo é eterno. Só nisso reside o valor do que chamamos de experiência. Mas a mentira é uma armadura pela qual o homem frequentemente permite ao inapto nele mesmo sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o matariam (assim como o orgulho sobreviver às humilhações), e essa armadura é como que secretada pelo inapto para evitar o perigo (o orgulho, na humilhação, avoluma a mentira interior). Existe na alma como que uma fagocitose: tudo o que é ameaçado pelo tempo secreta mentira para não morrer, e à proporção do perigo de morte. Por isso não há amor à verdade sem um consentimento sem reservas à morte." (SIMONE WEIL, A Gravidade e a Graça).
* * * * *
"Quando eu era criança
Sem saber meu caminho
Voltei meus olhos errantes
Para o sol, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para escutar meu lamento,
Um coração como o meu
Para cuidar dos atormentados.
Quem me ajudou
Contra a cruel insolência dos Titãs?
Quem me resgatou da morte, da escravidão?
Não fizeste tudo isto sozinho,
Sagrado coração em brasa?
E jovem e bom, brilhavas
Enganado, agradecido pelo resgate
Daquele que dormia lá em cima?
Eu, honrar-te? Por quê?
Algum dia aliviaste o sofrimento
dos oprimidos?
Algum dia secaste as lágrimas dos amedrontados?
Não fui levado à idade adulta
Pelo todo-poderoso Tempo
E pelo destino eterno,
Meus mestres, e os teus?
Imaginavas por acaso
Que eu fosse odiar a vida
E fugir para o deserto
Porque nem todos
Os meus sonhos em botão floresceram?
Aqui continuo sentado, forjando homens
A minha própria imagem
Uma raça para ser como eu
Para sofrer, chorar,
Deleitar-se e alegrar-se
E para desafiar-te,
Como eu.
GOETHE
(como citado por Susan Neiman em Evil In Modern Tought)
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 19:02 |
Quarta-feira, 20 de Maio de 2009
:: Dawkins ::

"Deus: Um Delírio"
O biólogo darwinista inglês, um dos cientistas mais célebres das últimas décadas (quase um pop-star midiático, como se tornaram também Carl Sagan e Stephen Hawking), é um dos representantes mais importantes da Nova “Frente Militante Atéia” no mundo intelectual contemporâneo. E militante é o nome mais adequado para apelidar essa turma - que inclui ainda Michel Onfray e Christopher Hitchens, entre outros de menor repercussão. Pois Dawkins é um daqueles autores que está engajado numa cruzada de des-mitologização e de ataque frontal às superstições e religiões. “Condeno o sobrenaturalismo em todas as suas formas”, diz ele. “Não estou atacando nenhuma versão específica de Deus ou deuses. Estou atacando Deus, todos os deuses, toda e qualquer coisa que seja sobrenatural, que já foi e que ainda será inventada.” (63)
Dawkins abertamente se propõe a persuadir seus leitores a perceberem a verdade de sua posição anti-religiosa. Como ele mesmo confessa, quer que Deus: Um Delírio tenha o efeito de uma “desconversão” e conclama todos os seus leitores ao abandono completo da religião. Sem meias palavras, confessa que espera de seu livro que “os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem” (29). Escrito para o grande público, e não para o círculo fechado da Academia, o livro conquistou vasta repercussão, tornando-se best seller em vários países e arrancando elogios rasgados de intelectuais de peso (como Steven Pinker e Ian McEwan), ao mesmo que despertou violentas reações (inclusive em livro) e rendeu ao autor cáusticos apelidinhos (foi taxado, por exemplo, de “o rottweiller de Darwin”).
Na obra de Dawkins, a religião não está aí para ser estudada com frieza, esmiuçada em artigos acadêmicos, respeitada com tolerância e condescendência, mas é, sobretudo, um fenômeno a ser combatido e apaixonadamente atacado. Dawkins é um darwinista em colisão direta contra todo e qualquer criacionista; um cientista que não crê na possibilidade de qualquer tipo de conciliação entre o universo científico e o religioso; um ateu convicto de que a fé é causa de muito mais males do que bens e que estaríamos todos passando muito melhor sem ela... Razão que faz com que muitos crentes o considerem intolerante, arrogante, pouco compreensivo, incapaz de manifestar o devido respeito à história da teologia e da religião – tanto que Dawkins pôde ser chamado por alguns de “fundamentalista ateu”. O “resumo” que ele arrisca das idéias de Agostinho, por exemplo, digamos a verdade, é constrangedora de tão rasa, tão preconceituosa, demontrando que ele é capaz de fazer tábula rasa de um grande teológo, reduzido a escombros em segundos por sua pena cheia de veneno...

Por isso até concordo que Dawkins poderia ser mais sereno, menos intempestivo, e que teria seus argumentos ouvidos com mais tolerância pelos devotos se não se colocasse sempre numa posição tão hostil frente ao ser humano que crê. Quem assistiu ao documentário de 2 horas que Dawkins escreveu e apresentou na TV inglesa, com o bombástico título Root Of All Evil (Raiz de Todos Os Males), sabe o quanto ele é capaz de perder a compostura quando discute com fanáticos e dogmáticos religiosos. Ele escolhe para aparecerem em seu filme justamente os exemplos mais grotescos de perversidade religiosa: um sujeito que defende que as adúlteras merecem ser apedrejadas; um professor que quer inculcar o medo do inferno nas criancinhas a todo preço; um pastor que tem as idéias mais toscas e falsas sobre a evolução; um muçulmano fanático que acredita que o ateu está com a alma irremediavelmente condenada... Dawkins sempre insiste em sublinhar, por mil exemplos, quão estúpidas, intolerantes e mortíferas podem se tornar as pessoas quando se deixam cegar por uma fé ortodoxa e delirante, e é essa raivosa convicção incendiária, que por vezes peca até pelo excesso de intolerância, o que empresta, ao mesmo tempo, tanto poder ao seu discurso, e ergue tanta revolta em seus detratores.
Deus, Um Delírio é um livro-manifesto intencionalmente persuasivo, que procura converter os crentes à descrença e que conclama os ateus tímidos a saírem do armário. Dawkins ostenta nessas páginas um “orgulho ateu” que parece até ter a pretensão de deflagar um movimento social parecido com o do Orgulho Gay ou do Orgulho Negro. “Não há nada de que se desculpar por ser ateu”, garante ele. “Pelo contrário, é uma coisa da qual se deve ter orgulho, encarando o horizonte de cabeça erguida, já que o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável.” (27)
[INVENTÁRIO DOS MALEFÍCIOS DA RELIGIÃO]
Em Deus, Um Delírio, ele “carrega nas tintas” para descrever todos os imensos malefícios que enxerga na religiosidade:
“A religião pode colocar em risco a vida do indivíduo devoto, assim como a de outras pessoas. Milhares de pessoas já foram torturadas por sua lealdade a uma religião, perseguidas por fanáticos por causa de uma fé alternativa que em muitos casos é quase indistinguível. A religião devora recursos, às vezes em escala maciça. Uma catedral medieval era capaz de consumir cem centúrias de homens em sua construção, e jamais foi usada como habitação, ou para qualquer propósito declaradamente útil.Não era uma espécie de cauda de pavão arquitetônica? Se sim, quem era o alvo da propaganda? A música sacra e os quadros religiosos monopolizaram em grande parte o talento medieval e renascentista. Gente devota morreu por seus deuses e matou por eles; chicoteou as costas até sangrar, jurou o celibato de vida inteira ou o silêncio solitário, tudo a serviço da religião. Para que tudo isso? Qual é o benefício da religião?” (218) “Por que os seres humanos jejuam, ajoelham-se, fazem genuflexões, autoflagelam-se, inclinam-se maniacamente para um muro, participam de cruzadas ou tomam parte em práticas dispendiosas que podem consumir a vida e, em casos extremos, eliminá-la?” (220)
Mas por que tanto fervor e tanto ardor posto nesta “guerra ideológica” contra a religião? É o que podem argumentar alguns religiosos, que gostariam de ser deixados em paz com suas crenças sem terem-nas atacadas de modo tão vigoroso por Dawkins. Podemos imaginar a contra-revolta dos crentes contra Deus, Um Delírio em termos como: “por que não deixar cada um acreditar no que quiser, já que a crença religiosa, dizem eles, é um assunto da esfera privada? Quem são vocês, ateus desrespeitosos e infernais, para ousarem dizer que não temos o direito de crer, num mundo em que se deveria respeitar acima de tudo a liberdade de pensamento e de crença de todos os indivíduos?”
Depois de ler o livro de Dawkins, torna-se óbvio e absolutamente inegável que a religião não é, nem nunca foi, um assunto restrito à esfera privada e que age diretamente sobre a vida social planetária. Para ilustrar isso, talvez a melhor pedida seja o seguinte parágrafo, onde Dawkins aponta e enumera a presença religiosa em eventos políticos, sociais, culturais e históricos de relevância que derrubam suficientemente a tese do “respeito à esfera privada” como fundamento do direito à crença:
“Imagine, junto com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, sem a Conspiração da Pólvora, sem a partição da Índia, sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição dos judeus como 'assassinos de Cristo', sem os 'problemas' na Irlanda do Norte, sem 'assassinatos em nome da honra', sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro de ingênuos ('Deus quer que você doe até doer'). Imagine o mundo sem o Talibã para explodir estátuas antigas, sem decapitações públicas de blasfemos, sem o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado um centímetro...” (24)
Os exemplos poderiam ser multiplicados até o excesso:
- escritores brilhantes tendo sua liberdade de expressão atacada de modo grotesco por teocracias fundamentalistas extremamente intolerantes (só lembrar que Salman Rushdie foi condenado à morte pelo aiatolá xiita do Irã depois de publicar um livro – Os Versículos Satânicos - que qualquer crítico literário sensato considera um brilhante romance contemporâneo!);
- psicopatas americanos botando fogo em clínicas de aborto, se dizendo militantes de um movimento "Pro-Life" que, ironicamente, já se mostrou bem Pro-Death quando um dos mais exaltados – Paul Hill - foi e assassinou um médico, sendo depois condenado à morte pela Justiça Americana;
- muçulmanos fanáticos entram em frênesi destrutivo por causa de charges engraçadinhas do profeta Maomé, publicadas pela imprensa da Dinamarca;
- sem falar que o Vaticano continua sustentando que usar a camisinha é pecado, ajudando a disseminar cada vez mais o vírus HIV, que já corrói o continente africano como uma imensa epidemia.
Isso mostra que Dawkins é um intelectual profundamente enraizado em seu próprio tempo, sendo que seu livro está repleto de casos que estiveram presentes na imprensa escrita e televisiva, com seus comentários sempre perspicazes e penetrantes.
* * * * *
[ ATEÍSMO, DEÍSMO, TEÍSMO E PANTEÍSMO]
Dawkins, antes de se posicionar enfaticamente entre os ateus, faz uma descrição sintética muito oportuna de seus opositores – os teístas, deístas e panteístas:
“Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subsequente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O Deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num Deus sobrenatural, mas usam a palavra Deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o Deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o Deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado.” (43)
Sua posição, pelo contrário, é definida assim: “Um ateu é alguém que acredita que não há nada além do mundo natural e físico, nenhuma inteligência sobrenatural vagando por trás do universo observável, que não existe uma alma que sobrevive ao corpo e que não existem milagres – exceto no sentido de fenômenos naturais que não compreendemos ainda.” (37) Quanto ao “Deus dos físicos”, presente por exemplo na visão de Einstein, ele o descreve com mais carinho e menos violência: “O Deus metafórico ou panteísta dos físicos está a anos-luz de distância do Deus intervencionista, milagreiro, telepata, castigador de pecados, atendedor de preces da Bíblia, dos padres, mulás e rabinos, e do linguajar do dia-a-dia.” (44)
Já em relação ao agnosticismo, que em linguagem chula é o nome que se dá aos que “ficam em cima do muro”, não afirmando nem negando a existência de Deus, evidentemente não é a posição de Dawkins e ele também a combate com força. A posição agnóstica radical se caracteriza pela defesa de uma completa “suspensão do juízo”, que sustenta que o homem possui um aparelho mental completamente incapacitado para responder de modo satisfatório à questão. O que “implica que a ciência não pode nem fazer juízos de probabilidade sobre a questão” (89), o que, Dawkins enfatiza, é uma “falácia extremamente disseminada” - mas que não passa de falácia.
O agnosticismo é uma doutrina que não se sustenta de modo algum quando se baseia na afirmação de que a possibilidade de que Deus exista ou de que Ele não exista é exatamente a mesma – 50% para cada lado. A Ciência está sim capacitada para investigar as evidências de sua presença ou ausência no Universo e formular um juízo de probabilidade – que, como todos sabem, aproxima a existência do Deus pessoal e transcendental dos monoteísmos da implausibilidade absoluta. A Ciência tem sim o legítimo direito de trabalhar com as duas hipóteses contrárias – Deus existe, Deus não existe – e ver qual delas tem um grau maior de possibilidade de ser verdadeira. “Um universo em que estamos sozinhos, com exceção de outras inteligências de evolução lenta, é um universo muito diferente daquele com um agente orientador original cujo design inteligente seja responsável por sua existência.” (93)
De fato, não se pode tirar fotos de Deus, gravar a voz de Deus, sentir na pele o toque da mão de Deus, encontrar Deus num microscópio de laboratório – está fora do domínio da física comprová-lo. Desde tempos imemoriais a humanidade já reconhece que esta é uma questão metafísica – ou seja, que está além dos poderes da física. Mas o fato da existência de Deus não poder ser empiricamente comprovada, destaca Dawkins, não significa que não se possa dizer nada sobre o grau de plausibilidade de que Ele exista.
É difícil comprovar a inexistência de qualquer coisa que seja – como na anedota de Bertrand Russell, tente comprovar que não existe um bule orbitando ao redor da Terra, pequeno demais para ser percebido pelos nossos satélites e radares! Tente comprovar que pequenos anõezinhos alienígenas não estão nesse exato momento fazendo sua versão da dança da chuva em algum planeta da Galáxia ainda desconhecida de Tchump-Tchomp! Nenhum pai consegue comprovar de fato que não existem as criaturas que a imaginação fértil de seu filho consegue fabricar, mas não deixa de ser altamente implausível – ou até mesmo impossível – que esses seres fantásticos existam. Com a religião é o mesmo. Como comprovar a inexistência de algo tão intrinseca e obviamente fantástico quanto um Papai do Céu, que mora “fora do Universo”, que pode tudo, sabe tudo, está em todo lugar e em todos os tempos, e ainda assim é sempre invisível, intocável, inouvível e inachável?
“Ninguém se sente obrigado a comprovar a inexistência dos milhões de coisas fantásticas que uma imaginação fértil e brincalhona é capaz de sonhar. Eu me divirto com a estratégia, quando me perguntam se sou ateu, de lembrar que o autor da pergunta também é ateu no que diz respeito a Zeus, Apolo, Amon Rá, Mithra, Baal, Thor, Wotan, o Bezerro de Ouro e o Monstro do Espaguete Voador. Eu só fui um deus além”. (84) “Sou agnóstico na mesma proporção em que sou agnóstico a respeito de fadas escondidas no jardim.” (80)
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[O ARGUMENTO DO DESIGN INTELIGENTE]
Um dos mais clássicos e recorrentes dentre os argumentos teístas que procuram comprovar a existência de Deus sustenta a seguinte noção: que há certas coisas no Universo cuja extrema complexidade teria que ser o resultado de um esforço criador de uma entidade poderosa e inteligente. Um órgão tão inacreditavelmente complexo como o olho de uma águia poderia ter surgido como mero efeito da evolução das espécies ou temos que supor necessariamente um designer divino? E seres humanos absolutamente geniais – pensemos em Shakespeare ou Mozart – poderiam ser algo a não ser obras de mestre de um Deus genial, que com eles acertou na mosca em seu laboratório de criaturas? Há um personagem de Aldous Huxley que, engraçadinho, prova a existência de Deus tocando um quarteto de cordas de Beethoven...
Mas “as pessoas que partem da estupefação pessoal com um fenômeno natural direto para a invocação apressada do sobrenatural não são melhores que os tolos que vêem um ilusionista dobrando uma colher e assumem que se trata de um 'paranormal'.” (176)
Claro que, para rebater o argumento do design inteligente, é Charles Darwin que Dawkins era chamar em seu auxílio: “O argumento do design é o único que ainda é regularmente usado hoje em dia, e ainda soa para muita gente como o argumento determinante do nocaute. (...) Provavelmente jamais houve uma derrubada tão devastadora de uma crença popular através de um raciocínio inteligente quanto a destruição do argumento do design perpetrada por Charles Darwin. Foi totalmente inesperado. Graças a Darwin, já não é verdade dizer que as coisas só podem parecer projetadas se tiverem sido projetadas. A evolução pela seleção natural produz um excelente simulacro de design, acumulando níveis incríveis de complexidade e elegância.” (115)
[O BOEING 747 DEFINITIVO]
“Em sua forma tradicional, o argumento do design é certamente o mais popular da atualidade a favor da existência de Deus e é encarado, por um número incrivelmente grande de teístas, como completa e absolutamente convincente.Ele é realmente um argumento fortíssimo e desconfio que irrespondível – mas exatamente na direção contrária da intenção dos teístas. O argumento da improbabilidade, empregado de forma adequada, chega perto de provar que Deus não existe. O nome que dei à demonstração estatística de que Deus quase com certeza não existe é a tática do Boeing 747 definitivo.” (154)
A discussão é: um furacão, ao passar por um ferro-velho, poderia construir um Boeing 747? Em termos mais abstratos: poderia o acaso construir, tendo como matéria-prima um amontoado de materiais, algo tão complexo quanto um avião moderno? Obviamente a resposta é não. E os teístas adoram transpor esse exemplo para o domínio da vida, “para se referir à evolução dos seres mais complexos”: “a chance de se montar um cavalo, um besouro ou um avestruz plenamente funcionais misturando aleatoriamente suas partes pertence ao mesmo terreno do 747. Esse, em termos muito resumidos, é o argumento favorito dos criacionistas – um argumento que só poderia ter sido pensado por uma pessoa que não entende o essencial da seleção natural: alguém que acha que a seleção natural é uma teoria do acaso, quando se trata do contrário” (155)
O furacão que constrói de repente um Boeing é uma péssima metáfora para a descrição do procedimento da seleção natural, já que nesta nada acontece repentinamente – muito pelo contrário! “O entendimento profundo do darwinismo nos ensina a desconfiar da afirmação fácil de que o design é a única alternativa para o acaso, e nos ensina a buscar rampas gradativas de uma complexidade que aumente lentamente.” (156)
Portanto, quanto aos organismos mais magníficos e complicados que conhecemos, “é claro que não aconteceu por acaso” (164). “O design inteligente não é a alternativa adequada para o acaso. A seleção natural não é apenas uma solução parcimoniosa, plausível e elegante; é a única alternativa viável ao acaso a ter sido sugerida.” (164) Sem falar que supor um projetista inteligente não resolve o problema, mas nos coloca mais um: quem projetou o projetista? Hilda Hilst brincou com isso quando escreveu, sobre suas questões metafísicas de infância: “eu toda lilazinha me perguntando: mãe, Deus tem pai? Depois disso não parei mais...”.
A cegueira do teísta está em não ser capaz de imaginar um longo processo gradual de evolução, em que o poder do acúmulo impera. A natureza não dá saltos espantosos – faz tudo degrau a degrau. Como diz Dawkins, não se trata de subir num pulo só do pé da montanha até o cume, mas sim de pegar a “subida amena” (e lenta) até o topo. Até estruturas incrivelmente complexas, como olho do ser humano, podem ser explicadas como resultado de um processo de evolução natural que durou milhões e milhões de anos, lentamente desenhando e rascunhando organismos cada vez mais espantosos. “O próprio Darwin”, comenta Dawkin, “disse isso: 'Se fosse demonstrado que qualquer órgão complexo existisse e que ele não pudesse ter sido formado por numerosas, sucessivas e pequenas modificações, minha teoria absolutamente ruiria. Mas não consigo encontrar nenhum caso assim.' Muitos candidatos a esse santo graal do criacionismo já foram sugeridos. Nenhum resistiu à análise.” (170)
Por outro lado, considerado a imensidão do Universo, não se torna tão improvável assim que em pelo menos um dentre milhões de planetas as condições climáticas e químicas fossem favoráveis para o surgimento de complexos seres de carbono e água. “Já se estimou que haja entre 1 bilhão e 30 bilhões de planetas em nossa galáxia, e cerca de 100 bilhões de galáxias no universo. Eliminando alguns zeros por mera prudência, 1 bilhão de bilhões é uma estimativa conservadora do número de planetas disponíveis no universo.” (187) E o mais incrível: “Se a probabilidade de a vida surgir espontaneamente num planeta fosse de uma em um bilhão, mesmo assim esse evento embasbacadoramente improvável teria acontecido em 1 bilhão de planetas.” (187)
Também é bom frisar: a origem da vida foi um evento que só precisou ocorrer uma vez; já a evolução da vida é um “acontecimento” constante, cumulativo, que não pára jamais. “Independentemente de com quantos planetas estejamos lidando, o acaso jamais seria suficiente para explicar a luxuriante diversidade de organismos complexos na Terra do mesmo modo que o utilizamos para explicar a existência da vida aqui. A evolução da vida é um caso completamente diferente do da origem da vida, porque, repetindo, a origem da vida foi (ou pode ter sido) um evento singular, que teve que acontecer apenas uma vez. A adaptação das espécies a seus diversos ambientes, por outro lado, ocorreu milhões de vezes, e continua ocorrendo.” (189)
“A seleção natural é o maior guindaste de todos os tempos. Ela elevou a vida da simplicidade primeva a altitudes estonteantes de complexidade, beleza e aparente desígnio que hoje nos deslumbram.” (109)“A seleção natural funciona porque ela é uma avenida de de mão única, cumulativa, para o aperfeiçoamento. Ela precisa de alguma sorte para ser iniciada, e o princípio antrópico dos 'bilhões de planetas' nos assegura tal sorte.” (191)
Dawkins comenta, em The Root OF All Evil, que a religião, além de oferecer explicações ilusórias, fictícias e deturpadas para os fenômenos da natureza, que só a razão e a ciência são capazes de desvendar de modo lúcido e confiável, diagnostica ainda que a fé torna as pessoas dependentes, intolerantes, infantilizadas e propensas à sérias dificuldades a lidar com o diferente. "People lean on their faith like a crutch", comenta, e já chegou a hora de retirar dos mancos suas bengalas para que eles passem a utilizar suas pernas atrofiadas! Ecoando a mensagem de Freud em “O Futuro de Uma Ilusão”, que chamava a humanidade a crescer e superar o infantilismo psíquico que é a crença religiosa, Dawkins diagnostica também que a fé deixa a humanidade "stuck in a permanent state of infancy". Sem falar do terrorismo com fontes religiosas, um dos mais graves problemas do começo deste século e do fim do último, que aparentemente só começou a causar os infindáveis estragos que certamente continuará a desencadear na geopolítica global. "Far from being beaten, militant faith is on the march, all around the world, with terrible consequences..." Que soem os alarmes!
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 14:25 |
Terça-feira, 19 de Maio de 2009
:: Bowie! ::
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 12:22 |
Terça-feira, 12 de Maio de 2009
:: you're only here for a fraction of a fraction of a second ::
"Everything is more complicated than you think. You only see a tenth of what is true. There are a million little strings attached to every choice you make. You can destroy your life everytime you choose. Maybe you won't know for 20 years. And you may never, never trace it to its source. And you've got only one chance to play it out. Just try to figure out your own divorce. And they say there's no fate! But there is. It's what you create! And even tough the world goes on for eons and eons and eons, you're only here for a fraction of a fraction of a second! Most of this time spent being dead, or not yet born. While alive, you wait in vain. Wasting years for a phone call, a letter or a look from someone, for something to make it all right. And it never comes. Or it seems to, but it doesn't really. So you spend your time in vague regret ou vaguer hope that something good will come along. Something to make you feel connected. Something to make you feel whole. Something to make you feel loved. And the truth is: I feel so angry. And the truth is: I feel so fucking sad. And I felt so fucking hurt for so fucking long, and for just as long I've been pretending to be okay. Just to get along. Just for... I don't know why. Maybe because no one wants to hear about my misery. Because they have their own. Well, fuck everybody. Amen."
Uma das cenas mais fodásticas de um filme repleto delas: Sinédoque Nova York. Arrisquei uma interpretose looonga e pretensiosa sobre ele lá na Revista O Grito! Glue there!
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 13:06 |
Sexta-feira, 8 de Maio de 2009
:: falai da conduta indecorosa dos deuses! ::

Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro!
(Ou com os dois pés ligeiros, se quiserdes!)
Ide e dançai despudoradamente!
Ide com travessuras impertinentes!
Cumprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide! Rejuvenescei as coisas!
Rejuvenescei até The Spectator
Ide com vaias e assobios!
Dançai, fazei corar as pessoas,
Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cíbele!
Falai da conduta indecorosa dos Deuses!
Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas, sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhe que não trabalhais
e que vivereis eternamente.
(EZRA POUND)
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 11:19 |
Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
:: revêries ::

(pedaços de mim, direto do diário)
REDEMPTION DAY
E um belo dia a gente chega a um certo porto onde enfim reina a calmaria. Com o olhar dulcificado, enxergamos com ternura o mar atravessado onde se agitam as ondas enfurecidas. Felizes com a jornada e seu bom termo. Por mais tormentas que tenhamos enfrentado, por mais ossos que tenhamos fraturado, por mais chagas que tenhamos sangrado, é com carinho que olhamos para a aventura enfrentada. Que nos conduziu a este porto sonhado. Onde enfim mordemos o fruto tão prometido e tão adiado. Pousados enfim num certo ponto presente que nos faz olhar para trás com o rosto ridente. E o coração, tornado contente. Ainda que nos lembremos de todas as tristezas padecidas. Ainda que carreguemos na pele as cicatrizes de nossos tombos. Ainda que restem no cuco os galos de nossos choques e trombos. Perdoamos então os caminhos trilhados por terem sido tão árduos e acidentados. Se nos trouxeram a este hoje, que todos os ontens sejam abençoados! E, se nos conduziram a este agora, que sejam celebrados todos os outroras!
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NÃO CESSAR DE NAVEGAR
Não que amar seja ancorar, descansar num porto, inventar um lago de límpidas águas que não correm. Sei bem que não. E sinto em mim uma vontade muito mais ardente de ser rio do que petrificar-me em estátua. Amar é um continuar a navegar, que a correnteza do tempo jamais cessa de correr, ainda que se possa sentir que agora, na jornada a dois, as tormentas são mais fáceis de enfrentar e as ondas não vão nos submergir. Há calmaria, não depois, mas em meio à tempestade! Quatro mãos firmes sobre o leme que atravessa os mares, ora revoltos e ora tranquilos, mas sempre moventes. Ainda que tenhamos nossas bússolas e mapas, tudo segue sendo aventura. Sabe-se lá que icebergs se interporão em nosso caminho? Que ventanias, que nevascas e maremotos, será que esperam por nós neste futuro invisível, insabível, do qual não vemos nada além de nossos medos, esperanças e desejos?
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"SPENT HALF A LIFE DECIDING WHAT WENT WRONG.
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NO POMAR
Não sou filho de Deus. Não passo de um fruto da terra.
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AMADA INCOMPLETUDE
Não somente não nascemos acabados, como também morreremos, todos, sempre, inacabados. "Que a morte nos encontre plantando nossas couves!", dizia Montaigne. Não choremos porque teremos que deixar a Terra com trabalhos pela metade e missões em andamento. Condenados estamos à incompletude, essa dádiva que nos salva de uma terrível satisfação que nos deixaria estagnados. Ser incompleto é uma glória! Pobres daqueles que, satisfeitos consigo mesmos, desistem de tentar ser mais. Pobres daqueles que, já achando que são muito, dispensam o contato - às vezes tão frutífero! - com o outro. E todos somos pouco. Ser homem é ser pouca coisa. E ter um perpétuo potencial de ir além. Além, não deste mundo, que é nossa gaiola, apesar dos foguetes e dos sonhos. Mas além da jaula do eu, onde tantos viveram trancafiados, como uma fera em seu cofre. O mundo, se tivesse rosto, deveria abrir um sorriso sempre que algo maravilhoso assim acontece: alguém que perde o medo de amar e vai. E ama.
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SER FELIZ NUM MUNDO ONDE INOCENTES SÃO FULMINADOS
Suspeito que nunca na vida estive tão feliz. E não daquelas felicidades tolas, de ficar dando risinhos à toa ou batendo palminhas para o Sol. Nada a ver com aquelas irritantes jovialidades de Poliana ou Mary Poppins... É muito mais como um largo sorriso secreto, aberto no fundo da minha alma, e cuja causa principal sei muito bem qual é: esse lindo presente em forma de mulher que a vida me trouxe e que eu não cesso de desembrulhar e de curtir, feito uma criança na manhã do 26 de Dezembro. Há essa sensação de repouso e serenidade após uma jornada tormentosa: pois procurar um amor é uma epopéia que deixa Homero no chinelo...
Minha alma me surpreende me fazendo sentir enternecimentos tão extremos, tão totais, que eu até me assusto de sentir algo tão bom e de que eu nem me sentia mais capaz. Agradeço a ela por levantar em mim, mesmo sem tentar, marés montantes tão gostosas de doçura e bem-querer. Na presença ou na ausência, junto ao mim ou à distância, ela tem sido um pequeno sol que me acalenta e me ilumina.
Mas é besteira pensar que essa felicidade barre porta afora, como cães pulguentos, todas as dores e todos os medos. Estou feliz e sofro. Estou feliz e tenho medo. Estou feliz e sei que um dia todos nós vamos morrer. Estou feliz e isso não me impede de me sentir só, muitas vezes - com a família, com os amigos, com ela. Não há escapatória: viver é ser "um pedaço de carne oferecido à agressão do real". E a morte sempre há de vencer a última batalha.
Há certos inocentes que não escapam dos raios. E até os bêbes vão para os cemitérios. Nada fizeram, decerto, para merecê-lo. Não são culpados, igualmente, se nasceram. É tudo coisa que acontece, e é tudo o que podemos dizer.
O que não nos impede de viver, nem de sermos felizes, nem de amar, ainda que no meio desse turbilhão cheio de som e fúria que costumamos chamar de Vida, fingindo entendê-la só porque sabemos nomeá-la.
Sim, estou feliz e isso não resolve muita coisa, já que continua-se a morrer às centenas nas guerras e nas epidemias. E mesmo os justos e as crianças padecem nas UTIs. Estou feliz e quase me envergonho de estar, tamanho o horror que há neste mundo. E também isto: estou feliz, mas quem o sabe? Pois para muitos, mesmos os mais próximos, este sorriso interior, feito com tantos detalhes e minúcias, quadro tão imenso e feito de tantas cenas, não consigo comunicar. E isso é tristeza sujando meu céu. Eu nem imaginava que a felicidade pudesse ser tão incomunicável quanto eram os meus mais extremos padecimentos.
* * * * *
UM MONSTRO DO AMOR
“Quem chegasse, por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos, a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer, esse – supondo que tal ser pudesse existir – seria um monstro de amor e a maior vítima da história do sentimento. Mas é inútil imaginarmos tal impossibilidade. Basta-nos proceder ao exame de nós mesmos, praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no suplício dos dias, é porque nada detém esta marcha, exceto nossas dores; as dos outros nos parecem explicáveis e suscetíveis de ser superadas: acreditamos que sofrem porque não têm suficiente vontade, coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso, nos parece legítimo ou ridiculamente inteligível; sem o que, o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nós mesmos. Se pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonias que se arrastam em torno de nós, todas as vidas que são mortes ocultas, precisaríamos de tantos corações quanto os seres que sofrem. E se tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nossas penas passadas, sucumbiríamos sob tal fardo. A vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória.” --- CIORAN, 'Breviário de Decomposição'
* * * * *
BUSCADOR
I'VE BEEN WRONG BEFORE
AND I'LL BE THERE AGAIN.
I JUST DON'T HAVE ANY ANSWERS, MY FRIEND.
JUST THIS PILE OF OLD QUESTIONS
MY MEMORY LEFT ME HERE.
IN THE FIELD OF OPPORTUNITY
IS PLOWIN' TIME AGAIN...
--- neil young
Me confesso um buscador. Digo, sem-vergonha, para que todos ouçam, que respostas não tenho. Só algumas. Mas não as que mais queria. Não para as perguntas fundamentais. Prossigo na busca. Na batalha de buscar. No esforço, com suas marés de entusiasmo e de desânimo, no rumo de desvendar mil mistérios. Procuro inclusive a mim mesmo, e por aí me encontro esparramado, um pouco em cada um de vocês, em quem me acho e me desencontro, me alegro e me espelho, ou trombo e tropeço... Me acho e me perco um pouco em cada vida que me rodeia e para quem eu existo. E existo para poucos. Pouquíssimos. Num mundo de 6 bilhões de pessoas, muito menos de 0,1% delas sabe sequer que eu existo. Existir para as multidões é privilégio das celebridades, dos políticos, dos papas... Eu, só sabem que eu existo umas 100, 200 pessoas. É ninharia. Me perguntar “quantas me amam?” dá até dó. Se as pessoas ficassem por aí fazendo-se essas perguntas de gente deprimida tariam é perdidas! E que delirante, pensar que quando estamos apaixonados, o amor de uma pessoa passa a contar mais, para nós, do que 6 bilhões de seres! "Que importa que o mundo me acha um nada, se ela me acha um tudo? Que diferença faz, ser algo insignificante e minúsculo na sinfonia do Cosmos, como uma nota mísera e inaudível que nem é notada no solo de violino, se sou a sinfonia mais amada que ouve o coração dela?"
Buscador. Que, apesar de suas inúmeras covardias, aceitou tentar escalar – e com que tombos! que deslizes! e que garra! - o improvável monte do amor. Sei que do topo estou longe, tanto que nem o vejo; mas é pra lá que meu coração está voltado, como uma flecha mirando seu alvo. E é deleite subi-lo.
Se eu sei o caminho correto? Claro que não. Os caminhos, eu vivo para testá-los. Sem saber ao certo em que rumo hão de levar-me. Não temendo pular para outra estrada quando a que eu antes trilhava mostra-se infrutífera ou pouco promissora. Viajo sem mapas do futuro, desenhando meu mapa presente tendo em vista só as paragens de meu passado, passado este que se acumula e se desvanece, se transmuta e se nadifica, conforme eu vou me futurificando...
Viajas com mapas do futuro?
Eu, do futuro, só sei de minhas esperanças, desejos e medos.
O futuro é uma projeção minha.
It's nowhere outside my head.
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* * * *
Amo como posso. E nessa área tenho mais querer do que saber. Meu desejo vai, tateante, aos cambaleios, como se brincasse de cabra-cega num campo minado. Sabe mais ou menos o que quer, apesar da vagueza dos quereres, e vive a testar os caminhos, tentar atalhos, rasgar mapas que foram dar em ruas sem saída e terrenos baldios. Farejando pelos morangos sob estrelas mudas que não são guias. Nada no céu nos aponta a direção melhor. Caminhamos na penumbra e é alegria nos depararmos com velas e clarões. Avançamos aos relâmpagos. Sorrisos dos seres amados como alvoradas iluminando estas trilhas tão sem vida. Vou aos tropeços, como quem há pouco deixou de engatinhar. Criança em levante contra a lei da gravidade. Ícaro preso no porão, sonhando em abrir clarabóias a cabeçadas. Tive sempre um coração com asas, que me erguiam perigosamente até perto do Sol, e ele, implacável, não cansou de derretê-las, me mandando em mil e uma quedas-livre... Ah, não imaginam vocês quantas vocês o Sol já não me mandou pra enfermaria! E eu teimo na briga. Me engesso, me bandeido, me medico, e quando reerguido... tô de volta ao vertical ringue.
* * * * *
SAUDOSOS QUERERES
Se estou com saudade? Dela tenho saudade até quando ela vai ao banheiro. E, mesmo à distância, ela não cessa um instante de estar presente. Pulsante no centro do meu desejo. Que pulsa ritmado como o tambor que trago no peito e que vê-se obcecado com uma só nota. O duro é que a vida, apesar de aclarada e aquecida pelos raios deste sol distante, tem me parecido, longe dela, como um limbo. Sala de espera onde aguardo, ansioso, pelo reencontro.
Um anseio que dói mas que faz faz bem. Um alegre bem-querer. Uma falta que não mutila, mas que é potencial de felicidade. Não haveria prazer algum em comer se não houvesse fome. E ninguém se deleita com maior êxtase comum uma fonte de água do que o sedento caminhante dos desertos. Amo a minha fome e amo a minha sede: e mais ainda a ela, que é meu alimento.
Não são saudades excruciantes, que nos fazem padecer e chorar, como é a saudade de uma mãe que viu o filho morrer na guerra ou de um casal rasgado em dois por forças maiores - e que não concebe ocasião para se reunir. É uma saudade curtível, dorzinha agradável e doce, como quando temos fome mas sabemos que um belo banquete nos espera. É bom ter fome quando temos delícias para comer, e é bom sentir saudade quando o reencontro é iminente.
Não há país neste mundo que me chamem mais que o corpo dela: o mais magnético dos territórios. Me puxando como se fosse um ímã. Me chamando como se fosse um lar. Não o trocaria por Paris de graça ou Viena ao luar. É em ti que quero estar. Há no mundo melhor lugar?
E principalmente é bom ter alguém para amar. Ter alguém pra quem fazer bem. É esta a verdadeira Escola da Virtude, e não os tratados sobre ética e moral que escreveram os filósofos. Aprende-se a virtude amando, e não lendo livros sobre a virtude. Os livros que importam são os livros que nos ensinam a amar, e estes são raros e infinitamente preciosos. A maioria passa pela vida sem jamais ler um desses. E os homens que os escreveram também são pouquíssimos. Foram aprendizes, como nós somos. Continuaram sendo aprendizes, ainda que tenham se transformado em mestres.
Um verdadeiro mestre é sempre alguém que conserva-se eternamente um aprendiz.
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 12:04 |
Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
:: coração preenchido com o belo tumulto humano ::
Mon coeur, je l'ai rempli du beau tumulte humain:
Tout ce qui fut vivant et haletant sur terre,
Folle audace, volonté sourde, ardeur austère
Et la révolte d'hier et l'ordre de demain
N'ont point pour les juger refroidi ma pensée.
Sombres charbons, j'ai fait de vous un grand feu d'or,
N'exaltant que sa flamme et son volant essor
Qui mêlaient leur splendeur à la vie angoissée.
Et vous, haines, vertus, vices, rages, désirs,
je vous accueillis tous, avec tous vos contrastes,
Afin que fût plus long, plus complexe et plus vaste
Le merveilleux frisson qui me fit tressaillir.
Mon coeur à moi ne vit dûment que s'il s'efforce ;
L'humanité totale a besoin d'un tourment
Qui la travaille avec fureur, comme un ferment,
Pour élargir sa vie et soulever sa force.
tradução: Mário Faustino (e alguns remendos)
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
:: i'm strickly quarks, particles and blackholes! ::
Acordei na sexta-feira e, como o universo está em expansão, levei mais tempo do que o habitual para achar o meu roupão. Isso me fez sair tarde para o trabalho e, como a noção de alto e baixo é relativa, o elevador que peguei foi parar no terraço, onde foi difícil conseguir um táxi. Por favor, tenham em mente que um homem dentro de um foguete que se aproxima da velocidade da luz pareceria estar indo na hora para o trabalho – ou até um pouco adiantado, e sem dúvida mais bem vestido. Quando, enfim, cheguei ao escritório e me dirigi ao meu patrão, o senhor Muchnick, a fim de explicar o meu atraso, minha massa aumentou à medida que eu me aproximava, o que meu patrão entendeu como um sinal de insubordinação.
Houve uma conversa bastante ríspida sobre reduzir o meu salário, o qual, medido no parâmetro da velocidade da luz, é de todo modo muito pequeno. A verdade é que, em comparação com a quantidade de átomos da galáxia de Andrômeda, eu de fato ganho muito pouco. Tentei dizer isso ao senhor Muchnick, que respondeu que eu não estava levando em conta que tempo e espaço são a mesma coisa. Jurou que, se a situação mudasse, me daria um aumento. Sublinhei que, uma vez que tempo e espaço são a mesma coisa, e levo 3 horas para fazer algo que no final fica com menos de 18cm de comprimento, não dá pra vender isso por mais de 5 dólares. O lado bom de tempo e espaço serem a mesma coisa é que, se você viaja para as regiões remotas do universo e a viagem leva 3 mil anos terrestres, os seus amigos estarão mortos quando você voltar, mas você não vai precisa de Botox.
De volta ao meu escritório, com a luz do sol entrando com força através da janela, pensei comigo que, se a nossa grande estrela dourada explodisse de repente, este planeta voaria para fora de órbita e sairia zunindo pelo infinito para sempre – mais uma boa razão para a gente levar sempre um telefone celular. Por outro lado, se um dia eu pudesse me mover numa velocidade superior a 300 mil km por segundo e recapturar a luz nascida séculos atrás, será que poderia voltar no tempo para o Egito Antigo ou para a Roma Imperial? Mas o que eu iria fazer lá? Dificilmente acharia alguém conhecido.
Foi nesse momento que nossa nova secretária, a senhorita Lola Kelly, entrou. Agora, na polêmica em torno da questão de tudo ser feito de partículas ou de onda, a senhorita Kelly é positivamente feita de ondas. Dá para verificar que ela é feita de ondas toda vez que caminha até o bebedouro de água gelada. Não que ela não tenha boas partículas, mas são as ondas que conseguem para ela as bijuterias da Tiffany. Minha esposa também é mais ondas do que partículas, só que as ondas dela começaram a despencar um pouco. Ou talvez o problema seja que minha esposa tem quarks demais. A verdade é que, ultimamente, ela parece que passou perto demais do horizonte de eventos de um buraco negro e uma parte dela – não toda, de maneira alguma – foi sugada. Isso lhe dá um formato meio gozado, que espero ser remediável mediante a fusão fria. Meu conselho para qualquer pessoa sempre foi evitar buracos negros, porque, uma vez lá dentro, é extremamente difícil conseguir sair e ainda conservar o ouvido para a música. Se por acaso você despencar por um buraco negro e emergir do outro lado, provavelmente vai viver sua vida inteira muitas e muitas vezes, mas vai ficar compactado demais para sair e encontrar garotas.
E assim me aproximei do campo gravitacional da senhorita Kelly e pude sentir minhas cordas vibrarem. A única coisa que sabia era que eu queria embrulhar meus bósons de calibre fraco em volta dos glútons dela, deslizar por um buraco de minhoca e adentrar por um túnel quântico. Foi nessa altura que fiquei impotente em virtude do princípio de incerteza de Heisenberg. Como eu poderia agir se não consegui determinar a posição e a velocidade exatas dela? E se de repente eu causasse uma singularidade – ou seja, uma devastadora ruptura no espaço-tempo? Isso é tão barulhento. Todo mundo ia olhar e eu ia ficar sem graça diante da senhorita Kelly. Ah, mas a mulher tem uma energia escura tão boa. Energia escura, embora hipotética, sempre foi para mim um choque estimulante, sobretudo numa mulher que tem sobremordida. Na minha fantasia, se eu pudesse levá-la para o interior de um acelerador de partículas durante cinco muntuos com uma garrafa de Château Lafite, eu estaria ao seu lado com os nossos quanta se aproximando da velocidade da luz, enquanto o seu núcleo colidia com o meu. Claro, exatamente nesse instante caiu um cisco de antimatéria no meu olho e tive que arranjar um cotonete para removê-lo. Eu tinha perdido quase toda a esperança, quando ela se virou para mim e falou:
- Desculpe – disse – Eu ia pedir um café e um bolinho, mas agora parece que não consigo me lembrar da equação de Schrödinger. Não sou mesmo uma tola? Simplesmente se apagou da minha memória.
- Evolução das ondas de probabilidade – falei – E se você vai fazer um pedido ao garçom, eu gostaria muito de um bolinho inglês com múons e chá.
- Com todo prazer – respondeu, sorrindo com ar de coquete e curvando-se numa forma de Calabi-Yau. Pude sentir miha constante de acoplamento invadir o campo fraco da senhorita Kelly à medida que eu pressionava meus lábios nos seus neutrinos molhados. Aparentemente, consegui alcançar uma espécie de fissão, porque o que percebi depois disso foi que eu estava me levantando do chão com um olho roxo do tamanho de uma supernova.
Acho que a física pode explicar tudo, menos o sexo frágil, mesmo assim contei para a minha mulher que fiquei com o olho roxo porque o universo estava em contração, e não em expansão, e na hora eu estava distraído."
[WOODY ALLEN. Fora de Órbita.]
Postado por Eduardo Carli de Moraes às 17:17 |









