domingo, 1 de novembro de 2009

:: Preâmbulus... ::

Caros amiguinhos, leitores parcos mas queridos deste bloguinho desencantado:

Segue abaixo, ainda em forma de rascunhão, mais uma partinha (na verdade partona....) do meu trampo de iniciação científica lá na USP. Meu objetivo é basicamente filosofar sobre "a vida depois de Deus", e averiguar que sabedoria e felicidade são possíveis depois do crepúsculo dos deuses e da queda das ilusões religiosas todas. Pra isso, estou centrando o foco principalmente em André Comte-Sponville, meu querido mestre, que escreveu livros que, além de me terem apaixonado pela filosofia, me mudaram a vida, para sempre, e para muito melhor, me salvando do niilismo e da melancolia infinita que eu temia que não me iriam largar nunca mais. É meu desejo que outros, igualmente agoniados com a absurdidade da vida, possam encontrar em Sponville o que encontrei: serenidade, sabedoria, doçura, alegria... Neste trecho, "ataco" principalmente dois temas sponvillianos que acho bem importantes: o estatuto da esperança e do eu, traçando paralelos com Camus, Spinoza e o budismo, entr'outros. Reflitam, discutam, discordem, conversem... Espero que não se assustem; mas, se se assustarem, lembrem-se: "o espanto é o pai da filosofia"...

Voilà:


SIGLAS:

T.D.B. = Tratado do Desespero e da Beatitude
F.D. = A felicidade, Desesperadamente...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

:: Abandonai toda esperança, vós que entrais! ::

DO ABSURDO À BEATITUDE
- Paralelos de Sponville com Spinoza, Camus e o budismo -


[ NO FUNDO DA CAIXA DE PANDORA ]

“Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este”, é o que escreve Albert Camus (Núpcias, pg. 35), autor que soube cantar a beleza da vida vivida na lucidez absoluta como poucos. "Se deveras existe um pecado contra a vida", complementa, "talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta." Palavras que André Comte-Sponville certamente consideraria como belas expressões de sua filosofia de vida.

Pois neste trecho o mestre existencialista é fidelíssimo ao “espírito do sponvillianismo”, que também considera a esperança um mal a ser superado e um obstáculo à nossa felicidade. O materialismo de Sponville gera necessariamente, depois da queda das ilusões religiosas, uma inversão radical do estatuto da esperança, que cessa de ser vista como um valor (como é no cristianismo, em que é uma das três “virtudes teologais” junto com a fé e a caridade), e passa pelo crivo de uma crítica que a desmascara como fonte de temor e infelicidade.

A esperança, para Sponville, é apenas uma das modalidades do desejo – e justamente o desejo como falta, como Platão o definia, ou o desejo como sofrimento, para falar como Schopenhauer e Buda. “O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós” (F.D., 58). Donde a definição clássica e sintética: “esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder”.

“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade (“Como eu seria feliz se...”), não podemos escapar da decepção... É o que Woody Allen resume numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!” (F.D., p. 37).


Sabe-se que Dante pôs na entrada do seu Inferno, na Divina Comédia, a seguinte inscrição: “Abandonai toda a esperança, vós que entrais!” Sponville, pelo contrário, considera que quem está no inferno é quem mais se inebria de esperanças. “Colocar essa frase na porta do inferno é inútil. Como querer que os danados não tenham esperança?”, provoca (F.D., 71). Pois a esperança é um desejo que surge de um solo de impotência, de ignorância, de insatisfação, e conduz em quase todos os casos ao desencanto, ao tédio ou à “alienação” em relação ao real/concreto (ou seja, ao que existe). Sem falar que toda esperança é mãe de um medo, e o medo, para Spinoza e Sponville, é uma tristeza, ou seja, algo que diminui nossa potência de existir. Como haveria paz interna (ou seja: sabedoria) se não cessamos de cair no tumulto labiríntico das esperanças e dos temores? E uma não existe sem a outra: “não há esperança sem temor”, como define Spinoza (Ética III, def. 13 das afeições).

Lembrem-se do que diz a canção de Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores": "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...". Pois quem sabe e pode, age; quem ignora e não pode... espera e reza. E quem espera não goza: teme e sofre. Também aí, neste clássico da MPB, vêm implícita a idéia de que em tempos de opressão política, como foi no pós-1964 no Brasil,o povo nada ganha ficando sentado em casa, com vagas esperanças utópicas de melhoras, mas deve sair às ruas, desfraldar bandeiras, pôr bocas em trombones - a ação e a intervenção, o protesto e a batalha, o fazer acontecer e o gerar-o-novo são o que conta, não a esperança (palavra que, não à toa, traz a "espera" em seu bojo...). Viver não é esperar.

O sábio, pois, não espera nada: vive no presente, impulsionado pela força alegre de seu desejo, preferindo sempre a ação à espera, a intervenção ativa à reza, o amor à carência, sem temores nem desencantos...

“Como esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar, o sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito – já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade. É também o que se chama amor.” (F.D., p. 76)

[ SÍSIFO FELIZ ]

Em sua obra, Sponville tenta uma reelaboração do mito de Sísifo que, depois de ter passado pelo prisma existencialista com Camus, torna-se, em seu Tratado do Desespero e da Beatitude, um “símbolo da esperança”. Para Sponville, não há cena mítica que melhor indique os padecimentos causados pela esperança: arrastamos rochedos pesadíssimos para cima de topos de montanhas de onde eles, sempre, fatalmente despencam – e sempre recomeçamos o mesmo vão trabalho...

“O rochedo é a própria esperança” (TDB, 28), arrisca Sponville; são elas os pedregulhos que arrastamos colina acima, e que sempre acabam no despencamento do desencanto, da saciedade insatisfeita, do tédio... “Isso é que é o absurdo, e triste, e trágico: o peso sempre de nossos desejos insatisfeitos e temores vãos.”

Aqui, a palavra “absurdo” é pra ser tomada a sério: o “absurdo”, que Camus dizia ser a essência da condição humana, provinha, segundo este, dum “desacordo” ou “desarmonia” entre nossa psique e o “mundo”. Nós, famintos por sentido; ele, mundo, silencioso, indiferente e a-linguístico. Como não se abriria um abismo?

Mas Camus, que neste ponto é mais pessimista que Sponville, achava que havia uma fratura irrecuperável, um abismo intransponível, separando a “fome de sentido” humana e a indiferença absoluta do mundo. Isto é o Absurdo – essa relação desarmônica entre o desejo humano e o “cosmos”. “Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer”, afirmava o mestre existencialista. “Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois.” (O MITO DE SÍSIFO, p. 35).

Estamos perdidos: pedimos e suplicamos do “mundo” o que ele não tem para nos dar – sentido, calor, diálogo, amor... A razão humana, epifenômeno raro nascido em uma espécie dentre milhões de espécies vivas, emerge no seio de um planeta indiferente, inconsciente, amoral, morto. Em uma palavra: a razão humana está diante de um Irracional de uma imensidão absolutamente incontornável. “O homem se encontra diante do irracional. Sente em si o desejo de felicidade e de razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” (M.d.S., p. 41) Por isso, pesa sobre tantos homens a condenação a angustiar-se, se podem enxergar bem a verdade sobre nossa condição: “a angústia é o ambiente perpétuo do homem lúcido...” (M.d.S., p. 37). Este Absurdo, para ele, só pode “resolver-se” na Revolta: é para ela que devemos tender.

Já Sponville não fala em revolta, mas, se falasse, diria provavelmente: se for pra se revoltar contra algo, que seja contra as esperanças, e não exatamente contra o absurdo! Pois matar as esperanças é o mesmo que matar o absurdo. O absurdo só vive uma existência derivada e secundária, dependente das esperanças. É somente porque esperamos que o mundo e a vida tenham sentido que somos tomados pela sensação de absurdidade quando os fatos crus negam nossos desejos. Quando não mais espera-se que o mundo tenha sentido, o fato dele não ter nenhum deixa de parecer absurdo – passa a ser unicamente verdadeiro.

Aceitar que o mundo e a vida não tenham nenhum sentido que transcenda o homem, que há um “vácuo objetivo de sentido” no cerne do ser, que o próprio ser talvez seja completamente sem-sentido e cheio somente de sua própria existência, traz uma inesperada plenitude. Vivemos então “na plenitude que a justa percepção de sua vacuidade nos proporciona...”, como escreve lindamente Sponville (TDB, 31). É também o espírito do budismo, como Lévi-Strauss o descreve: “Não há além para o budismo; nele, tudo se reduz a uma crítica radical (…) ao cabo da qual o sábio desemboca numa recusa do sentido das coisas e dos seres...” (LÉVI-STRAUSS, Tristes Trópicos, p. 475).

A fome de sentido é o que nos dana. É dela que precisamos nos libertar. Precisamos aprender a viver em paz, ainda que a vida não tenha sentido, ainda que o céu não exista. No silêncio da verdade. Na serenidade. Sim: trata-se de renunciar. Pode parecer estranho que apareça por aqui esta necessidade de renúncia, tão associada às religiões e aos conselhos-de-vida que estas costumam dar a seus devotos... Mas as religiões renunciam ao mundo... Já aqui, trata-se de renunciar justamente à religião, e agarrar-se com amor desesperado ao mundo! Sim: não haverá felicidade sem renúncia. Mas esta renúncia é uma renúncia das esperanças ilusórias que nos impedem o caminho para a felicidade real, sendo a religião só mais uma dentre tantas forças ideológicas que nos entulham a mente com ilusões a rodo...

Camus, de seu modo, chegou a conclusões semelhantes. O homem, percebendo a absurdidade de sua condição, não deve “saltar” para o abraço às ilusórias consolações oferecidas pela cultura; nem deve entulhar sua cabeça com contos-de-fada agradáveis. O essencial do “método” é recusar a salvação, aferrar-se à lucidez, manter os olhos abertos até o fim – o que ele chama, lindamente, de “viver sem apelação”:

“Insistamos de novo no método: trata-se de obstinação. Em certo ponto do seu caminho, o homem absurdo é solicitado. Na história não faltam religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pedem-lhe para saltar. Tudo o que ele pode responder é que não entende bem, que isso não é coisa evidente. Só quer fazer, justamente, aquilo que entende bem. Afirmam que aquilo é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção de pecado; talvez o inferno esteja ao final, mas ele não tem imaginação suficiente para vislumbrar esse estranho futuro; talvez perca a vida imortal, mas isso lhe parece fútil. Querem que reconheça sua culpa. Ele se sente inocente. Na verdade, só sente isto, sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si mesmo é viver SOMENTE com o que sabe, arranjar-se com o que é e não admitir nada que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isto, pelo menos, é uma certeza. É com ela que tem que lidar: quer saber se é possível viver sem apelação.” (O HOMEM REVOLTADO, p. 65)

Sísifo só seria feliz se não tivesse esperança alguma. É o que Sponville resume numa fórmula quase cruel: melhor não arrastar rocha alguma, e ficar ao pé da montanha fumando o cigarro do condenado. Que é a própria vida. Resignação e apatia? Pelo contrário! Desfrute intenso de um bem temporário, no presente, único tempo que existe.

De certo modo, trata-se sim de uma vitória da sobriedade sobre a embriaguez, e da razão sobre a paixão... Trata-se, sim, de “moderação dos desejos”, do “princípio de realidade” vencendo o “princípio de prazer” (Freud), de um trabalho sobre a vontade que tenta “ensiná-la” a não desejar erroneamente – e ter esperanças é, pura e simplesmente, o jeito errado de desejar. É este o ponto. Esperanças são desejos humanos que conduzem ao temor e ao sofrimento; somente por isso estão sendo criticadas, e não porque o filósofo deseja pisotear nas flores vivas e fazer com que o homem vive na lama sem auxílio algum das consolações... É como diz Marx: “A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva...” (CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL)

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[O SAMSARA DA ESPERANÇA FAZ-SE O NIRVANA DO DESESPERO]

Quando a esperança bate em seu nível zero, uma espécie de “momento místico” acontece; e, ao contrário do que possam pensar os crentes, é um momento exuberante, cheio de vida e energia, em que nos sentimos mais vivos do que jamais antes. Curioso instante em que um umbral é transposto, um portal é atravessado, um extremo torna-se seu oposto... “O desespero se inverte em ataraxia”, resume Sponville. (T.D.B., 28) A felicidade é para ser pescada no fundo-do-poço. Haverá felicidade quando toda esperança morrer. Pois a vida é bem mais forte do que a esperança; e são nossas esperanças as principais vilãs que nos separam e nos alienam da vida. Desesperar é viver.

Queres pouco: terás muito.
Queres nada: serás livre.


(FERNANDO PESSOA)

O desespero é o meio desta libertação. É quase budismo: aniquilação completa do Samsara da esperança. Pois os homens “giram a esmo na prisão de seus desejos” (TDB, 30), e isso é o Samsara. Como Buda dizia: “O homem apega-se apaixonadamente a sombras: inebria-se de sonhos, planta no meio um falso Eu e estabelece à roda um mundo imaginário”. (PERCHERON, MAURICE. Buda e o Budismo, p. 41).

A esperança nos encerra no Samsara: não existe esperança no Nirvana. E não seria exato dizer que quando “entramos” no Nirvana a esperança some. Não: a esperança precisa sumir para que possamos entrar no Nirvana. É uma necessidade sine qua non para a iluminação: que o esperançar tenha se silenciado; não no silêncio da depressão ou da apatia, mas no silêncio da plenitude, da escuta e da contemplação.

Heresia das grandes: “a única salvação está em renunciar à salvação” (T.D.B, 29). Frase suficiente para que Sponville tivesse ido parar na fogueira da Inquisição, se tivesse vivido séculos atrás. Pois o que se afirma é: os crentes jamais salvarão suas almas através da esperança. Não há alma a salvar, nem céu a se conquistar. Toda a idéia de “salvação” não passou de um embuste... Só se chega à felicidade quando se percebe que o céu não existe e que é inútil esperá-lo; e, que se for pra ser em algum lugar, só poderá ser aqui – se o pudermos construir.

“O nirvana não é outro mundo, que viria justificar este, dar-lhe um sentido, santificar ou superar suas ilusões. Nem paraíso, nem justificação, nem santificação. O mundo é o mundo, nada mais, e o céu é vazio. Não há deuses, ou nada a esperar deles. Então?... Então a salvação é esse vazio mesmo, a compreensão da ilusão, a aceitação do contra-senso – o desespero. O nirvana não é, portanto, o contrário do samsara: “Enquanto o nirvana for encarado como algo diferente do samsara, ainda será necessário superar o erro mais elementar relativo à existência (Nagarjuna)...”. (TDB, 30-31)

Nada mais ilusório, pois, do que pensar em Nirvana e Samsara separados espacialmente, como se fossem duas cidades separadas por uma fronteira, ou duas margens de um rio atravessáveis por uma ponte. Na verdade, é a “atitude interna” o que muda, um novo olhar/perspectiva se estabelece. Não se vai ao Nirvana a pé. Nem de carro ou avião. Ao Nirvana “vai-se” sem mexer um músculo. Pois trata-se de uma modificação de consciência. Uma “purificação” de consciência. Uma pacificação, serenização, ataraxia desta consciência, antes presa do carrossel das esperanças e dos temores. Ver o mundo através do vidro impuro da esperança é enxergá-lo mal, como se olhássemos por um material semi-opaco, delirante, de pouca transparência...

O que temíamos que nos esmagaria como a pior das mais terríveis notícias – o mundo não tem sentido! O céu está vazio! Não há o que esperar dos deuses! - acaba (surpresa!) sendo nosso maior tesouro. O desespero, que temíamos, nos liberta de todo temor. Descobrimos que, se éramos medrosos, era porque esperávamos. Espero a carta chegar, e enquanto ela não vem sofro, importuno o carteiro, tenho tremendas insônias... A carta chega e com ela cessa a espera, eu des-espero: alegria, alívio, estou livre de um rochedo!

Há “novidade”, pois, nesta “lição de desespero” sponvilliana? Decerto que não! E ele não pretende ser original: de certo modo, segue nos passos de Buda, Epicuro, Spinoza, Marx e Freud... Que a esperança seja uma praga existencial é uma descoberta ancestral. “Não esperai nada dos deuses implacáveis. Esperai tudo de vós mesmos” (PERCHERON, p.34-35): palavras de Buda, mais de 2 mil anos atrás... “As noites serenas são as noites sem esperança”, escreve um poeta grego (Sêneca), também milênios lá longe...

A sabedoria, pois, exige uma renúncia suprema: de toda esperança. “A sabedoria é a inversão do desespero, e seu apogeu” (TDB, 33). Quando o desespero chega ao seu ápice, ou seja, quando não há mais esperança alguma, é aí que a sabedoria, o nirvana, a ataraxia nascem.

A felicidade é uma hóspede que, chegando em nosso hotel, exige um quarto vago. E ela é bem específica em suas demandas: diz que só fica se for no quarto hoje ocupado pelas esperanças, aquelas pragas. Diz a felicidade, a quem sabe ouvi-la: “expulse todas as danadas do quarto, estas ervas daninhas, que juro que me instalo, mesmo que seja só por meia-diária, uns minutos, um pisco...”. É preciso abrir no peito um ninho vazio onde o pássaro da felicidade seja convidado a se pousar. O desespero é quem trabalha nesta obra: abre “o espaço livre” que a beatitude precisa para nascer.

Por isso Sponville não diria que nosso tempo histórico, o “clima espiritual de nossa época”, é dominado pelo “desespero”. O nosso tempo é do desencanto, da decepção. O desespero seria a superação deste mesmo desencanto; pois todo desencanto é a queda de uma esperança. Notem na própria palavra: é preciso que se esteja encantado para que o desencanto sobrevenha... Não se desenfeitiça quem não foi enfeitiçado; mas quase todos perdemos nossas vidas enfeitiçados pela esperança e pelo desencanto. São nossas vidas: quereres e frustrações, desejos sem fim e infindáveis tédios... Samsara. Como escapar a este labirinto? Não há medicina alguma além desta: doses colossais de desespero. É preciso descer até o fundo do poço. Estranha terapêutica, que de certo modo recomenda aos deprimidos e melancólicos que continuem descendo... Haverá uma estrela brilhante no fundo do poço escuro...


[ A QUEDA DE VOSSA MAJESTADE, O EU ]

Em Sponville vacila também o “cogito” cartesiano, suposta base solidíssima para toda a filosofia de Descartes. Este “eu” que se pôs no alicerce de tudo, como certeza primeira, existirá de fato? Ou só existe esta “multiplicidade vaga e como que fantasmática de suas aparições”? (TDB, 44). O eu, em Sponville, pára de ser visto como uma unidade estável, e passa a ser enxergado como um processo metamórfico. Crer na estabilidade do eu, pois, é nutrir uma crença profundamente ilusória. O eu é um rio que corre, sempre, e que não se pode congelar. Tal concepção vêm de muito longe na história: do atomismo de Epicuro/Lucrécio/Demócrito, de Heráclito, das filosofias “místicas” orientais (hinduísmo, budismo etc.), chegando até Nietzsche e grande parte da filosofia do século 20. Não resta nada do sujeito senão sua “ilusão de si”. Desespero: não há mais Deus nem sujeito.

Para o budismo, por exemplo, não há “eu” - ou seja, bem antes de Nietzsche e toda a filosofia contemporânea, Buda já tinha decretado a “morte do sujeito”. “Só há agregados, isto é, combinações fugidias cuja aparente continuidade é apenas ilusória”, explica Sponville. (TDB, 47). Processo, metamorfose, agregado, dança de átomos... não há mais “eu”. Contra a presunçosa tese metafísica dos monoteísmos, que garantem que há algo em nós, o “espírito”, que é imortal, imutável, indestrutível, fixo, Buda diria: “o que chamais de espírito se produz e se dispersa numa mudança perpétua... se forma e se dissolve sem cessar...” (PERCHERON, Maurice. Buda e o Budismo, Seuil, p. 58). O cosmo é uma imensa praia de areia movediça. “...não há nada permanente, eterno e sem mudança na totalidade da existência universal...” (WALPOLA RAHULA, p. 93). “O homem não passa de um composto impermanente num oceano de impermanência” (TDB, 49), resume Sponville.

Isso que chamamos de “identidade”, pois, entendendo por isso uma estabilidade da personalidade, algo que “continuamos a ser” através das idades da vida, desde o primeiro choro até o último suspiro, por todas as curvas e ladeiras e morros do tempo, não passa de uma ilusão. Se formos sábios, descobriremos que o amor não é uma questão de esperar que os outros admirem nosso “eu”, que não passa de fumaça e correnteza, vaidade das vaidades, mas sim de agir em nome da alegria e da potência de existir, batalhar pela felicidade alheia, dando o “eu” em hecatombe, como combustível para este incêndio maior (tão maior!)... O amor é uma ação, uma potência, uma força - e não um desejo de ganho. Pobre de Narciso, “que só ama reflexos e miragens, que só ama inapreensíveis jogos na água, e frágeis, e cambiantes, da luz...” (TDB, p. 55).

A única coisa eterna é a mudança. A fugacidade é só o que há de perene. A eternidade não é uma estátua: é uma eterna correnteza, que corre e corre sem se cansar... E por isso o tal do “eu” não passa de uma quimera, que o budismo tão bem soube desmascarar:

“...aquilo que nós chamamos de Eu não passa de uma abstração da memória e não representa senão lembranças registradas – o que contribui para dar uma impressão falaciosa de continuidade. O único Ego genuíno é o do momento dado, pois se concentra na experiência imediata. A dualidade dolorosa aparece quando o indivíduo tenta a cada instante pôr em ação um Eu, de fato, inexistente. Pouco importa para o budista encarar a libertação de seu sofrimento como um objetivo futuro, pois a única coisa que conta realmente é a identidade do seu Eu e o pensamento presente. Seria um erro crer que esse aprisionamento do Eu e o caráter efêmero que ele reveste afastem toda possibilidade de modificar, de maneira geral, um ponto de vista do espírito, fortemente polarizado pelo momento atual: muito pelo contrário, a renúncia a um falso Eu é libertadora, uma vez que o pensamento do instante presente não se entregue a interpretações errôneas.” (PERCHERON, M. BUda e o Budismo, p. 63)



[ CONHECE-TE A TI MESMO: DISSOLVE TEU EU... ]

O “eu” é somente uma ilusão a superar, pois, e o modo para esta superação não é outro senão o velho imperativo do oráculo-de-Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. O auto-conhecimento, ao contrário do que pensam os ingênuos e os otimistas, não nos dá, quando consumado e bem-sucedido, a felicidade de “sermos donos de nosso próprio eu”. Não: o auto-conhecimento dilui este mesmo “eu” que ele, pensando conhecer, só consegue “dissolver”...

E o auto-conhecimento não passa, também, de processo. E processo vitalício. Não é possível “estacionar” num conhecimento “seguro” e “imutável” sobre o tal do “eu”. E é porque ele não existe “parado”: o que chamamos de eu é algo que corre... Como na célebre parábola de Heráclito: não se banha duas vezes no mesmo rio, tanto porque as águas não são mais as mesmas, tanto porque o “eu” que se refresca já é outro... O eu corre, está sempre correndo. O eu não sabe ficar sentado; é criança traquinas que não sossega o facho... Como “conhecer”, pois, um moleque endiabrado que fica correndo pela casa?

O auto-conhecimento, se conduz ao contentamento e à serenidade, se é a jornada essencial para “atingir” a sabedoria, é muito mais pelo efeito dissolvente que ele possui. Ele destrói mais do que fabrica: destrói ilusões, quimeras, esperanças, temores, fantasias, paranóias, neuras... O próprio Freud certamente assinaria embaixo desta tese, tão simples e tão comprovadamente verdadeira: o auto-conhecimento é terapêutico. Mas se é terapêutico, é pelos males que ele dissolve mais do que pelo “conhecimento positivo” que ele possibilita – aí está. E não é terapêutico porque nos dá a “posse” de nosso próprio “eu” - não há eu a possuir, só ilusões a dissolver. E querer possuir um eu – imutável, idêntico no nascimento e na morte, que não flui nem se modifica – é a ilusão essencial. Quem embarca nesta viagem de auto-descobrimento com tais ímpetos colonizadores (“apossar-se do eu”...) periga naufragar no meio do Atlântico, como um Cabral que não descobre a América...

O oráculo de Delfos nos deu uma missão que talvez seja, no fundo, irrealizável (mas que não é, por isso, menos crucial e de suma importância). Não porque não haja níveis de “auto-conhecimento”: com certeza existem pessoas extremamente iludidas sobre si mesmas, que se tomam por uma imagem distorcida que fabricaram de sua “identidade”, e outras que parecem possuir uma extrema lucidez, uma capacidade límpida para perceberem-se e aceitarem-se como são. O que é impossível é que o auto-conhecimento “pare”, estacione, se conclua. Esta não é uma jornada com uma recompensa que se possa possuir, como é no caso de um mergulhador que desce ao navio naufragado e emerge com um baú de tesouros. Não há eu: não há no fundo de nós, escondido lá nos breus das funduras, nenhum “eu” que seja o nosso pote-de-ouro no fim-do-arco-íris. Conhecer-se, de verdade, é perceber-se como um mutante, e abdicar de qualquer esperança de estabilidade...

“Loucura de Narciso: querer possuir um eu que não existe”, escreve Sponville (TDB, 92). “A sabedoria é renunciar à posse.” Não estamos falando somente de posses materiais, claro, mas sim deste desejo de “ser dono de si mesmo” - desejo ilusório, esperança miserável, que não passa de uma fantasia utópica. Como naquela música dos Los Hermanos, que encerra o Ventura, onde o Marcelo Camelo canta (com infinita melancolia) sua fantasia de que, no “final” (um “final” que ele, claro, projeta num futuro distante, num mitológico tempo cósmico onde se tornará carne o happy end)...

...vou ser coroado rei de mim.

Mas ninguém se torna “rei do seu próprio eu”, na verdade, pois esse “eu” (substancial) não existe. Somos um corpo, decerto, mas não um corpo que “tem um eu”. Se dissermos que cada um de nós é um corpo que tem “vários eus”, já estaremos um pouco mais próximos da verdade. “O eu é um outro”, dizia Rimbaud, talvez querendo dizer que a estranheza consigo mesmo era tamanha que seu “eu” soava como um estranho, um desconhecido bizarro... Mas para sermos fiéis ao espírito do sponvillianismo, teríamos que dizer algo esquisito como: “o eu é todo um monte de gente!”. Parece coisa de criança... mas quem disse que as crianças não tem lá sua sabedoria? E, se o “eu” é “um monte de gente”, ora bolas, por que o chamamos de “eu” e não de “nós”? Por que acreditamos numa “identidade”?

A gente é um monte de gente...

“...só terei alegria, em minha relação comigo mesmo (ou com o que vivo como tal), se souber amar aquilo em mim que não é eu, aquilo em mim que não é um indivíduo, não é um sujeito, não é uma coisa: aquilo... esse jogo de forças e desejos, essa potência em mim de gozar e de pensar, essa força de existir, isto é, de viver e de agir, que Spinoza chamava conatus ou desejo. Ou seja: a natureza em mim viva (Vênus Volupta), de que não sou, e nunca serei, mais que uma parte. Bem tolo é o egoísta, que toma essa parte por um todo. E bem infeliz: pois ela morre. E sua vida é amarga como um sonho natimorto. É o sonho de Narciso, e o amargor de suas esperanças vãs... Ao invés disso, é necessário amar, não o eu, mas a natureza em mim (minha própria potência enquanto parte da potência da natureza), não o eu, mas a vida. Isso não se possui: a onda não se possui, nem o mar. Mas ser sábio, repitamos, é renunciar à posse.” (TDB, pg. 92)

A vida não se pode possuir. A vida não é algo que se tenha. Ninguém tem, da vida, nada senão uma “posse” precária, transitória, passageira, mortal. Uma posse que passa e se perde, não sabemos quando, e para todos, sem exceção. Da vida, um dia, seremos todos despossuídos. Pois então: possuímos de verdade aquilo que vai morrer? Ou tudo o que vai morrer nos está somente emprestado? Pois somos, para nós mesmos, aquilo que vai morrer: transitória carcaça de carne e nervos que arrastamos pelos dias, parcos e poucos, em que vivemos e lutamos, persistindo como podemos...

A “satisfação interior”, o “auto-contentamento”, a “ataraxia”, a “beatitude”, “a sabedoria”, só virá quando este complexo de ilusões que chamamos eu, na ilusória crença de sua unicidade e substancialidade, ruir e se desfazer. Sim: é como no budismo – o Nirvana é alcançado com a “extinção do eu”. Ou seja: da ilusão de que o eu existe. Estar iluminado é saber que o eu não existe.

* * * * *

[ VIVER É DESEJAR, DESEJAR É VIVER ]

O eu não existe; mas a vida sim. O eu não existe; mas nossos corpos, sim. E nossos corpos, que carregam seus desejos e necessidades, que sentem prazer ou dor com certos e cert'outros contatos, têm uma força íntima, propulsora de tudo, que vive enquanto vivermos – exatamente o que chamamos conatus, desejo, libido. Viver é desejar. E só os mortos não desejam.

Não há eu imutável, não há identidade fixa, não há nada em nós que não flua na correnteza do tempo, junto com tudo o mais... Mas há os desejos.

O que não há é o “eu” que deseja, e que seria supostamente sempre o mesmo, apesar do carrossel de seus quereres. Só há o carrossel, sem piloto, sem botão de stop, e que só pára com a morte. Só no túmulo paramos de desejar. Por isso “a experiência do eu é a experiência do desejo. Anterior à consciência do eu no recém-nascido, mais ampla que esta no adulto, o desejo é a essência de nossa vida”, afirma Sponville. “Todos os nossos dias lhe são submetidos, e até nossas noites, como Freud mostrou, lhe obedecem.” (TDB, p. 63)

Somos, essencialmente, vontade de gozo. E isso, como diz o poeta, “nos faz ir onde quer que o prazer (voluptas) arraste cada um de nós” (LUCRÉCIO, II, 257.) Vênus é sempre um magnético sol em nosso horizonte: vamos em sua direção. E não há fim para a “constante marcha adiante do desejo”, nesta vida – a marcha só cessa quando cessa a vida. “O desejo, como o mar, é sempre recomeçado. Do mesmo modo que meu corpo não passa de composição, no espaço, de átomos perpetuamente móveis, assim também minha vida não passa da sucessão, no tempo, de desejos indefinidamente variados.” (TDB, p. 66)

Não se enganem, pois: dizer que não se deve querer a posse do “eu” não é o mesmo que apostar, como no niilismo de Schopenhauer, que é preciso negar toda a “vontade de viver”. Pelo contrário! Isto que chamamos de “vontade de viver” é pra ser afirmada, decerto! É o próprio conatus, e o conatus é todinho feito de desejo. “Não se trata de renunciar ao desejo”, frisa Sponville, neste ponto sendo fiel a Nieztsche. Nem é possível, no fundo, esta renúncia completa: somente no suicídio. Enquanto há vida, há conatus – mesmo no moribundo, há ali um resíduo desta força vital que persevera no ser, a despeito de tudo, de quaisquer argumentos e razões....

“Spinoza é o anti-Pascal: em vez de nos rebaixar pela denúncia, carregada de ódio, de nossa 'miséria', ele nos eleva pela consideração, cheia de alegria, de nossa potência.” (Sponville, T.D.B., 93) Pascal – que dizia que nada há de mais odioso que o eu – não conseguiu libertar-se dele (e é óbvio porquê: pois ficou prisioneiro do cristianismo). Já Spinoza, que alçou vôo bem longe dos dogmatismos dos monoteísmos ocidentais, percebeu o que a filosofia oriental já descobriu há milênios (como mostra muito bem o “Filosofias da Índia”, o magistral livro do Heinrich Zimmer, que considero um dos melhores da filosofia no século 20): o eu é só uma quimera, que deve ser desfeita para que possamos viver “a verdadeira vida”.

“Nem Pascal, nem Narciso: nem o eu da religião, nem a religião do eu” (T.D.B., pg. 96). O “eu” não é um culpado, um criminoso, que é preciso torturar, arrastar no chão, humilhar com violência, mandar pro castigo, como queria Pascal, como quer o cristianismo (doutrina que nos convence que somos todos pecadores, precisados de redenção...). O “eu” também não é algo pelo que apaixonar-se, como fez Narciso, que delirou uma imagem de si-mesmo e tacou-se de cabeça nela – afogando-se, lembrem-se bem. Ser cristão, ser narcisista, não nos servirá para atingir nem felicidade nem sabedoria.

“Quem não se possui se partilha sem perda”, escreve lindamente o Sponville (TDB, 95). Como nos partilharíamos, se acreditássemos ter um “eu” que é preciso guardar e resguardar? A “possessividade” em relação ao eu é a fonte de todos os vícios, infelicidades e burrices do desejo.

Desiludidos das miragens das posses, não nos descobrimos pobres: estamos mais ricos do que jamais estivemos. Lembrem do que cantava a Janis: “freedom is just a another word for nothing left to lose”. Quando não mais há eu a perder, quando não há mais esperanças a nos iludir, estamos livres. É o espírito de Woodstock, e não à toa chamavam aquela geração de mística, esotérica, orientalizada... Pois é verdade: o balanço da cultura-jovem daqueles Verões-do-Amor pendeu mais para o Oriente, o sábio Oriente, do que o Ocidente bélico, industrialista, individualista, consumista, competitivo e tecno-junkie desejava. Que perigo, essa juventude achando que a contemplação, o amor e a música são valores mais dignos de serem perseguidos do que o consumo e o trabalho mecanizado!...

A vida, pois, é pra ser desfrutada, não possuída. A vida foi feita para o desfrute passageiro, e não para a posse eterna. Na vida somos apenas visitantes, nunca moradores. E devemos amá-la pelo que é, sem apelação e sem ilusão, sem falsas esperanças que nos furtem da implacável grandeza de uma existência lúcida. “Desfrutar-se sem se possuir: o filho pródigo contra o avarento, o jogo contra a propriedade, a serenidade contra a angústia” (T.D.B., pg. 96). Pois quem disse que “perder o eu” e “abandonar toda esperança” é coisa ruim? Pelo contrário! É a libertação...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

RASCUNHO DE ALGO QUE NEM SEI O QUE É...

Perder a fé não é nada fácil. Junto com Deus, cai também o Sentido. E agora, vida, o que é que você significa? O que é te salva do absurdo, da infinita angústia? Que missão dentro de ti devo cumprir? Pois antes, quando ainda havia a crença, havia uma meta muito bem definida: fomos postos no mundo por uma divindade benevolente e onipotente, que faz de nosso percurso terrestre uma espécie de prova para checar do que somos merecedores: da bem-aventurança eterna, ou da danação sem fim. O cosmos ficava impregnado de sentido: houve uma criação, e uma razão para esta criação, e um espectador atento, lá em cima, que observa nossos atos e intenções, distribuindo castigos e recompensas conforme nosso mérito, com a mais perfeita equidade e justiça...

Quando deixa-se de crer em Deus, faz-se esse vazio no peito, um buraco negro antes preenchido por sentido. E agora, com que preencher essa ferida deixada por um Deus que se ausentou, levando consigo todo o sentido? Que é a vida, então, se não foi criada, mas foi simplesmente “algo que aconteceu”? Que devemos fazer dela, com que tipo de ações e atos preenchê-la? E agora, que não há certeza de que seremos recompensados pelo Bem nem punidos pelo Mal? Que sobra para nortear nossos seres nos agitados mares de um mundo sempre movente?

Era fácil ser um homem bom quando para isso bastava seguir os Dez Mandamentos, ir à igreja aos Domingos, ficar longe dos puteiros e das amantes. E agora, como ser um homem bom, quando não mais está escrito em pedra os princípios que devemos abraçar? E quem é que vai julgar se um homem é bom ou mau, se o juiz que imaginávamos estar sentado num trono nas estrelas mostra-se só uma ilusão, um vazio, um nada? De onde tirar a energia para a bondade, se sabemos que não há forças cósmicas engajadas em recompensá-la? E como resistir à tentação da maldade, se ela muitas vezes pode trazer suas vantagens e nenhuma divindade punidora nos observa lá de cima?

Ninguém perde a fé à toa ou porque acha gostoso. Não há nada de agradável em ver desmoronar tudo o que antes tínhamos como verdadeiro. E dá uma grande indignação descobrir, de repente, que nos mentiram e nos enganaram. A criança, ao descobrir que Papai Noel não existe, talvez nunca mais vá levar a sério o que dizem os adultos, esses embusteiros, passando por uma desilusão essencial no caminho para a maturidade. Nós, ateus, ao percebermos que tudo na religião não passava de embuste, e que Papai Noel e Papai do Céu tinham mais semelhanças do que uma mera rima, passamos por mais um doloroso ritual de maturação. É como deixar a criança pra trás, de novo, e sempre dói saltar para um outro estágio onde a volta ao anterior é impossível. “Que culpa temos da infância, de seu viço e constância?”, perguntava Jorge de Lima. Mas que culpa temos se as ilusões da infância, cedo ou tarde, acabam ruindo? E crer em Deus não é um aferrar-se a ser criança? Não é querer habitar um mundo onde os nossos desejos mais íntimos e profundos são todos atendidos?


* * * *

Sei muito bem, também, o quanto argumentos contam pouco contra vivências. Se me tornei ateu, sem chance de retorno, foi certamente pelo que vivi muito mais do que pelo que li ou me disseram. Se tudo saísse como o planejado, eu teria sido um cristão perfeito, que comunga toda semana, que confessa seus pecados, que reza à noite e à mesa seus pais-nossos, que preocupa-se com a salvação de sua alma, que vive com a sensação constante de estar sendo pelo juiz supremo observado...

Quando criança, fui mandado pro catecismo, e não tinha nada de levado-da-breca. Ouvia com atenção. Respeitava a sabedoria dos anciãos. Acreditava piamente que o padre entendia muito mais sobre o mundo do que eu. Enxergava sobre a Bíblia uma certa aura sagrada, que a fazia ser um livro especial entre os livros, e um que não se podia ler sem uma respeitosa postura de gravidade. É claro que, como todo menino, achava tudo muito chato e não via a hora de voltar ao vídeo-game. Mas, desde muito cedo, influenciado muitíssimo, também, pela minha avó, me preocupei, sobretudo, em “ser um bom garoto”. Meus pais não têm muito a me censurar em termos de travessuras: eu não atirava pedras nas janelas dos vizinhos, não matava passarinho no estilingue nem roubava doce na padoca. Era excelente aluno, desses que a professora não precisa jamais puxar a orelha por indisciplina ou por excesso de barulho, e que passou por todas as séries sem nunca ter ficado de recuperação. Em casa, não era nem respondão, nem revoltado; apenas, talvez, mais triste do que costumam ser as crianças e os jovens, e muito mais calado...

Fui um cristão perfeito, que rezava todas as noites, comportado como um coroinha, o orgulho da mamãe e da vovó, sem pecados a relatar, sem sujeira na alma, quase um Santo Agostinho. Estava no caminho para ser canonizado. Até o dia em que, quando eu retornava da igreja, um trombadinha com o dobro da minha altura e o triplo da minha massa muscular me pôs sob a mira dum punhal , me arrastou pr’uma rua deserta, me tirou tudo que eu tinha de valor e ainda fez questão de dizer que já tinha matado “três caras” e que matar mais um era a coisa mais fácil do mundo.

- Num tenta nenhuma gracinha, senão eu te furo. Brinca não que eu já furei três caras!

Como descrever o desmoronamento que isso causou dentro de mim? Ainda hoje não sei como meu tórax não explodiu, tamanha a alucinante disparada que deu meu coração quando notei que estava sozinho, no meio da rua, longe de pai e mãe, frente a um adolescente irado, com sangue nos zóio, que ameaçava me cortar a faca e me deixar sangrando na calçada. Que tinha feito eu para merecer um tratamento tão truculento?

E os desastres não gostam de anunciar previamente sua chegada: vêm quando estamos desprevenidos. Fui pego como se fosse um atropelamento. A ira dos despossuídos veio com toda a força para me punir pelo crime inafiançável e terrível de ter 10 pilas na carteira e um relógio no pulso, e estar andando com eles pelas ruas da miséria, na volta da igreja.

Tempos depois, na puberdade, foi a hora do segundo golpe – dessa vez, não foi mais um mero punhal na mão de um trombadinha, mas dois revólveres na mão de dois ladrões de carro profissa, que puseram eu e meu pai na mira, nos deixando quase implorando por misericórdia. Me lembro até hoje de ficar literalmente petrificado de medo. E, por favor, levem a sério a palavra petrificado. Minha sensação é que eu ficaria sendo uma pedra por alguns anos – e foi o que aconteceu e o que hoje eu costumo chamar de “adolescência”...

Há modo mais dolorido de uma criança aprender sobre a fragilidade da vida humana, sobre a violência urbana e a luta de classes, sobre as sangrentas rixas entre os homens? Estas são coisas que eu preferiria ter aprendido nos livros, e não assistindo, impotente, enquanto meu pai era ameaçado de morte por uma mão tremendo de ira, a um passo do assassinato...

* * * * *

O pior de tudo, porém, não foram nem os assaltos, enquanto eles duraram, mas suas seqüelas e feridas, das quais nunca realmente me curei – meus pesadelos que o digam. Eu demoraria anos e anos, depois, para “elaborar” essas experiências. Mas sei perfeitamente que foi ali que Deus pra mim morreu. Talvez existam outros ateus que tenham “acordado” de modo mais gradativo e menos traumático. Eu, não. Acordei num repente. A cruel pedagogia do mal me desconverteu subitamente.

A verdade é que Deus me decepcionou profundamente.

E acho que nunca o perdoei por esta decepção.

Sei que Ele não existe, e continuo culpando-o.

Culpei-o pelo desprezo absoluto e completo por mim. Pela indiferença monstruosa que demonstrou por meu destino. Por não ter movido um único dedo de sua mão onipotente quando eu estava ali, precisando, suplicando, minha vidinha de 10 anos de idade vacilando, por um triz... Me perguntei: e se a faca tivesse sido enfiada no meu peito, e o bandido tivesse me deixado num beco escuro para morrer, e ser recolhido pela polícia, e mandado sem documentos pro IML, o que faria meu bom Deus? Surgiria, milagrosamente, abrindo um buraco nas nuvens, para me resgatar? Não. Eu soube que não. Senti que não. Meu Deus tinha me provado que para Ele eu não tinha absolutamente nenhum valor. O fato de eu viver ou morrer, pra Ele tanto fazia. Eu não era digno de resgate. Nem meu pai, tampouco, o de carne-e-osso - que Ele, excelente Deus que eu tanto fazia para louvar, não salvou da mira de uma pistola que teria destruído nossas vidas por inteiro, e que, ao não disparar, a destruiu somente pela metade.

Uma pistola que não dispara nem por isso nos deixa inviolados. Uma pistola que não disparou me deixou, por anos, procurando meus cacos pelo chão...

* * * * * *

E então, por não saber nem o sentido da vida, nem quem sou eu, vivo rascunhando uma existência que nunca vou passar a limpo... Talvez a vida não seja uma prova, e ninguém nas estrelas tenha como serviço nos dar uma nota azul ou vermelha. Isso também é uma decorrência do ateísmo: nada, no além-túmulo, virá para julgar nossa vida. A vida a julgamos conforme a vivemos. E eu talvez me iluda a transformando num teste, e me invente este desejo, que passa por um sentido, de ser aprovado. Vou entregando às gentes rascunhos de um ser que se procura, que se interroga, que se angustia, que se cansa, que se reergue, que insiste. Faço tudo com a inépcia de um principiante, com a falta de jeito de uma criança, pois viver, ao que eu me lembre, é algo que nunca fiz antes. Descubro que o caminho é errado só depois de começar a trilhá-lo. Encontro provas de meus erros nos machucados com que vou povoando outros peitos. Me refaço como posso, me transformando enquanto caminho, e não tenho cais à espera nem muita escuta pra minha angústia. Quero amar porque sou só, e a vida é muito difícil. Mas o amor não é uma marcha da vitória, mas uma dolorida busca, que empreendo com minhas fracas forças, tentando construi-lo para iluminar o escuro. Dos céus nada espero – nem mesmo que reconheçam o ressentimento que seu eterno silêncio deixou no meu coração partido.

* * * * *

Mas os seres amados não são eternos. É sempre um mortal amando outro mortal. E sempre amamos uma pessoa que um dia irá morrer, não sabemos quando – talvez antes de mim, talvez depois, mas que deste mundo partirá, com certeza. Disso todo mundo não sabe, e disso todo mundo finge não saber. Por isso foi preciso que Wayne Coyne cantasse, naquela linda música dos Flaming Lips, tentando despertar nos ouvintes a lembrança de algo que quase todos nós varremos para longe de nossa mente por ser verdade demasiado amarga: “do you realize everyone you know someday will die?”

O ser amado sob ameaça de morte: nada causa um terremoto pior em mim do que isso. Foram talvez os piores momentos da minha vida, sentir esta ameaça. Meu pai sob a mira de uma arma de fogo segurada por um bandido irado. Minha avó Enid, adoecendo e definhando, até que, perto do fim, nem mais reconhecesse meu rosto, nem mais soubesse quem eu era, me provando que eu estava guardado dentro dela em células cerebrais que, também elas, nada têm de eternas. E agora isso: uma namorada, a mil quilômetros de distância, subitamente internada, com perigo de morte por embolia pulmonar. O pavor, o pavor... O silêncio que desce... O silêncio da impotência absoluta. E o medo do futuro, depois da perda: como sobreviveria eu a uma amputação tão grande, ao vazio em mim onde estava o amor pelo ser desaparecido? Nestas horas, a possibilidade de rezar faz falta, não nego. Quase desejo ser capaz de ter fé. Mas não tenho escolha: as ilusões perdidas não retornam. Persisto como posso.

Morte certa, hora incerta – e, enquanto isso, a angústia e a ignorância, fardos necessários dos lúcidos. Não: infelizmente, não consigo crer que o amor seja mais forte que a morte. Vejo nisso um exagero romântico, uma ilusão do otimismo, um wishful thinking que não se sustenta. O fato de amarmos alguém, não importa com qual intensidade e devoção, não basta para imortalizá-lo. Pois nada basta. A imortalidade não existe. O amor é “só” uma invenção sublime da vida em sua fome incontenível por si mesma. A vida quer a vida, e se esforça por perseverar na vida, sendo nesta missão o amor seu servidor supremo.

Este desejo de viver, que transcende em tanto a razão, que é tão maior do que todos os nossos pensamentos, que está instalado no mais profundo de nossos corações, esta energia vital subterrânea e inextirpável, que Spinoza chamou de conatus, Freud de libido, Nietzsche de vontade de poder, Bergson de élan vital, isto que em nós clama pela vida e pela felicidade, isto é a fonte de onde jorra o amor. Pois sabemos que sozinhos não somos nada, que nenhuma vida se justifica no isolamento, que (como cantou Tom) “é impossível ser feliz sozinho”... Mas alguns o percebem tarde demais, pegam nas mãos esta sabedoria quando já não sobrou muito tempo para pô-la em prática: lembrem-se da morte do herói de Na Natureza Selvagem, que em seus momentos de agonia tem a epifania e percebe: “happiness is only true when shared”.

Sim, sei que, no fim, morrerei. Não sei se com a sensação de ter vivido bem, ou somente com a consolação de ter tentado. Tento viver bem, mas o que é que me prova que não sou um fracasso?

Minha prova entregarei amarrotada, cheia de rasuras, orelhas nas páginas, tinta borrada pelas lágrimas, aqui e ali até uma ou outra gota de sangue... Em meio ao som e à fúria, caminho por um mundo que não entendo, na dura lida de fabricar melodia. Ai, vida, revela pra mim teu mistério? Me conta se faço de ti o que é devido? Ou só consigo criar um bizarro e triste rascunho-de-vida?


Goiânia, 22/10/09

sábado, 10 de outubro de 2009

:: theory of flight ::

AULA DE VÔO

O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defendendo o que pensa saber
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de seu casulo.

Até que maduro
explode em vôos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mesmo o vôo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
e de suas certezas.

É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o vôo
é preciso tanto o casulo
como a asa.

[mauro iasi]

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

:: tenho uma cabeça com asas ::

:: DIGRESSÕES AÉREAS ::


"I've got a head with wings."
MORPHINE


"Quem é pobre", já dizia o Millôr, "só entra em avião se for pra varrer". Eu, que tive a má idéia de ser filósofo e não faxineiro, só tinha voado na vida uma vez, pra Porto Seguro, ainda moleque. Mas na época era pirralho demais para aproveitar a viagem e todas suas "potencialidades filosóficas". Desta vez, voando ao encontro da amada, era como se voasse pela primeira vez. Grudei-me à janelinha, com olhos famintos, desistindo do Joana D'Arc do Michelet que tinha trazido no pocket para me distrair na viagem, e entreguei-me à contemplação espantada das cambiantes paisagens, as externas e as internas (pois meu coração é também uma cambiante paisagem!). Descobri que tenho mais "sentimento cósmico" do que o pirralho de cabelo tigelinha que, no banco da frente, berrava com o pai querendo um pirulito, nem se surpreendendo com o fato de que estávamos cruzando os ares a 900 quilômetros por hora. Eu sou desse tipo besta de gente que acha avião um espanto. E pra mim é uma constante fonte de espanto, também, o quanto as pessoas conseguem achar tudo normal...

* * * * *

Depois de Auschwitz e Hiroshima, acho um tantinho difícil admirar a raça humana e não desejar ter nascido um esquilo ou um girassol. We have not done well. O engraçado foi sentir dentro do meu coraçãozinho misantropo, quando posto a bordo de um grande avião, um sentimento quase inédito: uma espécie de orgulho pela humanidade e suas façanhas tecno-científicas. Sem essa lindeza que é o progresso da ciência e da tecnologia, apesar disso ter dado também na bomba atômica e na nazi-eugenia, eu não poderia ter atravessado as distâncias para chegar perto da minha amada. Por vezes a razão trabalha em prol do coração! Me entreti um pouco batendo palminhas imaginárias para os homens, que inventaram este deslumbre que é o avião, e fiquei pensando que Zweig podia ter aceito a missão de escrever a bio de Santos Dumont – certamente sairia um livraço, com o talento incrível que possuía ele, Zweig, na descrição dos Momentos Decisivos da Humanidade (um livro que adoro). Se ele não topou, foi porque o Getúlio, na época, pediu de modo indelicado, autoritário, como se o artista fosse pau-mandado das ôtoridades; e aí o autor de Brasil: País do Futuro deu pra trás, já que começava a descobrir que este país não era a lindeza e a maravilha que ele tinha julgado quando aqui aportou, judeu exilado da Europa infestada de nazis, encontrando nesta acolhedora terra tropical o paraíso da miscigenação pacífica e da convivência harmoniosa de todas as raças, cores e credos...

* * * * *

Por mais viril que a gente queira ser, e por mais que nos garantam que não existe meio de transporte mais seguro, um medinho de catástrofe sempre dá. Fomos catequisados na paranóia por Hollywood, por Lost, pelo 11 de Setembro e... pela Lei de Murphy: algo sempre pode dar errado, sempre penso, e muito mais provavelmente no exato lugar onde estou. Tentei me consolar com as boas coisas que decorriam da minha morte num desastre aéreo: minha família faturaria 50 mil pila do seguro, o que certamente seria uma imensa alegria; muitos chorariam no meu funeral, lamentando um destino tão trágico, até mesmo aqueles que nunca me conheceram mas ficaram sensibilizados pela matéria do Fantástico; e podia até mesmo acontecer d'eu sobreviver roliudianamente ao crash: e aí uma Kate Austen, suja de fuligem, roupas aos frangalhos, numa ilha deserta australiana, estaria lá para me suturar os rasgos, oferecer um consolo... ai ai... olha que num é má idéia!

* * * * *

“Não existem ateus a bordo de aviões turbulentos”, diz a Erica Jong, autora do adorável Medo de Voar (livro que tem mais a ver com os vôos e quedas do coração do que com aviões...). É um comentário de uma percepção psicológica magistral: num momento desses (quando estamos numa aeronave que ameaça dar um piripaque), é tamanho o grau de impotência, ignorância e pavor que não resta muita solução, para aqueles que ainda possuem um fiapo de fé, senão apelar pro Papai do Céu. Mas é claro que o fato das pessoas rezarem ardorosamente quando o avião está despencando nada prova sobre a existência de Deus, e muito sugere sobre o quanto a religião é filha do medo, da impotência, da ignorância, da fraqueza, da inelutável proximidade da morte... Reza-se principalmente quando a coisa vai mal. E quando nada podemos fazer por nós mesmos, só nos resta pedir a outros, mais poderosos, que façam por nós – donde a submissão aos deuses, aos pais e aos tiranos, me parece, têm a mesma raiz psicológica.

* * * * *

Outra das coisas que mais me surpreendeu, enquanto olhava fascinado as paisagens cambiantes lá embaixão, foi constatar que apesar de todo o papo sobre super-população no planeta, e a necessidade de controle de natalidade, ainda existem imensos vazios populacionais: por dezenas e dezenas de quilômetros, viaja-se por paisagens perfeitamente habitáveis, mas que não mostram muitos sinais da presença humana além daqueles riscos e rabiscos no terreno que, vistos de perto, chamamos de estradas.

E aí, de repente, meio que "do nada", aparece ali uma cidade humana, com milhares de casinhas e prédios amontoados num pontinho minúsculo da paisagem, e ali se aglomeram 100 mil, 500 mil ou 5 milhões de seres humanos, por vezes rodeados por espaço natural vasto. Questão: por que é que os homens não se espalham mais por aí, ao invés de ficarem todos colados uns nos outros, se cutucando com vara curta? É claro que é porque o homem é necessário ao homem, e nada há de mais valioso para o homem do que o homem, como Spinoza já dizia. Se cada um, sozinho, tivesse que ir atrás dos meios de sua subsistência, a sobrevivência seria de fato muito mais difícil; foi, pois, uma descoberta da espécie: a de que a solidariedade representa uma vantagem evolutiva.

Darwin dizia que os mais fracos perecem e deles só restam fósseis num museu, um verbete numa enciclopédia de história natural, às vezes nem isso. Mas muitas vezes nos esquecemos de que os fracos são fracos pois não se solidarizaram: muitos fracos, solidarizados, fariam uma força. E talvez sobrevivessem.

Pensando bem, homem é um bicho meio tosco: não temos a força física dos ursos ou dos leões; não temos o tamanho imponente dos dinossauros; não temos a velocidade da pantera nem a visão dos linces; nem a capacidade de voar ou nadar que têm tantas milhões de espécies... Se sobrevivemos, e nos tornamos, merecidamente ou não, soberanos no planeta, teve necessariamente que ser pela união de forças - impossível sem a linguagem, impossível sem as cidades.

Mas dizer que o homem é “naturalmente sociável”, o zoon politicon de Aristóteles, não significa que ele não seja egoísta: é sociável justamente pelos torpes motivos egocêntricos, pelo interesse privado. É como na famosa metáfora dos porcos-espinho ao redor da fogueira de Schopenhauer: precisam se aproximar uns dos outros para não passarem frio, e por isso se reúnem perto do fogo; mas se chegarem muito perto, começam a picar-se uns aos outros com seus espinhos, por isso mantêm sempre uma certa distância confortável...

* * * * *
Sobrevooei Brasília pela primeira vez, iluminada por um belo lusco-fusco, e me espantei com o caráter todo geométrico e certinho da capital – nunca tinha visto cidade mais cartesiana. Nas proximidades do aeroporto, com o avião planando baixinho, como se quisesse roçar o topo dos prédios, também deu pra ver alguns quarteirões dos ricaços: incrível a imensa quantidade de casas com piscinas, dos mais variados tipos e formatos, que vê-se do avião como se fossem pequenas pocinhas ou baldinhos... Muitas delas, suspeito, construídas com dinheiro público, regalias decorrentes da corrupção.

Me surpreendeu também notar os imensos vazios populacionais e paisagens naturais intermináveis que circundam a cidade, e que deixam a impressão de que a decisão de ali construir o centro do poder federal teve um pouco de elucubração política satanicamente espertinha: quiseram contruir NO MEIO DO NADA a capital do Brasil, distante das grandes massas, tornando dificílimos os levantes populares, os protestos, as marchas. Imaginem se a capital fosse ainda no Rio de Janeiro, que problemão não seria! Com os 2 milhões de favelados, a guerra civil entre polícia e traficantes nos morros, o imenso caudal de deserdados irados, que não cessariam de tentar atentados contra senadores ou tacar uns ovos no terno engomadinho do presidente, ainda que ele um dia tenha sido um operário...

* * * *

Viajei carregando meu violãozinho, que recentemente sofreu o duro baque de uma fratura exposta. Vinha ainda molhado de verniz, e o luthier me tinha recomendado que o deixasse sossegado num cantinho, mas eu desobedeci. Tinha curtido a sensação de andar por aí com instrumento nas costas; fiquei imaginando que as pessoas me julgariam importante, um músico pegando avião, e que talvez se sentissem quase impelidas a saber mais sobre quem eu era, para verem se valia a pena uma abordagem e um pedido de autógrafo, que depois pudesse ser gabado ou revendido. Claro que tal fantasia megalomaníaca não se concretizou e nenhum fã ensandecido veio tirar uma casquinha do celebérrimo guitarrista da Liga das Senhoras Católicas, que tava dando bobeira em Congonhas, em Brasília, em Goiânia, facinho de interpelar e tietar...

Como Marlon Brando, em The Fugitive Kind, fiz pose de quem vê na sua viola uma companheirona de vida, my life's companion, que é preciso carregar pra cima e pra baixo como um filho dileto, que me segue como uma sombra, formada pelo sol escaldante do rock and roll... E lembrei-me da fábula que Snakeskin, no filme do Lumet, conta sobre o bluebird, o pássaro azulado que não tem pernas, e que, dado sua impossibilidade de pousar, passa a vida inteirinha voando... Sempre achei lindamente poética e hippie a idéia desta ave que vive nas alturas, que dorme no vento, que quando se cansa e precisa dormir continua planando com as brisas, e cujo único pouso é o despencamento da morte...

* * * * *

E em vários momentos da viagem, dada minha falta de iPOD ou MP3, ia cantarolando mentalmente algumas de minhas músicas prediletas - principalmente o clássico do Marvin Gaye: "there ain't no mountain high enough / there ain't no valley low enough / there ain't no river wide enough / to keep me from gettin' to you, babe!". E ia pensando, feliz, que não este era somente um soul fodástico, ainda que piegas, cuja melodia e entusiasmo sempre tinham me enganchado, mas uma canção que eu estava encarnando, que tinha se tornado minha própria vida, cujas palavras eu poderia dizer sem tirar nem pôr. E é um privilégio vivermos o que expressa uma linda canção.

Me lembrei do memorável dia em que você perdeu o avião pra Goiânia. Nós, correndo por Cumbina como loucos, pensando que a mesma lógica regia os busões e os aviões, e que essa coisa de check-in antecipado era uma bobagem, e em caso de atraso bastava dar um berrão pro motorista, "peraê, porra, que eu quero subir!" Foi neste dia que você me deu Tânia Catherina, a leoa russa que sabia até dançar Tchaikovsky (“O Lago dos Cisnes”, no primeiro “showzito” que o bichano me exibiu, numa mesa do Viena, um charme!). Num é pra qualquer um. Conheço dos que possuem leões e leoas, sem serem donos de simba safári, mas nenhum que, como eu, tenha um desses magnos felinos capazes de pogar ao som de “Pet Cemetery”, dos Ramones, cuja letra soa especialmente conveniente para ser berrada por um animal: “i don't wanna be buried in a pet cemetery!”

E estavámos ali como crianças, tão absorvidas na brincadeira que esquecem-se que os adultos criaram relógios e despertadores, calendários e cronogramas, horários e rigores, pontualidades e cronômetros! Deslizamos afora do tempo que para nós programaram, o tempo culturalmente inculcado, e que nos tranca em sua jaula, quando temos vocação para algo maior: a eternidade. E falo, não de imortalidade, nem de vitória sobre a morte, nem de viver para sempre. Falo da eternidade como a verdadeira experiência concreta do tempo: pousar no absoluto presente, e notar que ele é eterno. E eternamente renovável, sempre rebrilhando de novo, já que a eternidade não exclue a mudança nem a “eterna novidade do mundo” de que nos fala Pessoa. Ali, perdemos todas as preocupações - e há sensação mais doce, enquanto dura? O deleite era tão absorvente que literalmente perdemos a noção da hora. Há nisso estupidez, de quem tropeça nas pedras que os homens práticos tão fácil evitam e pulam, ou há a sabedoria de quem sabe escapar da jaula e viver na terra alguns pequenos êxtases?

E se um dia nos perguntarem de que tipo era o nosso amor, podemos dizer: “desses que nos faz perder o avião”...



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

:: presidiários da ternura ::


"Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não aguentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: “Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira”; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais neglicencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o 'pensamento' do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura, e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre.” --- PAULO MENDES CAMPOS

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

:: one more silly love song! :D ::


"Some people wanna fill the world
With silly love songs.
What's wrong with that?
I'd like to know!

Cause here I go again..."


PAUL MCCARTNEY


Não deixar o dia partir inutilmente. Amar como se não houvesse amanhã, pois na verdade não há. Lembrar-se que desta vida não sairemos vivos. E que a vida só se dá pra quem se deu. Que o Sol vá se pôr de noite, não é razão para não curti-lo de dia - e isso, é claro, também vale para a vida e para a morte. Somos velas que a brisa do nada um dia virá apagar, mas devemos queimar intensa e incansavelmente enquanto der. Pra descansar temos a eternidade. No fear, no distractions, the ability to let all that doesn't really matter truly slide.

Tão aí algumas de minhas “pérolas” de sabedoria prediletas, que mais me iluminam os dias, e que largo aí, pelo caminho, sem outro porquê além deste: sentir que presas dentro de mim não servem para tanto quanto se estiverem aí fora, disponíveis, compartilhadas...

* * * * *

Spinoza fala, do amor, que é uma alegria que surge acompanhada da idéia de sua causa. Em outras palavras: amo aquele que reconheço como causa de minha alegria. Não é que amemos todos aqueles que nos causam alegria: há os palhaços e os piadistas que nos divertem, mas que nem por isso conquistam nosso afeto; e há os contentes que são ingratos, e contentam-se sem agradecer à fonte deste contentamento de que gozam.

Quando a fonte de nosso bem é uma outra existência, que nos é causa de alívio, doçura e alegria, e quando reconhecemos contentes a benfeitoria que nos é feita por outra criatura, isso é o que chamamos de amor. De qualquer modo, se enlaçam nesta belíssima idéia, cheia de doce sabedoria, os dedos do amor e da alegria, da gratidão e do contentamento - o que já é um avanço vastíssimo em comparação com outras concepções do amor bastante catastrofistas. Cada vez mais, sou muito mais Spinoza que Werther!

Por que não partir daí, desse tijolinho adorável e tão sólido, para construir o edifício da filosofia, o edifício da vida? Sou mais a alegria que o cogito, tio Dêcartê que me perdoe! E a alegria não tem nada de “fenômeno idealista”, "ilusão ideológica" ou "superstição religiosa", vocês hão de convir: qualquer criança nos prova sua existência, não necessitando nós, pois, de filósofos ou cientistas que nos provem que existe a alegria. Acho até que o melhor argumento contra os Schopenhauers e Mallarmés da vida, com suas sombrias teorias e poesias, continua sendo uma careta, uma cabriola, um beijo na boca... (Mas não na deles, cruz credo!)

Alegria há.

Quanto à “felicidade”, há controvérsias; talvez seja ela só um sonho que tivemos? um construto imaginário? um pretexto de marketing? um conto-de-fada para os pseudo-“amadurecidos”? Sobre ela pode-se discutir, se existe ou foi inventada, se deve-se persegui-la ou desencanar... mas sobre a existência, ainda que eventual, ainda que doloridamente efêmera, das alegrias, não há louco que negue.

Até os deprimidos reconhecem: alegria existe, e se estamos doentes é por não podermos nos nutrir dela! Quase todo mundo sabe, ainda que intuitivamente, que falta de alegria pode deixar um ser humano doente. Me surpreende, por exemplo, o fato da Psicanálise não usar quase nunca este vocabulário, o do “alegre” e do “triste”, como se considerasse isso uma pueril polarização, digna da infância teórica da humanidade, já aniquilada pelas dinâmicas tão mais complexas e dialéticas do id, do ego e do super-ego, e já superada após os combates homéricos entre os conceitos de Natureza e a Civilização, Eros e Tânatos!

Esquecem-se de deixar registrada essa banalidade, que fica implícita em quase todas as descrições de caso de psicopatologia: as pessoas ficam doentes por falta de alegria! Sei que sou um psicológo tosquérrimo, mas meu diagnóstico das neuroses com que me deparo é quase sempre o mesmo: as pessoas adoecem por não conseguirem gozar a vida, porque não acham meios para satisfazer suas libidos, porque as alegrias ficam soterradas debaixo de repressões, de culpas, de medos... Me arriscaria até a sugerir isto, misturando Reich com Spinoza: só há saúde na alegria; e só há felicidade no amor.

A queda da alegria, sendo queda da nossa potência de existir, já é uma espécie de doença que nos acomete. “Nunca” conseguir ascender às nuvens da alegria, como nos casos mais graves de melancolia crônica, de deprê absoluta, é uma situação extraordinariamente adoecente. Por isso a depressão é uma doença, e que está sempre a rondar, como um defunto insepulto, os pesadelos dos tristes. Nós odiamos a tristeza pois ela nos adoece, ainda que não chamemos seu efeito, costumeiramente, pelo devido nome. É chaga, ferida, atentado contra a vida!

Não digo que não possamos aprender nada das lágrimas! Pelo contrário: são professoras que respeito, e mais que muitas outras, nesta insana escola da vida (que é tão avara das soluções de seus enigmas!). Muita crosta sobre os olhos, barrando a vista das retinas, desfaz-se liquidada pelo líquido dos tristes. Talvez toque-se mais de perto na pele quente da vida, quando se chora: pele que pulsa, pele que treme.

“Os dias que me vejo só são dias que me encontro mais”, canta o Amarante, ecoando muitos sábios e místicos orientais que rimavam solidão com auto-conhecimento... Creio, sim, que isso seja possível: um “isolamento” que seja “frutífero”, que seja uma jornada de introspecção realizada com ousadia e aventurosidade, que seja amadurecimento e treinamento antes das grandes batalhas... Como Zaratustra na montanha, Cristo no deserto, Buda debaixo da árvore, Gramsci no cativeiro, e Leary e Kesey na floresta do ácido...

(Cê vê que BATEU quando o nêgo, que vinha falando de Spinoza, todo chicoso, descamba pra falar sobre a “floresta do ácido”... ----- WHAT-DA-FUCK?!)

A alegria existe. E existem seres humanos capazes de nos alegrarem. E somos (alguns de nós, ao menos) capazes de reconhecer fora de nós a fonte deste bem. Portanto, o amor existe, se o fizermos existir, e o fato disso ser simples e trivial não faz com que seja menos verdadeiro. O amor é um vôo possível; nada o impossibilita, de modo absoluto; todas as pedras, obstáculos e muros, todos os nossos egoísmos, couraças, neuroses e automatismos, são contrários a ele - mas nada disso é intransponível. Ao contrário! Como canta Eddie Vedder, numa das músicas do Pearl Jam de letra mais sábia dentre todas por eles já compostas, “once you hold the hand of love it's all surmountable” (“Love Boat Captain”).

* * * *

Sim, e toda essa abstração seria lixo se eu me esquecesse do mais importante, do mais valioso, do mais precioso de tudo: que não é o “amor”, se com isso penso num conceito, mas sim a pessoa que nos abre a porta para que reine esta realidade. O amor é um enigma que só pode ser solucionado a dois. Por isso sempre desconfio do que dizem sobre o amor (isso quando dizem algo...), os grandes filósofos solitários, os zaratustras e eremitas do espírito! Se alguém lhes disser que apreendeu a “essência do amor” estudando sozinho em seu escritório, ou lendo solitário pelas madrugadas, desconfiem que é lorota. Descobrir a essência do amor na solidão é tão absurdo quanto achar Marte indo na direção do Sol...

Procurar a felicidade na solidão é como tatear no escuro por uma chave que nem está no quarto. Se há felicidade, só pode existir como felicidade compartilhada. É o grande “lema” que se marcou em mim do Na Natureza Selvagem, filminho que mon petit pauvre coeur sentiu como tão inspirador e revigorante: “HAPPINESS IS ONLY TRUE WHEN SHARED.” É aí que os dois grandes mistérios mostram-se conexos e inseparáveis: o amor e a felicidade. Como viver um sem o outro? Como ascender às sonhadas nuvens da felicidade se não for pelas asas do amor? Que outra escada, meus caros? Que outra escada?!

O dinheiro? O poder? A fama? O pensamento? A criação? Mas tudo que um ser humano pode fazer só é capaz de adquirir valor numa esfera humana. Só é possível valer em outro coração. O amor é a única fonte de valor em todo o Universo.

A Monalisa não vale nada para os macacos, e os cachorros mijariam sem pudor por toda a Capela Sistina. Toquem a Nova Sinfonia para um gato, e ele fará cara de quem não liga a mínima pr'esse tal de Beethoven. O planeta Terra jamais aplaudiu e ovacionou qualquer das civilizações que surgiram sobre o seu lombo, nem jamais derrubou lágrima ou suspiro de alívio ao ver um grande Império cair em ruínas ou uma grande revolução pondo do avesso um regime ultrapassado. E leiam vocês para os céus as poesias belíssimas que já escreveram os humanos sobre o pôr-do-Sol e as estrelas, e verão que nada perturba o infinito silêncio das esferas...

O único sentido da vida, o único remédio contra a mais absoluta absurdidade, está no amor que nutrimos e que nos nutre pelos outros precários vivos com quem viajamos juntos neste louco, louco palco rodopiante!...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

:: blasfêmias de um filósofo mirim ::


AMAR A DEUS É QUE DEVERIA SER PECADO
- Pensamentinhos sobre a vida depois de Deus... -

“...o convívio aprimora e eleva; espontaneamente, sem dissimulação, o homem torna-se outro no convívio, muito diverso do que é só para si. O amor faz milagres, principalmente o amor sexual. Homem e mulher se completam mutuamente e assim se une o gênero humano para representar o homem perfeito. (...) No amor o homem expressa a insuficiência da sua individualidade, postula a existência do outro como uma necessidade do coração, inclui o outro na sua própria essência, só declara a sua vida unida ao outro pelo amor como uma vida verdadeiramente humana... Defeituoso, incompleto, débil, carente é o indivíduo; mas forte, perfeito, satisfeito, sem carência, auto-suficiente, infinito é o amor... Como o amor, atua também a amizade, pelo menos quando é verdadeira e sincera, quando é religião, como o era dentre os antigos. Os amigos se completam; a amizade é uma ponte para a virtude..." --- FEUERBACH, A Essência do Cristianismo

Não sou destes que vê como uma catástrofe sombria e terrível a "morte de Deus". É bom que Deus morra num coração que antes o abraçou - decerto dói, como dói perder qualquer paixão, mas está aí uma pré-condição para se chegar à libertação que torna possível um amor maior (pois real).

O amor a Deus é uma forma tosca e doentia de amor: ama-se, na carência e no medo, no tremor e no temor, um mero construto imaginário. É um legítimo amor platônico: ama-se não a um ser objetivo, lá fora, pulsante e vivo, mas uma idéia que forja a fantasia de um ser pobre e angustiado...

Amar a Deus é triste pois Ele jamais corresponde. Ele jamais responde, jamais dialoga, jamais beija ou abraça, jamais oferece um carinho ou um ninho... Digamos com simplicidade: amar a Deus é triste pois Deus não existe. Ah, amiguinhos, não sabem vocês o quanto é mais gostoso amar o que existe?

Pois de Deus não sinto mais a menor falta. Sinto como se meu trabalho de luto estivesse consumado. Sinto-me liberto de correntes que me prendiam, de cataratas que me cegavam... E se perder Deus for o mesmo que deixar de ser servo e escravo? E se for a mais frutífera das audácias da lucidez, isso de derrubá-Lo? E se a vida, quando O tiramos do caminho, fica mais bela e mais sábia?

É entre os frutos da terra que vou buscar o que me sacie. Das nuvens, até hoje, só vi caírem raios e tempestades - e os rainhos de Sol e borboletas pra mim não tem pra nada de "presente divino"... Nenhum bem jamais me foi feito pelas regiões etéreas. A mim parece que tudo não passa de ar, que impassivelmente existe, indiferente a mim e a tudo. E sou desses que não se ajoelha (que hábito mais anti-higiênico!) e que nada pede dos céus. Sou desses que jamais (JAMAIS!) reza. Por maior que seja a angústia, por mais intenso que seja o medo, por mais perdido que eu me sinta, jamais faço uma prece. Nunca bato na porta de um Deus que sei que não me responderia. Não tenho mais nem a mínima esperança de ver meu apelo respondido. Então nem apelo.

Procuro buscar consolo nas coisas que existem, o que creio que me torna, por incrível que pareça, uma pessoa bem original e diferente. Porque, me parece, a essência do que chamamos “normalidade” é procurar consolo no inexistente. E toda fantasia é uma espécie de fuga. Todo salto para o ideal tem algo de anátema e de vômito que se lança à face inocente do real. Sonhar com o melhor, muitas vezes, significa condenar e amaldiçoar o que existe. Sem dúvida: há coisas que existem e são abomináveis, e não são poucas, e certamente convêm desejar substituí-las por coisas melhores! Os exemplos são velhos, não é segredo pra ninguém: a fome, a guerra, a humilhação, a opressão, o genocídio, o fascismo, a ditadura... Mas buscar consolo para os males reais no inexistente, no ópio da fantasia, no entorpecimento do ideal, é justamente o que impede uma luta concreta, ousada e efetiva contra os males da terra!

Abandonar Deus, pois, ao contrário do que pensam alguns beatos angustiados, apavorados e doloridos, não significa de modo algum abandonar a felicidade e a luta; trata-se, muito mais, de abandonar a cegueira, a ilusão, a superstição, a escravidão mental e corporal, a indignidade que é viver a crer em contos-de-fada! Abrindo-se, depois dos delírios, a uma vida real que carrega em si o amor como possibilidade, e uma a ser agarrada com a fé de que é o que mais vale sobre esta Terra por Deus abandonada.

* * * * *

“...no cristianismo foi o amor maculado pela fé, não foi concebido livre, verdadeiramente. Um amor limitado pela fé é um amor ilegítimo. O amor não conhece outra lei a não ser a si mesmo; ele é divino por si mesmo; ele não necessita da sacralidade da fé; ele só pode ser fundamentado por si mesmo. O amor atado à fé é um amor estreito, falso, contraditório no conceito do amor, i.é, a si mesmo; um amor pseudo-sagrado, pois ele oculta em si o ódio da fé; ele só é bom enquanto a fé não for atingida.” (...) “...o amor só é idêntico à razão, mas não à fé; pois como a razão, é o amor de natureza mais livre, mais universal, mas a fé de natureza mais estreita, mais limitada. Somente onde existe a razão impera o amor geral; a razão não é ela mesma nada mais que o amor universal. Foi a fé que descobriu o inferno, não o amor, não a razão. Para o amor é o inferno um horror, para a razão um absurdo.” (...)“O amor ao ser humano não pode ser derivado, ele deve ser primitivo. Só então torna-se o amor um poder verdadeiro, sagrado, seguro. Se a essência do homem é a mais elevada essência do homem, então também praticamente deve ser a mais elevada e primeira lei o amor do homem pelo homem.” --- FEUERBACH, A Essência do Cristianismo

Não gosto dos que, depois de terem inventado Deus, inventaram a lorota subsequente de que o amor teria sido uma invenção Dele! A religião, esta invenção humana que postula que ela mesma não foi inventada pela humanidade, mas nos foi dada como graça e dádiva divinas, quer conspurcar com seus dedinhos também ele, o amor, que é tão óbvia e explicitamente um FRUTO DA CARNE! Não aceito nem acredito que Deus tenha inventado o amor. Isso simplesmente pois Deus não inventou nada! Direi uma bobagem: o inventor, para inventar, precisa primeiro existir. E essa primeira coisa, bem... nem ela Deus conseguiu fazer. Pobrezinho!
Estaríamos passando por menos sufocos, padecendo de menores martírios, se essa missão Ele tivesse cumprido? Decerto que sim, e nem o ateu convicto que sou teimaria em negá-lo. Sim, estaríamos passando muito melhor se Deus existisse, tenho certeza! Mas choraremos eternamente o luto daquilo que nunca viveu? Ou trataremos de tentar agir como Ele agiria se existisse, ou seja, amorosamente?

O amor é uma demanda por um bem real, enquanto que a religião é uma súplica sempre vã por bens imaginários e inexistentes (implorar por uma alma imortal é um ótimo exemplo do que significa desejar o impossível). O amor que se pede a outra criatura, pode-se recebê-lo; mas de Deus tudo que nos chega são silêncios e indiferenças, adiamentos e vagas promessas (que nos faz não Ele, o Eternamente Silente, mas os seus supostos "porta-vozes na Terra". O amor, sendo um fruto da terra, sendo um filho do coração, sendo uma flor do jardim terrestre, pode perfumar os ares e alegrar os campos; mas Deus, sempre tão longínquo e escondente, permanece o interlocutor de uma súplica nunca respondida, como um gênio da lâmpada que se recusa a realizar desejos, por mais que milhões de sedentos aladins lhe implorem...

É bom amar pois o amor pode nos curar, e nos cura, de fato, quando vem; já Deus é um remédio falso que não impede as chagas de prosseguirem sangrando, não impede a inquietude e o medo de continuarem nos atormentando, não impede a tortura da esperança e os pavores do inferno de nos assombrarem o sono! Amar é melhor pois o amor é real, enquanto que Deus não passa de névoa, fantasma e alucinação.

O amor, pois, nada tem a ver com Deus, e amar a Deus não é amar: é dirigir libido prum construto imaginário da fantasia desejante. E convenhamos: dirigir “amor” para uma criatura de fábula e de conto-de-fada é um despedício pecaminoso da energia que poderia ser depositada – e fazendo tamanhos bens! – nos corações das outras criaturas humanas.

Amar a Deus é que deveria ser pecado!

Pois amar a Deus é um crime, se aquele que O faz esquece-se de amar as criaturas humanas e fica preso no seu solipsismozinho delirante. Ficar disparando amor para as nuvens não difere muito de tacar amor na privada e dar descarga. Amor é pra gente distribuir aqui na Terra, onde dele mais se necessita! Deus, se existir, já possui o suficiente. Se não existir, o que é decerto o mais provável, então não deveríamos sacrificar nosso melhor em nome de nada.

A morte de Deus, pois, não é a morte do amor. Pois Deus jamais amou ninguém. E Deus não é o inventor nem a condição do amor. São engraçados, estes religiosos que pretendem deter o "monopólio do coração", como se soubessem amar melhor que os ateus, quando vencem unicamente no quesito "delírio & fantasiação"! Ora: superar a paixão platônica por Deus, que nos encerra num delirante e cego mundo de fantasmas, é condição para que emerja o amor real, o amor entre humanos: duas solidões que se tocam, que trocam, que se alegram e se iluminam...

:: Grande Ludwig! ::

Tio Ludwig Feuerbach, filósofo materialista que o grande Marx leu vorazmente, e autor do lindíssimo "A Essência do Cristianismo", um dos grandes livros de demolição das ilusões religiosas já escritos! Recomendo entusiasticamente.


“...a natureza da fé como tal é em toda parte a mesma. Essencialmente a fé condena, dana. Toda benção, tudo que é bom ela amontoa sobre si, sobre o seu Deus, como o amado sobre a sua amada; toda maldição, toda desgraça e mal lança ela à descrença. Abençoado, querido de Deus, participante da eterna felicidade é o crente; amaldiçoado, expulso de Deus e repudiado pelo homem é o descrente, pois o que Deus repudia o homem não pode aceitar, não pode poupar; isso seria uma crítica ao juízo divino. Os maometanos aniquilam os descrentes com fogo e espada; os cristãos com a chama do inferno. Mas as chamas do além já penetram no aquém para iluminar a noite do mundo descrente. Como o crente já antegoza aqui embaixo as alegrias do céu, então já devem também aqui, para antegosto do inferno, arder as chamas do atoleiro infernal, pelo menos nos momentos do mais alto entusiasmo da fé. O cristianismo não ordena de fato nenhuma perseguição a hereges, nem mesmo a conversão à força de armas. Mas enquanto a fé condena, produz ela necessariamente disposições inamistosas, disposições das quais surge a perseguição a hereges. Amar ao homem que não ama a Cristo é um pecado contra Cristo, significa amar o inimigo de Cristo. Aquilo que Deus, que Cristo não ama o homem não pode amar; seu amor seria uma contradição com a vontade divina, portanto, pecado. Deus ama na verdade todos os homens, mas somente se e porque são cristãos ou pelo menos podem ou querem sê-lo. Ser cristão significa ser amado por Deus, não ser cristão odiado por Deus... O cristão só pode então amar o cristão, o outro somente como cristão potencial; ele só pode amar o que a fé consagra, abençoa. A fé é o batismo do amor. (...) O princípio 'amai vossos inimigos' só se relaciona com inimigos pessoais, mas não com inimigos públicos, os inimigos de Deus, os inimigos da fé, os descrentes. (...) A fé anula a união natural da humanidade...”

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“A fé é um fogo devorador implacável para o seu oposto. (...) As chamas do inferno são apenas as centelhas do olhar aniquilador e furioso que a fé lança sobre os descrentes.”

* * * **

“A fé amaldiçoa: todas as ações, todas as intenções que contradizem o amor, a humanidade, a razão, correspondem à fé. Todas as crueldades da história da religião cristã, das quais os nossos crentes dizem que elas não vieram do cristianismo, são oriundas do cristianismo, porque são oriundas da fé.”

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“A fé se transforma necessariamente em ódio, o ódio em perseguição, quando o poder da fé não encontra nenhum obstáculo, não se choca com um poder estranho à fé, o poder do amor, do humanitarismo, do sentimento de justiça. A fé em si mesma eleva-se necessariamente acima das leis da moral natural.”

* * * * *

“A Bíblia condena através da fé, perdoa através do amor. Mas ela só conhece o amor fundado na fé. Portanto, já também aqui um amor que amaldiçoa, um amor incerto, um amor que não me dá nenhuma garantia de que ele não vai se afirmar como desamor; pois se eu não reconheço os artigos de fé, então já saí fora do campo e do reino do amor, sou um objeto da maldição, do inferno, da ira de Deus, para a qual a existência dos descrentes é um escândalo, um espinho no olho. O amor cristão não superou o inferno porque não superou a fé. O amor é em si descrente, mas a fé é sem amor. Mas o amor é descrente porque ele não conhece nada mais divino do que a si mesmo, porque ele só crê em si mesmo como a verdade absoluta.”

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Jacques Derrida - Fear of Writing

:: Derrida! Um tijolão acadêmico... ::

A CONVIVÊNCIA COM OS FANTASMAS
- Jacques Derrida e alguns de seus espectros -


Nota: adotamos certas abreviaturas sobre as obras de Derrida para facilitar as citações das obras utilizadas, a saber: F.d.L. para “Força de Lei”; E.d.M. para “Espectros de Marx”; F.e.S. para “Força e Significação”; Ps para Posições; Im para “Implicações (Entrevista A Henri Ronse)”. Referências bibliográficas completas no fim do trabalho.


INTRODUÇÃO: A CONVIVÊNCIA COM OS FANTASMAS

“Derrida praticamente não teve equivalente (...) para forjar o espírito de toda uma geração”, escreveu Jurgen Habermas, pouco depois da morte do filósofo francês em 2004, em texto publicado no Brasil pelo caderno MAIS! da Folha de São Paulo”. “Sob seu olhar inflexível, todo contexto se desfaz em fragmentos; o solo que acreditávamos estável se torna movediço, o que supúnhamos completo revela seu fundo duplo. (...) O mundo em que acreditávamos estar em casa se torna inabitável. Não somos deste mundo: nele somos estrangeiros entre estrangeiros”. Tais palavras, provindas de um filósofo que combateu e criticou Derrida, mas que soube reconhecer seu impacto incalculável, dão uma boa noção inicial da “aventura” que é mergulhar nesta obra.

Jacques Derrida, o “pai da desconstrução”, é um pensador de imensurável importância na cena filosófica do século 20. Estabeleceu diálogos complexos e multifacetados com uma miríade de outros pensadores/correntes intelectuais, sempre reconhecendo-se herdeiro de suas leituras (“ser é herdar”), fiel aos “fantasmas” com quem soube tão bem conviver, mas assumindo-se sempre um explorador de novos horizontes. “Prefiram sempre a vida e afirmem sem cessar a sobrevida” - foram suas últimas palavras, no leito de morte, a seus parentes, e um dito que ficaria bem se escrito num portal que desse acesso à sua obra.

Em seu trabalho, Derrida “conversa”, entre outros, com a linguística de Saussure, a fenomenologia de Husserl, a antropologia de Lévi-Strauss, todos seus contemporâneos englobados sob o rótulo de “estruturalistas” e toda a tradição marxista e freudiana (e também com suas correntes e galhos: como Althusser e Lacan), além de estar sempre remetendo às idéias de Heidegger, Nietzsche, Lévinas... Como poucos, ele soube assumir a responsabilidade pela obra de todos esses “fantasmas” da tradição e da herança cultural, como apontou tão belamente no exórdio de Espectros de Marx: “...nenhuma ética, nenhuma política, revolucionária ou não, parece possível, pensável e justa sem reconhecer em seu princípio o respeito por estes outros que não estão mais ou por esses outros que não estão aí, presentemente vivos, quer já estejam mortos, quer ainda não tenham nascido.” (E.d.M., pg 11).

Por isso, uma das dificuldades em compreender plenamente seus escritos, inúmeras vezes acusados de serem herméticos, excessivamente complexos ou de “estilo” demasiado caótico, encontra-se nesta múltipla “conversa” que ele orquestra com tantos textos. O próprio Foucault, num momento altamente espirituoso, acusou-o de praticar uma escrita que apelidou de “obscurantismo terrorista”: “Derrida escreve de maneira tão obscura que você não pode definir sobre o que ele está falando, esta é a parte obscurantista; e quando você o critica, ele sempre pode dizer: 'Você não entendeu nada, você é um idiota. Esta é a parte terrorista.” (como citado por SEARLE, John).

Mas o caráter intrincado e muitas vezes “caótico” dos escritos derridianos torna-se menos assustador, é claro, se o leitor souber o que disseram e pensaram os interlocutores aos quais Derrida se endereça. Conhecer as obras e pensamentos com os quais ele está constantemente dialogando e remetendo é essencial para uma compreensão mais ampla do que ele escreveu. Além, é claro, da necessidade de se familiarizar com todo o “ambiente intelectual” onde ele desenvolveu seu trabalho, marcado por inúmeras tendências e heranças (o existencialismo, o estruturalismo, o marxismo etc.). Para melhor assimilá-lo, pois, como o próprio recomenda, “é preciso, sobretudo, ler e reler aqueles autores nos rastros dos quais eu escrevo, aqueles 'livros' em cujas margens e entrelinhas eu desenho e decifro um texto que é, ao mesmo tempo, muito semelhante e completamente outro” (Ps, pg. 10).

No fundo, a crítica mais direta empreendida por Derrida é à “metafísica ocidental”, vista como logocêntrica, etnocêntrica, baseada na linguagem fonética, e o idealismo que lhe é inerente. Como explica Haddock-Lobo, o que a desconstrução de fato “almeja mesmo é efetuar um deslocamento das oposições para além da dicotomia da metafísica dualista” (HADDOCK-LOBO, “O que nos faz pensar” #21, junho de 2007).

Para atingir este efeito (entre outros) é que a desconstrução trabalha. Romper com as polaridades/dicotomias da metafísica dualista significa “reconhecer que, em uma oposição filosófica clássica, nós não estamos lidando com uma coexistência pacífica de um face a face, mas com uma hierarquia violenta. Um dos dois termos (axiologicamente, logicamente etc.), ocupa o lugar mais alto. Desconstruir a oposição significa, primeiramente, em um momento dado, inverter a hierarquia”. (Ps, pg. 48).

Mas à esta “primeira fase”, a inversão, deve-se somar o processo de deslocamento, sendo que o procedimento desconstrutivo seria definido por este duplo gesto. Por um lado, realiza-se uma “inversão que coloca na posição inferior aquilo que estava na posição superior, que desconstrói a genealogia sublimante ou idealizante da oposição em questão”; e, de outro, procura-se “a emergência repentina de um 'novo conceito', um conceito que não se deixa mais – que nunca se deixou – compreender no regime anterior” (Ps, pg. 49). Em outros termos, como explica Haddock-Lobo,

“...o filósofo esforça-se para se manter no limite do discurso filosófico, o que somente é possível através do duplo gesto que comporta os dois momentos da atividade desconstrutiva, a saber, a inversão e o deslocamento. Na inversão, tudo aquilo que foi recalcado, reprimido, abafado ou marginalizado pela filosofia é enfatizado e, deste modo, dá-se em um primeiro momento um olhar especial à escrita, ao significante, à mulher, à loucura etc., em detrimento de tudo que foi defendido pela tradição filosófica: a fala, o falo, a razão, o significado e assim por diante. No entanto, o que a desconstrução almeja mesmo é efetuar um deslocamento das oposições para além da dicotomia da metafísica dualista. Assim, se há antes uma certa 'aposta' no feminino, na escritura ou em qualquer um dos pólos esmagados pela tradição, isso se dá em razão deste pólo ser justamente a possibilidade de se romper com a própria polaridade.” (HADDOCK-LOBO, “O que nos faz pensar”, n21, junho de 2007).

Neste trabalho, procuraremos centrar foco numa certa tentativa sucinta de descrever e localizar algumas das posturas de Derrida frente a algumas questões “políticas”, em especial o modo como ele assume a herança marxista, sua concepção de História e suas meditações sobre Justiça e Direito, demonstrando por estas vias de que maneira a desconstrução representa uma veemente campanha de ataque ao idealismo.

Poderíamos dizer, pois, que Derrida, paralelamente à demolição que realiza da noção de uma História do Sentido, empreende uma “crítica do idealismo”? Ele mesmo aquiesce: “o que eu tentei pode também ser inscrito sob o rótulo da 'crítica ao idealismo'. Não é preciso, pois, dizer que nada, no materialismo dialético, ao menos na medida em que ele opera esta crítica, suscita de minha parte a mínima reticência...” (Ps, pg. 70).


CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA ANTI-IDEALISTA

Derrida insiste para que nos ponhamos em guarda, para que sejamos céticos e desconfiados, em relação a um conceito da História vista como “história do sentido”, mostrando-se neste quesito radicalmente anti-hegeliano. Em Posições, deixa claro que “se deve desconfiar do conceito metafísico de história”, ou seja, “do conceito de história como história do sentido se produzindo, se desenvolvendo, se realizando.” (Ps, pg. 64):

“Será preciso lembrar que foi precisamente contra a autoridade do sentido – do sentido como significado transcendental ou como telos, em outras palavras, da história determinada, em última instância, como história do sentido, história em sua representação logocêntrica, metafísica, idealista (...) que tentei sistematizar, desde os primeiros textos que publiquei, a crítica desconstrutiva?” (...) “Não apenas nunca acreditei na autonomia absoluta de uma história considerada como história da filosofia, no sentido do hegelianismo convencional, mas tentei regularmente recolocar a filosofia em cena, em uma cena que ela não governa...” (Ps, pg. 56-57)

Vivendo em tempos em que não era incomum que se profetizasse o “apocalipse” em termos como “fim da história”, “fim da filosofia”, “fim do marxismo”, Derrida recusou-se a aceitar este ponto final. Para dar uma panorâmica deste “zeitgeist”, citemos Blanchot, que Derrida discute em Espectros de Marx:

“Ao nosso tempo filosófico pertenceria essa morte da filosofia. Ela não data de 1917, nem mesmo de 1857, ano em que Marx, numa façanha de forasteiro, teria operado a volta sobre si do sistema. Há um século e meio, em seu nome como em nome de Hegel, de Nietzsche, de Heidegger, é a filosofia mesma que afirma ou realiza seu próprio fim, quer o entenda como realização do saber absoluto, sua supressão teórica relacionada à sua realização prática, o movimento niilista onde submergem os valores, enfim pelo fim da metafísica, sinal precursor de uma possibilidade outra, que ainda não tem nome. Eis aí o crepúsculo que acompanha daí em diante cada pensador, estranho momento fúnebre que o espírito filosófico celebra numa exaltação, de mais, muitas vezes alegre, conduzindo seu lento funeral, durante o qual ele conta realmente, de um modo ou de outro, obter sua ressurreição...” (BLANCHOT, como citado em Espectros de Marx, pg. 56).

Derrida jamais assinou embaixo de uma noção qualquer que conduzisse à qualquer tipo de “consumação” que faria parar a carruagem dos tempos, ou seja, sua concepção de História não possuía nenhum tipo de idealismo/niilismo/escolho metafísico que pudesse abrir espaço para que estourasse no filme do mundo um glorioso ou apocalíptico “THE END”. Como ele apontou em entrevista à Henri Ronse: “Tento me manter no limite do discurso filosófico. Digo 'limite' e não 'morte', porque não creio, de forma alguma, naquilo que se chama, hoje, facilmente, de 'morte da filosofia'...” (Im, pg. 12).

Esta concepção de uma história “sem fim” também se aplica à “caminhada do conhecimento”, à “saga do saber”. Poderíamos perguntar, por exemplo: atingiremos um dia um Livro Final, que contenha em si todas as Verdades Eternas, depois do qual nenhum outro livro precisará ser escrito, já que neste Livro Supremo estarão todas as sabedorias, todas as verdades, todas as soluções para todos os mistérios? Será que todas as obras de escritura, como sugere Mallarmé, representam um “imenso concurso pelo texto verídico, entre as épocas ditas civilizadas ou letradas” (F.e.S., pg23), e um dia este “concurso” atingiriá uma gloriosa consumação? A estas questões podemos supor com razoável grau de certeza que Derrida responderia com um convicto “não!”

Que os religiosos acreditem nisto – que a Bíblia Sagrada, por exemplo, “esgota” a Verdade, diz toda a Verdade, não deixa espaço algum para uma adição de verdades ou a revelação de novas verdades, não impede que Derrida pense que este Livro Absoluto não existe, nunca existiu, nem nunca existirá. “É a ausência do Livro que deste modo deploramos”, diz Derrida, e é como se chorássemos por esta “ausência da escritura divina”, por este Deus que jamais nos empresta sua pena, por ficar sempre no formidável silêncio de que são capazes somente as coisas que não existem. É esta “certeza perdida”, esta “ausência da escritura divina”, o que “comanda toda a estética e crítica modernas” (F.e.S., pg. 23).

Isso nos condena a ler-e-escrever sem antes conhecer as verdades; ler-e-escrever na batalha para descobrir-las; ler-e-escrever numa certa escuridão e num certo tateamento, como crianças que vão entrando, ao mesmo tempo curiosas e temerosas, num quarto sem luz; escrever, de certo modo, como sonâmbulos, e destes que nem mesmo conseguem estar certos de que não despencarão em abismos.

Como dizia Merleau-Ponty, “No escritor o pensamento não dirige a linguagem do lado de fora: o escrito é ele próprio como um novo idioma que se constrói...”. Ou, em outro momento: “As minhas palavras surpreendem-me a mim próprio e me ensinam o meu pensamento.” (MERLEAU-PONTY).

Por isso, comenta Derrida, o ato de escrever e de conhecer pode ser sentido como algo perigoso e angustiante, aventura sem seguros e cheia de riscos, jornada em que embarcamos sem saber ao certo para onde vamos... “A escritura é para o escritor, mesmo se não for ateu, mas se for escritor, uma navegação primeira e sem Graça.” (F.e.S., pg. 25) Escrever é navegar em mar tormentoso, sabendo que Deus algum nos auxilia nessa jornada, e que temos como guias somente o que outros (valiosos fantasmas!) deixaram escritos: os relatos (decerto preciosos!) de outros navegantes.

Trata-se aqui de fazer uma crítica a um “preconceito idealista”, que veria a escritura como decorrente de um Ideal anterior, de uma Intenção anterior, de um Desígnio anterior. Nesta concepção, por Derrida criticada, escrever seria apenas “transcrever” o que já se concebe, o que já se pensa, o que já se sabe; traduzir no papel um ideal prévio que já se tinha. Mas não: a escritura é navegação, revelação, descoberta, espanto e criação! “Se a criação não fosse revelação, onde estaria a finitude do escritor e a solidão da sua mão abandonada por Deus?” (F.e.S., pg. 26)

“Este poder revelador da verdadeira linguagem como poesia é na verdade o acesso à palavra livre”, sugere Derrida. E por “palavra livre” ele entende a palavra liberta de suas “funções sinalizadoras”, ou seja, a palavra usada não somente com fins pragmáticos de comunicação cotidiana, a palavra que não é mero dedo que aponta, placa que indica, signo que se refere a algo no mundo. “É quando o escrito está defunto como signo-sinal que nasce como linguagem” (F.e.S., pg 26), e Derrida deixa no ar a poética sugestão de que o poeta é aquele que “arranca a palavra de seu sono de signo” (F.e.S., pg 26).


O ESPECTRO DE MARX SEMPRE A NOS RONDAR

Derrida, claro, é um pensador que exerceu suas atividades em “um mundo em que a herança marxista era – e ainda continua sendo, e, portanto, continuará sendo – absolutamente e de ponta a ponta determinante”. Por isso ele destaca que “todos nós habitamos um mundo, alguns diriam uma cultura, que conserva, de modo diretamente visível ou não, numa profundidade incalculável, a marca desta herança” (E.d.M., pg. 30). Ele reconhece em Marx um “grande filósofo”, que “deve figurar em nosso grande cânon da filosofia política ocidental” (E.d.M., 52), sublinhando que “será sempre um erro não ler, reler e discutir Marx” (E.d.M., pg. 29). Há em Espectros de Marx “confissões” que deixam claro o impacto da obra de Marx em seu pensamento:

“Na releitura do Manifesto e de algumas outras grandes obras de Marx, disse a mim mesmo que conhecia poucos textos na tradição filosófica, talvez nenhum outro, cuja lição parecesse mais urgente nos dias de hoje. (...) Nenhum texto da tradição parece tão lúcido quanto à mundialização em andamento na política, quanto à irredutibilidade do técnico e do midiático na óptica do pensamento mais pensante – e para além da estrada de ferro e dos jornais de então, cujos poderes foram analisados de modo incomparável pelo Manifesto. E poucos textos foram tão luminosos no que concerne ao direito, ao direito internacional e ao nacionalismo.” (E.d.M, pg. 28-29)

Derrida tampouco ignora que há um “imperativo político” por trás da teoria de Marx que não deve ser calado ou neutralizado, ou seja, jamais deveríamos omitir, esquecer ou silenciar que Marx “prescreve não somente decifrar, mas agir ou fazer do deciframento (da interpretação) uma transformação que 'modifique o mundo'...” (E.d.M., 51).

Em Espectros de Marx, Derrida, intentando pontuar suas idéias em relação à esta inescapável herança marxista, estabele um paralelo entre dois “espectros” que, cada um a seu modo, surgem conclamando por justiça sobre a Terra: o espectro do pai de Hamlet, na clássica tragédia shakespeariana, que convoca o príncipe de um estado apodrecido a pôr o tempo de volta nos trilhos; e o espectro do comunismo, que o Manifesto de Marx & Engels, já em sua primeira sentença, vaticina que está "rondando a Europa”.

Narra Derrida, que é um mestre em utilizar os “poderes expressivos” da literatura em sua filosofia, borrando os limites entre ambas, que a “saga” comunista é algo que necessita do apelo ao “mundo espectral” para ser plenamente compreendido. A “velha” Europa, a Europa das elites, tremia de inquietação frente a este ameaçador espectro, o comunismo, que ameaçava reconstrui-la sobre outros alicerces, que os revoltosos proclamavam ser muito mais justos e humanos. E ela, a Europa ameaçada de demolição, tentava se tranquilizar quanto à impossibilidade de sua derrubada, como se dissesse: ora, são só sonhos! É só a alucinada imaginação do povo! O populacho sempre põe lenha em projetos descabidos, irrealizáveis, impossíveis de se fazerem em carne! Pois não os deixaremos! Eles, para dormirem em paz à noite, diziam que esse fantasma nunca viria a se transformar num monstro real, capaz de mastigá-los e defecar seus restos na sarjeta do tempo. O fantasma nunca encarnaria; o sonho jamais seria realizado; a esperança mostraria ter sido apenas isso: uma esperança, e vã – como é do feitio da maioria das esperanças!

Derrida sugere, em seu caminhar, que o comunismo, antes de ter sido algo “escrito” na história do mundo, foi apenas um verbete na história dos sonhos humanos: seu espectro precedeu sua vinda efetiva. Ele foi, primeiro, uma exigência, um imperativo, um projeto, uma necessidade, um objeto de desejo, um construto mental composto por tudo aquilo que se purgava do real de deficiências e do que se imaginava como representando um melhor estado-de-coisas. O comunismo, antes de ter sido o filho do proletariado, dos camponeses, dos revoltosos, do povo em levante contra suas algemas, foi um filho da imaginação. Não diria eu que foi filho da imaginação de Marx, sozinho, pois nada neste mundo se faz sozinho, e Marx disso sabia muito bem, e só foi um gigante pois, quando era anão, subiu nos ombros de gigantes...

“Marx pensava sem dúvida, pelo seu lado, do outro lado, que a fronteira entre o fantasma e a efetividade deveria ser transposta, como a utopia mesma, através de uma realização, isto é, através de uma revolução”, comenta Derrida. Mas logo este algo que soa quase como uma crítica, sugerindo que ele mesmo, Marx, jamais deixou de acreditar “na existência dessa fronteira, como limite real e distinção conceitual” (E.d.M., pg. 59). Será que o problema não estaria justamente aí, em estar convicto da realidade desta fronteira? E se fosse esta uma fronteira imaginária? E se criar uma “cisão” entre dois mundos, o do “real” e o “possível”, o do “efetivo” e o do “potencial”, o do “presente” e o do “porvir”, for algo que não se sustente fora da nossa mente? E se isso representar ontologizar o que é uma distinção meramente mental?

Derrida, suspeitoso e sagaz, querendo manter-se em guarda também contra certos rastros de idealismo que pudessem ter restado em Marx, diz que “há razões para duvidar sobretudo da fronteira entre o presente, a realidade atual, e tudo o que se lhe pode opor: a ausência, a não-presença, a inefetividade, a inatualidade, a virtualidade ou mesmo o simulacro em geral”. Quando, desse modo, “racha-se em dois” o mundo, não se estará mutilando a verdade? “Esta oposição, seja ela dialética, não foi, sempre, um campo fechado e uma axiomática comum para o antagonismo entre o marxismo e a legião ou a aliança de seus adversários”? - pergunta o filósofo (E.d.M., pg. 60).

Esta “saga do marxismo”, por assim dizer, Derrida obviamente não a considera terminada; o ponto final está longe de ter sido posto ao fim da frase (o que talvez nunca ocorrerá). Diz ele que a “nova” Europa, igualmente obcecada em ninar seu próprio sono, contando-se novos contos de fada consoladores, como fez a “velha” Europa frente ao espectro que a amedrontava, engana-se dizendo que o comunismo é já um espectro passado. Este fantasma já teve seu momento de assombração no palco da História, mas não mais voltará a nos incomodar... Os ghostbusters do capital já varreram-no de vez para a lata de lixo dos fantasmas liquidados! “Suspiro de alívio ainda inquieto”, vaticina Derrida, antes de falar, ironicamente, pela boca dos que dizem tê-lo visto morto e enterrado: “façamos de modo que no porvir ele não retorne mais!”

“...no porvir, diziam as potências da velha Europa no século passado, é preciso que ele não encarne. Nem em público, nem às escondidas. No porvir, ouve-se por toda parte hoje, é preciso que ele não re-encarne: não se o deve deixar re-vir posto que é passado.” Pois então tanto a “nova” quanto a “velha” Europa não cessaram de sentirem-se debaixo de riscos frente a esse insistente espectro, que de tantos modos se tentou conjurar e expulsar do corpo dos tempos! É a “santa caçada a este espectro” que o Manifesto Comunista de Marx e Engels cita e que prossegue soando com a “retórica neoliberal” que “a um só tempo jubilosa e ansiosa, maníaca e enlutada, muitas vezes obscena em sua euforia” (E.d.M., pg. 99), finge celebrar a morte do que na verdade jamais morreu . Sublinha Derrida: “Trata-se muitas vezes de fingir constatar a morte aí onde a certidão de óbito ainda é o performativo de uma ação de guerra ou a gesticulação impotente, o sonho agitado de um assassínio.” (E.d.M., pg. 71) O desejo de assassinar o incômodo espectro é tanto que já declara-se que ele, espectro, está morto!

O que ele está longe de estar, ainda que uma “conjuração triunfante se esforce em denegar e dissimular” isto: que “em ocasião alguma da história, o horizonte disto cuja sobrevivência se celebra (a saber, todos os velhos modelos do mundo capitalista e liberal) esteve tão sombrio, ameaçador e ameaçado.” (E.d.M., pg. 76). Ainda que o discurso dominante, na política, nos mass media e na Academia, declare o marxismo morto pela “boa nova” que, segundo Fukuyama, representa esta “aliança da democracia liberal e do livre mercado” (E.d.M., pg. 84), Derrida bate o pé e insiste em manter-se herdeiro de Marx (“a análise de tipo marxista continua sendo indispensável”, E.d.M., pg. 85).


O DILEMA DE HAMLET: O CONFRONTO ENTRE JUSTIÇA E DIREITO

Paralelamente à discussão sobre o espectro comunista, Derrida também remete frequentemente a um dos espectros mais célebres da literatura universal: o pai de Hamlet. O príncipe Hamlet “não amaldiçoa tanto a corrupção do tempo”, sugere Derrida, quanto “esse efeito injusto do desregramento, a saber, a sorte que teria destinado a ele, Hamlet, recolocar nos eixos um mundo desconjuntado”. Esse ímpeto de justiça vingadora que o espectro lhe exige, esse imperioso pedido do pai para que castigue o vilão, faz com o príncipe chegue a “amaldiçoar o destino que o teria feito nascer para consertar um tempo que anda de revés” (E.d.M, 38). É uma missão que lhe pesa nos ombros: ter que derramar o sangue alheio em sua homicida campanha justiceira. Para ele é quase um “castigo”, aponta Derrica, este “dever castigar”.

Se Derrida parte da hesitação e da angústia de Hamlet frente à sangrenta represália que lhe pede o fantasma do pai, é para ilustrar com um exemplo-literário-maior um dilema que ele interroga e procura solucionar: o das relações entre Justiça e Direito. “Se o direito faz questão da vingança, como pareceu queixar-se Hamlet – antes de Nietzsche, antes de Heidegger, antes de Benjamin -, será que não se pode suspirar por uma justiça que um dia, um dia que não pertenceria mais à história, um dia quase messiânico, fossem enfim subtraída à fatalidade da vingança?” (E.d.M., 39)

O ato que o príncipe de Hamlet “planeja” cometer (o assassinato do tio, usurpador do trono) decerto não é permitido pela lei; mas poderia, talvez, ser um “ato de justiça”? Força de Lei traz, por sua vez, um aprofundamento desta meditação sobre Justiça e Direito, retomando alguns temas que afloraram em certos momentos de Espectros de Marx, como quando Derrida punha a questão: “O que é essa justiça para além do direito? Ela vem unicamente compensar um erro, restituir um débito, fazer direito ou fazer justiça? Ela vem unicamente fazer justiça ou, ao contrário, dar para além do dever, da dívida, do crime ou da falta?” (E.d.M., pg. 42)

Derrida procura pensar a possibilidade (ou mesmo a necessidade) de “uma justiça a partir do dom, isto é, para além do direito, do cálculo e do comércio, portanto, a necessidade de pensar o dom ao outro como o dom do que não se tem e que desde então, paradoxalmente, não pode senão retornar ao outro...” (E.d.M., pg. 46)

Como distinguir entre direito e justiça, pois? Derrida define: “direito é sempre uma força autorizada, uma força que se justifica ou que tem aplicação justificada, mesmo que essa justificação possa ser julgada, por outro lado, injusta ou injustificável. Não há direito sem força.” (FL, 7-8). As perguntas que nascem e seguem à esta definição sim: o que é uma força justa? Há a possibilidade de uma justiça que exceda ou contradiga o direito? A justiça sempre requer o recurso à força? Há como escapar à lógica da vingança, da represália, da punição?

“É preciso reconsiderar a totalidade da axiomática metafísico-antropocêntrica que domina, no Ocidente, o pensamento do justo e do injusto”, afirma Derrida, enfatizando na sequência contra seus opositores que “o que se chama correntemente de desconstrução não corresponderia de nenhum modo, segundo a confusão que alguns têm interesse em espalhar, a uma abdicação quase niilista diante da questão ético-política da justiça” (F.d.L., pg.36).

Para abordar essa problemática, Derrida vai na esteira de dois grandes pensadores franceses clássicos, Pascal e Montaigne. O primeiro dizia: “A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica”. A força e a justiça, pois, teriam que andar sempre juntas, ou seja, é imprescindível “que aquilo que é justo seja forte, ou que aquilo que é forte seja justo”.

Já Montaigne destaca que não obedecemos às leis por reconhecermos que são justas, mas sim porque elas possuem autoridade; e nós nos acostumamos/aprendemos/fomos condicionados a aceitar esta autoridade. De modo que uma lei não é necessariamente justa, é claro, ainda que as leis sejam seguidas por quase todos; pois unicamente lhes concedemos crédito baseando-se no que Montaigne chama de “o fundamento místico de sua autoridade”, e não numa convicção íntima de que tal lei é a encarnação do valor “justiça”.

Derrida, naturalmente recusando qualquer noção de “justiça divina”, como faz Pascal e tantos dos filósofos e teólogos cristãos, parece completar o dito de Montaigne sobre o “fundamento místico da autoridade das leis” chamando a atenção para a origem destas leis, ou seja, sua gênese baseada na força:

“...o momento instituidor, fundador e justificante do direito implica uma força performativa, isto é, sempre uma força interpretadora e um apelo à crença... a operação de fundar, inaugurar, justificar o direito, fazer a lei, consistiria num golpe de força, numa violência performativa e portanto interpretativa que, nela mesma, não é nem justa ne injusta, e que nenhuma justiça, nenhum direito prévio e anteriormente fundador, nenhuma fundação pré-existente, por definição, poderia nem garantir nem contradizer ou invalidar.” (F.d.L., pg. 24)

Derrida, pois, rejeita a noção de que Justiça e Direito, como gêmeos siameses, andassem sempre juntos: há leis injustas, e é possível ser justo agindo fora da lei. É o que André Comte-Sponville também percebeu: “Quando a lei é injusta, é justo combatê-la – e pode ser justo, às vezes, violá-la” (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, pg. 73).

Derrida tampouco ignora que isso que chama de Justiça, mais do que uma “realidade”, é uma “vontade”, um “desejo”, uma “exigência” ou um “apelo”. De modo que ele talvez assinasse embaixo do dito de Alain: “A justiça pertence à ordem das coisas que se devem fazer justamente porque não existem. (...) A justiça existirá se a fizermos. Eis o problema humano.” A Justiça sempre é algo por fazer, por construir, pelo qual lutar, e nunca algo que encontramos em qualquer lugar do real (seja nos tribunais, seja nas constituições) já pronto e realizado.

Além do mais, o direito consiste de regras de caráter abstrato, regras generalizadas, o que faz com o filósofo se pergunte: “Como conciliar o ato de justiça, que deve sempre concernir a uma singularidade, indivíduos, grupos, existências insubstituíveis, o outro ou eu como outro, numa situação única, com a regra, a norma, o valor ou o imperativo de justiça, que têm necessariamente uma forma geral, mesmo que essa generalidade prescreva uma aplicação que é, cada vez, singular?” (F.d.L., pg. 31)

Derrida recusa-se a aceitar que o homem justo seja simplesmente aquele que obedece às leis – o homem justo precisa fazer muito mais que isso! Sempre pode-se ter certeza sobre isto: se agiu-se de acordo com a lei ou não. Mas “será jamais possível dizer: sei que sou justo?” Já que não há Juiz divino, e já que as consequências de nossos atos jamais são inteiramente previsíveis, a certeza de que se é justo é “essencialmente impossível, fora da figura da boa consciência e da mistificação” (F.d.L., pg. 32). Podemos, no máximo, nos esforçar para agir sempre de modo justo, o que engloba também questionar se as leis que nos pedem para obedecer respondem de fato à Justiça; mas nunca é possível adquirir “certeza objetiva” sobre a “justiça de nosso caráter”. “A decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por uma regra” (F.d.L., pg. 30).

Isso faz com que a desconstrução conduza à uma concepção de nossa responsabilidade moral como “infinita”: “é a um acréscimo de responsabilidade que a desconstrução faz apelo” (F.d.L., pg. 38). A justiça em que Derrida pensa “se endereça sempre à singularidade do outro, apesar ou mesmo em razão de sua pretensão à universalidade. Por conseguinte, nunca ceder a esse respeito, manter sempre vivo um questionamento sobre a origem, os fundamentos e os limites de nosso aparelho conceitual, teórico ou normativo em torno da justiça é, do ponto de vista de uma desconstrução rigorosa, tudo salvo uma neutralização do interesse pela justiça, uma insensibilidade à justiça. Pelo contrário, é um aumento hiperbólico na exigência de justiça” (F.d.L., pg. 37)

Derrida, pois, diz que no presente jamais podemos ter certeza se nossos atos são justos ou não, já que ainda não vimos seus desdobramentos no tempo; e, já que tudo não cessa de desdobrar-se, jamais será possível adquirir esta plena certeza. A decisão moral estará sempre envolta na angústia, já que a justiça é um valor a que apelam seres (nós, limitados humanos!) cujas decisões são “de urgência e de precipitação, agindo na noite do não-saber e da não-regra” (F.d.L., 52). Derrida, pois, reconhece a Justiça como algo sempre porvir, e o ato justo como algo que sempre permanece no domínio do “talvez...”. Sonha ele, sem medo de usar o termo sonhar, com uma justiça que é “exigência de dom sem troca” e que só é possível com a “vinda do outro como singularidade sempre outra” (49). Se não há Deus legislador e se o Direito não é a encarnação da Justiça, só nos resta, na solidão e na angústia da decisão moral, com o peso de uma responsabilidade infinita sobre nossos frágeis ombros mortais, assumir que ser justo é viver numa perpétua batalha para tentar construir uma justiça sempre por fazer, por construir, por realizar. Como sintetiza outro grande filósofo francês anti-idealista, Comte-Sponville: “Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados!”



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALAIN. Consideração de 2/12/1912. in: Propos, II, pg. 280.

BLANCHOT, Maurice. La fin de la philosophie. in: La Nouvelle Revue Française, 01/08/1959, Ano 7, #70.

COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995. trad. Eduardo Brandão.

DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx – O Estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. trad. Anamaria Skinner.

----------------------. A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971. Coleção Debates – Filosofia #49.

-----------------------.Implicações – Entrevista a Henri Ronse. Publicado em Lettres françaises, nº 1211, 6-12 de dez de 1967.

------------------------. Posições – Entrevista a Jean-Louis Houdebine e Guy Scarpetta. Publicado em Promesse, nº 30-31, de 1971.

------------------------. Força de Lei – o fundamento místico da autoridade. São Paulo: Martins Fontes, 2007. trad. Leyla Perrone-Moisés.

HABERMAS, Jurgen. A presença de Derrida. Publicado no Caderno Mais!, do jornal Folha de São Paulo, 18/10/2004, trad. de Luiz Roberto Mendes Gonçalves. Disponível em: http://www6.ufrgs.br/idea/index.php?module=Artigos&func=display&pageid=11.

HADDOCK-LOBO, Rafael. Considerações sobre 'Posições' de Derrida. in: O Que Nos Faz Pensar, #21, Julho de 2007.

MONTAIGNE, Michel. Essais, III, cap XIII, “De l'expérience”, Bibliothèque de la Pléiade, p. 1203. [trad bras: São Paulo, Martins Fontes, 2001].

PASCAL, Pensées. ed. Brunschvicg, aforismo 298, p. 470. [trad bras: São Paulo, Martins Fontes, 2a ed, 2005].

SEARLE, John. Realities principle. In: http://www.reason.com/news/show/27599.html.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

:: it's all surmountable ::

Is this just another day? In this god forgotten place.
First comes love and then comes pain. Let the games begin.
Questions rise and answers fall. Insurmountable.

Love boat captain, take the reigns.
And steer us towards the clear. Here.
It's already been sung but it can't be said enough.
All you need is love.

Is this just another phase? Earthquakes making waves.
Trying to shake the cancer off. Stupid human beings.
Once you hold the hand of love it's all surmountable.

Hold me and make it the truth.
That when all is lost there will be you.
Cause to the universe I don't mean a thing.
And there's just one word I still believe.
And it's love.

It's an art to live with pain.
Mix the light into grey.
Lost nine friends we'll never know.
Two years ago today.
And if our lives became too long
would it add to our regret?

And the young they can lose hope
cause they can't see beyond today.
The wisdom that the old can't give away.
Hey, constant recoil.
Sometimes life don't leave you alone.

Hold me and make it the truth.
That when all is lost there will be you.
Cause to the universe I don't mean a thing.
And there's just one word that I still believe and it's love.
Love. love. love. love.

Love boat captain take the reigns. Steer us towards the clear.
I know it's already been sung. Can't be said enough.
Love is all you need. All you need is love.
Love. Love. Love.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

:: dos poemas que amamos juntos... ::

...e sabendo que amar-sozinho é quase um crime.


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a demais por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

(Alberto Caeiro)

* * * * *

“Que eu não veja empecilhos na sincera
união de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! Amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da morte
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.”

(Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remove to remove.
Oh, no! It is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken,
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown, although his height be take
Love’s not time’s fool, though
Rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come
Love’s alters not with his brief hours and weeks.
But bears it out even to the edge of doom
If this be error and upon me prov’d
I never writ, nor no man ever lov’d. )

(William Shakespeare)

sábado, 18 de julho de 2009

:: pensamentitos! ::

:: PENSAMENTINHOS ::
metidos a bonitos.


Li em algum lugar que, sobre a felicidade, só se pode pronunciar um moribundo: às beiras da morte, ele olharia para todo seu passado, para o arco completo de sua vida, e bateria o martelo do juízo: se seu viver foi ou não bem-sucedido... E eu, que sinto ganas de berrar de felicidade agora mesmo, quando ainda sou jovem e tenho pulmões sadios, quando trago nas veias amor corrente e no peito um coração comovido, cometerei o erro de cantar vitória antes da hora? Ora, ora, mas toda hora é hora de cantar vitória! E hoje sinto como se não precisasse mais, como o maratonista precisa da linha de chegada, ou o piloto da bandeirada, esperar o fim raiar, para só então comemorar... Não preciso que a morte chegue, ela que não vai me deixar língua para cantar, nem coração para se alegrar, antes de afirmar: viver valeu a pena! Ainda que a pena não tenha sido pequena.

Ando achando besteira dizer que o sucesso de uma vida só se pode julgar quando seu percurso está completo. Acaso só podemos dizer que é belo um cometa só depois dele ter terminado seu passeio pelo firmamento?! E uma festa, só pode ser julgada porreta quando se vai o último convidado e entra a faxineira? Eu, me desculpem, bato palmas agora mesmo! Até porque nem acho que a morte 'tá com essa bola toda...

De hoje em diante, a pergunta "a vida vale a pena ser vivida?" se desfaz em pó, como a estátua de pés de barro que era, como um bloco de gelo, derretido por um nascido sol, e que se torna água, líquido nada... A vida mesma respondeu-a, pela via das delícias, com um "mas é claro!"

E em mim o Nada perdeu seu fascínio. "Between nothing and grief, i choose grief!" – dizia o Faulkner, citado por Godard ao fim de Acossado. E é isso: a vida, ainda que doa, me soa sempre preferível ao nada, que pra mim é coisa que não tem graça nenhuma... Quer coisa mais besta que o nada? Quer coisa mais interessante, ainda que por vezes bizarra e dolorida, que a vida?

Hoje experimento essa novidade tão bem-vinda: a sensação de ser capaz de amar a vida. Não vejo na morte nem a panacéia, nem uma causa de infinita angústia, mas um suave fechar de cortinas que deve encerrar uma jornada bem vivida. "Vou pro céu com os pés no chão", canta o Karnak... e é esse o espírito!

* * * * *

A ETERNA NOVIDADE DO MUNDO

"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida. Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão." (FERNANDO PESSOA)

Por detrás do morro do futuro, o que há? Nem sofro tanto pela condenação a nunca poder sabê-lo. Meu coração ama melhor quando ama curioso... Quando caminha, ao mesmo tempo apressado e cauteloso, na direção das surpresas contidas nos amanhãs. Aberto à eterna novidade do mundo. Vivendo no presente, não a temer os monstros que podem saltar desse negro vazio que chamamos de futuro, mas indo ao alegre encontro das novidades que os amanhãs inevitavelmente trarão. Que elas, as novas, boas ou más, nos encontrem convidativos e hospitaleiros, certos de que o Sol que nasce hoje não é o mesmo que ontem se pôs, e que a caneta da vida ainda está em nossas mãos, mortiça, perdendo tinta, pulsante de urgência, acessível para que rabisquemos um destino, um desenho, uma alegria, um sorriso...

* * * * *
a irremediável novidade dos segundos

este segundo, nunca houve.
nunca tinha havido.
jamais um igual,
no passado ou no futuro.
ainda que o poeta seja pobre,
e que pessoa o tenha melhor exprimido,
é fato, caro leitor, que jamais em tua vida
tinhas passado segundos
como passou estes.
e os anteriores.
e os próximos.
e todos os que virão.
e todos os que vieram.
todos, todos, todos!
segundos são sempre novos.
segundos são sempre recém-nascidos.
segundos são sempre portadores de ineditismo!

só não nota a eterna novidade de tudo
quem nega-se a descer, docemente, a corrente.
e se petrifica em estátua,
e se enrijece em pedra,
vivendo como se o Tempo fosse velho,
quando, pelo contrário,
ele é a própria Eterna Novidade!
enquanto os que possuem consciência dinossáurica,
fóssil, pesada, antiquada,
óssea, esqueletária, de cemitério,
dizem do Tempo:
“isso é coisa velha! e Ele é sempre o mesmo!”

nós, os serelepes, os de olhos sem vendas,
os que temos pés leves,
dionisos ébrios de vida,
almas livres amantes de quebrar correntes,
arregalamos os olhinhos pasmos,
abrimos amplamente as consciências boquiabertas,
e saudamos o Tempo, com um abraço,
sabendo que ele traz sempre o frescor glorioso do novo.

tudo sempre se desenrola
num eterno agora.

:: o riso dos demônios e o riso dos anjos ::



"Em sua origem, o riso pertence ao domínio do diabo. Existe alguma coisa de mau (as coisas de repente se revelam diferentes daquilo que pareciam ser), mas existe nele também uma parte de alívio salutar (as coisas são mais leves do que pareciam, elas nos deixam viver mais livremente, deixam de nos oprimir sob sua austera seriedade).

Quando o anjo ouviu pela primeira vez o riso do demônio, foi tomado de estupor. Isso se passou num festim, a sala estava cheia de gente e as pessoas foram dominadas umas após as outras pelo riso do diabo, que é horrivelmente contagiante. O anjo compreendeu claramente que esse riso era dirigido contra Deus e contra a dignidade de sua obra. Sabia que tinha que reagir rapidamente, de uma maneira ou de outra, mas sentia-se fraco e sem defesa. Não conseguindo inventar nada, imitou seu adversário. Abrindo a boca, emitiu sons entrecortados, descontínuos, em intervalos acima de seu registro vocal... mas dando-lhe um sentido oposto: Enquanto o riso do diabo mostrava o absurdo das coisas, o anjo, ao contrário, queria alegrar-se por tudo aqui embaixo ser bem ordenado, sabiamente concebido, bom e cheio de sentido.

Assim, o anjo e o diabo se enfrentavam e, mostrando a boca aberta, emitiam mais ou menos os mesmos sons, mas cada um expressava, com seu ruído, coisas absolutamente contrárias. E o diabo olhava o anjo rir, e ria cada vez mais, cada vez melhor e cada vez mais francamente, porque o anjo rindo era infinitamente cômico.

Um riso ridículo é um desastre. No entanto, os anjos ainda assim obtiveram um resultado. Eles nos enganaram com uma impostura semântica. Para designar sua imitação do riso e o riso original (o do diabo), existe apenas uma palavra. Hoje em dia nem nos damos conta de que a mesma manifestação exterior encobre duas atitudes interiores absolutamente opostas. Existem dois risos e não temos uma palavra para distingui-los.

* * * * *

"...não riem de nada de preciso, o riso delas não tem objeto, é a expressão do ser que se alegra em ser. Do mesmo modo que, pelo seu gemido, a pessoa que sofre prende-se ao momento presente de seu corpo que sofre (e fica inteiramente fora do passado e do futuro), também aquele que explode nesse riso extático fica sem lembrança e sem desejo, pois lança seu grito no momento presente do mundo e só quer saber desse momento.

Vocês certamente se lembram desta cena por tê-la visto em dezenas de filmes ruins: uma moça e um rapaz se dão as mãos e correm numa bela paisagem de primavera (ou de verão). Eles correm, correm, correm e riem. O riso dos dois corredores deve proclamar para o mundo inteiro e para os espectadores de todos os cinemas: nós somos felizes, estamos contentes de estar no mundo, estamos de acordo com o ser! É uma cena idiota, um clichê, mas ela exprime uma atitude humana fundamental: o riso sério, o riso além da brincadeira.

Todas as Igrejas, todos os fabricantes de lingerie, todos os generais, todos os partidos políticos estão de acordo a respeito desse riso e todos se precipitam para colocar a imagem desses dois corredores risonhos nos cartazes onde fazem propaganda de sua religião, de seus produtos, de sua ideologia, de seu povo, de seu sexo e de seu sabão de lavar louça.”

--- MILAN KUNDERA
--- O Livro do Riso e do Esquecimento.

:: filoso-viagem - "invertendo mallarmé" ::

(barbara kruger)


"A carne é triste e já li todos os livros..."
MALLARMÉ


São estas algumas das "palavras imortais" da Poesia Francesa, me garantem os entendidos. Um daqueles versos “antológicos” do idioma (o que abriria espaço para a piada, aliás meio escrota, de que o autor é, ora pois, uma comprovada anta). Achei-o tristíssimo, o verso, quando primeiro me deparei com ele - eu que infelizmente já trago no peito tendências a enxergar a tristeza das coisas, inclusive dos palhaços e dos carnavais... imaginei o autor como um espécimen sombrio como o breu, sofrendo do spleen de Baudelaire, mais fúnebre que um conto de cemitério de Edgar Allan Poe... “A carne é triste e jamais leremos todos os livros”! Que dor não parecia vir aí, escondida neste dito tão desconsolado! Dito que eu não me surpreenderia se viesse num epitáfio de um maníaco-depressivo ou como última sentença de um bilhete suicida... Ao mesmo tempo, sentir o próprio corpo como fonte de tristeza e a vida do “intelecto” como infértil e insossa?!? Hélas! Há labirinto mais tenebroso? Ser Pascal e Fausto, ao mesmo tempo, que imenso fardo!

Diria, até, que é tão tristonho, o verso, que mereceria ser dito: “é de cortar os pulsos!”. Mas eu não creio que se corte os pulsos por causa de versos. Apesar de saber que os escritores de versos, e os leitores deles, por vezes cortam-nos, apesar do pavor das lâminas, quando a dor aperta tanto que o nada soa mais doce que a vida...

A poesia, que eu saiba, não cria as dores da vida que ela relata – é, no máximo, um foco de luz. É: há desses que lançam focos de luz na escuridão que descobrem, e o que vemos não é a luz que jogam, mas a escuridão que descobriram.

Mas o que eu queria, aqui, era polemizar um pouco com o verso antológico. Porque, se a carne fosse de fato triste, ou seja, se isso fosse fato comprovado, como o 2+2 que dá vocês-sabem-quanto, o que fazer do viver seria problema bem simples: melhor seria jogar fora logo duma vez essa desgraça, esse vaso de dores e mal-estares, esse corruptível cadáver adiado, esse antro do pecado! Se a carne fosse triste, e sempre triste, de uma tristeza inelutável, inescapável, melhor seria pular logo no túmulo, beber a cicuta, mandar parar esse grotesco carrossel e ir no nada buscar o alívio de ao menos não sentir... Os niilistas estariam certos, coisa que eu nunca achei que estivessem.

Pois, me perdoem os trágicos, toda essa dramaticidade se esboroa frente, por exemplo, a um picolé, quando o dia é tórrido, ou uma banheira de hidromassagem, quando entramos nela bem-acompanhados. São coisas que nos ensinam, ó pobres de nós, o quanto a carne pode ser alegrável, o quanto o deleite pode ser sincero, o quanto a vida pode ser bela. Estar na mesma banheira com a mulher amada, ou fazer amor com nossa melhor amiga, quer prova mais inconteste de que a carne pode ser simpática, jovial e adorada?

Viver é essa complicação, claro, e é esse fascínio, justamente por este imbróglio, essa gororoba de prazeres e tormentos, essa mistureba entre os que nos exalta e o que nos atormenta! Nada, nunca, em "pureza"! Sempre gotas de limão em nosso açúcar! Sempre um certo amargume no chocolate! Mas e daí? Se a vida fosse só felicidade, que baita monotonia! Se tudo fosse sempre doce, que enjôo, que enfado, que sensaboria!

Tenho deixado, pois, sem resistências, até mesmo contra os poetas e suas melancolias assassinas, que os picolés e os amores me ensinem que a vida pode ser doce e bela – ainda que eles rápido derretam e ainda que meus lábios não sejam eternos...

A carne é problema, e possibilidade de glória. Carne condenada à morte, carne votada à vida. Capaz de exaltar-se e de atingir as mais luminosas alegrias, e capaz de doença, de ódio, de sofrimento, de mil modos de ser ferida... A carne: um bem ou um mal? A religião, de seu lado, fica aí, fazendo da carne um antro do pecado, algo a ser negado, degradado, cuspido, reprimido, poupado, em prol da tão superior vida do espírito, em nome duma quimérica vida paradisíaca no além-túmulo! No extremo oposto, os “hedonistas” em geral, que fazem da carne um palácio de mil delícias, que nos possibilita tantos gozos e deleites, na cama, na mesa, nos campos, ouvindo sinfonias, lendo poemas, acariciando a mulher amada!... E as seitas se dividem, e se digladiam, sem que jamais se suspeite que a resposta está em substituir, neste a carne é um bem ou um mal?, este "ou" por um "e"... A soma ao invés da exclusão! A união dos contrários ao invés da escolha por um dos pólos!
Percamos, pois, nosso pavor da carne, que é tudo que somos, que é nossa morada e nossa vida! Chutemos para escanteio, de vez, a mentira do espírito! Assumamos, enfim, que não temos alma, a despeito do que dizem os padres e os Cristos, e que isso não torna a vida menos deleitável, nem a sabedoria menos buscável e sorvível! Aterrisar no corpo, seria acaso avião descendo em aeroporto proibido? Seria infringir as leis cósmicas de trânsito? Arrancaria de Deus um gemido de lamento? Ah, céus, se a moda pega! Que aconteceria com os conventos!?! Se a notícia circula, aí tamos fritos! Qual daquelas noviças ainda não rebeldes ficaria auto-enjalada lá dentro, se lhes fosse ensinado que a carne pode ser bela? Não o vaso do demônio, não o palco do pecado, não o antro do vício e do desmazelo, mas nosso único aliado, nosso alicerce e sustentáculo, nosso companheiro perpétuo e introcável, capaz de êxtase e alegria, assim como de doença e envelhecimento! Palco onde se desenrola o mais maravilhoso e o mais grotesco, o mais deleitoso e o que mais nos machuca e desnorteia. O corpo é constelação!

Só me abraço à Mallarmé, pois, depois de botá-lo de ponta-cabeça; ou de escrever, na outra face da moeda, exatamente o oposto do que ele escreveu na de cima. E foi assim que me fiz um novo lema:

A CARNE É ALEGRE E JAMAIS LEREMOS TODOS OS LIVROS.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Maybe I'm Amazed

Baby I'm amazed at the way you love me all the time
Maybe I'm afraid of the way I love you
Baby I'm amazed at the the way you pulled me out of time
Hung me on a line
Maybe I'm amazed at the way I really need you

Baby I'm a man and maybe I'm a lonely man
Who's in the middle of something
That he doesn't really understand
Babe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me.
Baby won't you help me understand?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

:: Pride & Prejudice (o livro!) ::


JANE AUSTEN,
Orgulho e Preconceito

(Pride And Prejudice [1813],
Penguin Books, 428 pg.)

AMOR À ÚLTIMA VISTA
- notas de leitura -


Foi-me preciso engolir muito orgulho e vencer muito preconceito para topar encarar este romance-para-moças, leitura tão indigna para homens viris! Jane Austen, porém, me foi recomendada com empolgação por fontes tão dignas de crédito, que eu quis vencer minha tendência ignorantona a considerá-la como literatura de mariquinha, altamente kitsch e salta-pocinhas, e ir checar na fonte se a qualidade desta obra era mesmo inegável. Mergulhar nesta literatura, hoje reconhecida como das mais brilhantes da língua inglesa, a ponto de ser inserida por Harold Bloom entre as obras mais importantes do Cânone Ocidental, é descobrir uma autora de gênio na crônica social e no desvelamento psicológico da gente de seu tempo – e que possui, no fundo, uma mordaz ironia. Tudo isto salva sua obra de ser romantismo ingênuo para o consumo de moçoilas que esperam pelo príncipe encantado, tornando-a um clássico da literatura universal.

Jane Austen nos apresenta a um mundo hoje desaparecido e demodé. Um tempo onde o complexo processo de cortejar uma virgem virtuosa e bem-nascida demandava dos rapazes esgrimas “retóricas” espantosas. (Meus caros, chamar isso de “xaveco” é uma ofensa à complexidade inominável dos processos de sedução e persuasão em jogo!). Um tempo onde as moçoilas, sempre muito pudicas, ainda ruborizavam frente a olhares viris mais atrevidos e mantinham seus corpos muito bem escondidinhos detrás de pesados vestidos, véus e rendados. Um tempo em que os cavalheiros, sempre muito bem-trajados e polidos, se punham de joelhos para beijar com delicadeza a mãozinha enluvada das dondocas. Um tempo em que mamães casamenteiras dedicavam suas vidas à missão de casar seus rebentos com “homens honestos, ricos e de bom nascimento”. Um tempo onde todo um complexo jogo social, repleto de fofocas, fuxicos e boatos, envolvia os arranjos de matrimônio, e onde os interesses materiais eram levados em consideração até mais do que os afetos (apesar destes terem, também, um pouco de lugar).

Confesso, a princípio, que tive uma certa dificuldade para não ler com ironia toda essa finesse, esses hábitos tão civilizados, essas civilidades tão polidas, esse nhém-nhém-nhém aristocrático, que enche estas páginas tão maravilhosamente escritas, mas que podem soar, às vezes, tão afetadas e artificiais. Os personagens de Jane Austen são sempre, mesmo os mais atrevidinhos, repletos de pudicícia, desvelos, frescuras, ornamentos de linguagem e mil uma formas de ostentar sua “alta classe”.

É um mundo bem estranho às minhas peregrinações literárias mais frequentes, que normalmente vão dar em bodegas mais trash e bairros malsãos de cidades pestíferas. Minha juventude, eu passei na companhia dos junkies pirados de William S. Burroughs, dos fodidos-na-vida de Henry Miller, dos maníacos sexuais de Philip Roth, dos niilistas-sem-cura de Céline, das diabólicas maledicências poéticas de Rimbaud, Baudelaire e Lautreámont... Entrar no “ambiente” de Jane Austen, depois de ter passado tanto tempo na companhia desses insanos, é como visitar um palácio hi-class todo brilhoso e chique, depois de ter dormido por várias madrugadas na sarjeta, lambido pelos vira-latas e acordado pelos lixeiros.

O preciosismo, a delicadeza, a polidez irreprochável desses personagens é algo espantoso: não se acha em Jane Austen nem um grãozinho de grosseria ou truculência. Essa é a literatura de uma verdadeira lady! Até mesmo nos momentos em que os personagens precisam se dizer coisas desagradáveis e machucantes, o fazem de um modo extremamente classudo. O mais hilário dos exemplos é o do Mr Collins que, ao recusar um conselho de Elizabeth, faz mil piruetas retóricas para justificar sua “falta de educação”: “Pardon me for neglecting to profit by your advice, which on every other subject shall be my constant guide, though in the case above us I consider myself more fitted by education and habitual study to decide on what is right than a young lady like yourself...” (pg. 109). Très, très refiné!

Rachel Browstein, no estudo que dedica a Austen no Cambridge Companion, destaca que a leitura predileta de Jane Austen eram estas “ficções domésticas centradas em heroínas do sexo feminino” do tipo que se tornaram populares com os romances açúcarados de Richardson, Clarissa (1747) e Pamela (1742). Eram obras “severamente criticadas moral e esteticamente” pelos críticos de literatura, principalmente por serem “deliberadamente didáticas” no sentido de tentar “conscientemente instaurar padrões de moralidade”. Estes livros – apelidados de courtship novels - “davam aulas” às mocinhas sobre as engrenagens do cortejo masculino a uma virgem pudica e virtuosa, ressaltando sempre como ela deveria agir para manter-se digna e não sucumbir nem aos vícios da carne, nem às perfídias dos homens que são lobos em pele de cordeiro.

Mas o que faz Jane Austen ser um nome de tanto destaque na literatura dos últimos séculos é talvez o fato dela não ter sido uma mera repetidora destas fórmulas novelescas, mas sim a gênia que recriou o “romance-para-moças” através de um olhar que, além de espetacularmente sagaz e perceptivo, traz uma carga de ironia fortíssima. E não se trata de uma ironia fútil nem de um humor superficial, feito de palhaçadas e gracinhas, mas de um procedimento literário que besunta de alegre ironismo o “clima” dessas páginas tão deleitosas. “The seriousness of her irony baffles those readers who think wit must be either decorative or definite”, aponta Browstein, confessando que considerado esta “playful and purposeful irony” como a “coisa mais importante em Jane Austen” (pg. 34).

* * * * *

ELIZABETH BENNETT

Elizabeth Bennett, “heroína” de Pride and Prejudice, é sem dúvida a mais fascinante e adorável personagem do livro – e nela, talvez, Jane Austen construiu uma das “criaturas” que melhor encarna esta “playful and purposeful irony” à qual Browstein se refere. Frente à frivolidade das irmãzinhas, que mal largaram a chupeta e já saíram à caça de oficiais, querendo garfar um ricaço bonitão para um matrimônio que idealizam que será sublime, Lizzie mostra-se muito mais complexa, madura, sarcástica e sagaz.

Seu senso-de-humor é um dos mais afiados dentre todos os personagens do livro (“I dearly love a laugh!”, diz), e não é surpresa que ela, a princípio, antipatize tanto com Darcy, que mostra-se circunspecto, calado, antipático e funebremente sério. Mas o humor de Lizzie não impede que ela seja, no fundo, uma mulher extremamente “ética” - daquelas que não usa a ironia para massacrar o que é “sábio” e “bom”, mas somente para alfinetar o que vê como frívolo, tolo, hipócrita e vicioso. Isso fica bem descrito neste magistral diálogo:

DARCY: “The wisest and the best of men, nay, the wisest and best of their actions, may be rendered ridiculous by a person whose first object in life is a joke.”

ELIZABETH: “Certainly. There are such people, but I hope I am not one of them. I hope I never ridicule what is wise and good. Follies and nonsense, whims and inconsistencies do divert me, I own, and I laugh at them whenever I can.”


(pg. 62-63)

Entre essas 5 irmãs, Elizabeth é a única que demonstra ter uma vida subjetiva mais rica e variada, uma alminha mais judiada por angústias de pequenez (“What are men to rocks and mountains?”, exclama a certo ponto) e que reclama de malesque só ela em Orgulho e Preconceito parece sentir: “disappointment and spleen” (pg. 174).

É também deliciosamente insubmissa, em certas ocasiões, como nas saborosas cenas em que confronta Lady Catherine De Bourgh, a nojenta e autoritária dama da alta-classe que trata os Bennetts como se fossem vira-latas. “She [Elizabeth] had heard nothing of Lady Catherine that spoke her awful from any extraordinary talents or miraculous virtue, and the mere stateliness of money and rank she tought she could witness without trepidation” (pg. 182), conta a narradora.

Adoro isso: que Elizabeth não se torne baba-ovo de socialite escrota nenhuma só por ela ter grana e poder! Adoro que ela seja capaz de enfrentar “sem trepidar” uma “nobre dama” que faz com que os outros se intimidem e abaixem as cabecinhas! “Elizabeth suspected herself to be the first creature who had ever dared to trifle with so much dignified impertinence” (pg. 187), escreve Austen – e, lendo essa frase, não fiz nada menos que vibrar! Como frente a um lindo gol do meu time do coração em final de campeonato.

* * * * *

WIT AND VIRTUE

O fato de Elizabeth ser a união da mais esperta sagacidade (she's so witty!) e da mais conscienciosa “preocupação moral” se confessa um pouco na admiração que ela não cessa de nutrir por sua irmã Jane. Em Orgulho e Preconceito, Jane Bennett é a criatura mais angelical e irrepreensivelmente bondosa, e Elizabeth não pára de elogiar as virtudes de sua maninha, sem o mínimo sinal de ciúme ou raiva (no quê Austen, me parece, demonstra não ser lá uma pHd em psicologia “fraternal”: onde já se viu irmãs se darem assim tão bem, cáspita?!?)

De certo modo, Jane Bennett parece uma abençoada criatura que está sempre “de bem com a vida” e com sua própria consciência, sempre repleta de “cheerfulness” e dotada desse caráter privilegiado (que Jane Austen descreve lindamente): “the serenity of a mind at ease with itself, and kindly disposed towards every one, that had been scarcely ever clouded” (pg. 209).

ELIZABETH PARA JANE: “Your sweetness and desinterestedness are really angelic. (...) I feel as If I had never done you justice, or loved you as you deserve. (...) You wish to think all the world respectable, and are hurt if I speak ill of anybody.” (pg. 153) O fato de admirar na irmã esse tendência a “achar que todo mundo é bonzinho” e de ver tudo “sob a melhor luz” não impede que Elizabeth se manifeste contra essa noção de um “bom-mocismo generalizado”.

Elizabeth têm um olhar mais lúcido, que descobre os vícios e defeitos dos humanos com um realismo penetrante, acabando por parecer um tanto amarga e desiludida em relação à ingênua jovialidade da irmã Jane: “The more I see of the world, the more I am dissatisfied with it; and every day confirms my belief of the inconsistency of all human characters, and of the little dependence that can be placed on the appearance of either merit or sense.” (153)

Elizabeth, apesar de presa na teia de convencionalismo que a rodeia – e que faz com que todas as moças desejem um casamento (claro que monogâmico e vitalício!) com um homem "honesto" e de "bom nascimento", como papai e mamãe exigem! - é uma mulher que traz em si uma "insubmissão interior" bem mais pronunciada do que suas "silly little sisters". Por isso, como Harold Bloom escreve no Cânone Ocidental, ela é uma das “grandes heroínas de Jane Austen” (junto com Emma, Fanny e Anne), já que elas “possuem tanta liberdade interior que suas individualidades não podem ser reprimidas”.

Mulher ambiciosa e orgulhosa de sua inteligência e sarcasmo, Elizabeth tem uma língua à qual não falta veneno nem sagacidade. Há, por exemplo, uma cena em que Lizzie e Darcy estão dançando e ela, irônica e cáustica, querendo provocá-lo a sair de seu taciturno silêncio, alfineta seu calcanhar de Aquiles: o orgulho. “We are each of an unsocial, taciturn disposition, unwilling to speak unless we expect to say something that will amaze the whole room, and be handed down to posterity with all the eclat of a proverb.” (pg. 103)

As virtudes e nobrezas do caráter de Elizabeth também se explicitam nas críticas severas que ela faz ao comportamento de suas irmãs caçulas. No caso em que a louquinha da Lydia foge de casa com o demônio encarnado que é Wickham, Elizabeth não poupa o anátema: "Our importance, our respectability in the world, must be affected by the wild volatity, the assurance and disdain of all restraint that mark Lydia's character... she will soon be beyond the reach of amendment...from the ignorance and emptiness of her mind, wholly unable to ward off any portion of that universal contempt which her rage for admiration will excite... Vain, ignorant, idle and absolutely uncontrouled!" (pg. 255-56)

Liz fustiga sem dó o caráter vicioso da irmã – que é vaidosa, preguiçosa, frívola, ignorante e que nada faz além de seu tempo além de flertar com homens “interessantes”. O próprio Mr Bennet, pai das donzelas e fonte de altos sarcasmos, comenta: "At any rate, she cannot grow many degrees worse, without authorizing us to lock her up for the rest of her life." (256) Em meio à irmãzinhas tão fúteis e abobalhadas, Elizabeth aparece como um prodígio de nobreza, inteligência e fina ironia – um mulherão!

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LOVE AT LAST SIGHT

Sendo muito simplista e redutor, daria para dizer que a grande “moral da história”, em Orgulho e Preconceito (que é sim um nobre exemplar daqueles tempos onde os romances tinham sim uma “moral da história!), reduz-se àqueles velhos ditos clichêzudos que tantas mamães e vovós beatas, metidas a sábias, nos repetiram 50 mil vezes: que as “aparências enganam” e que “primeiras impressões nem sempre nos contam a verdade”!

Darcy é um personagem que todos abominam ao primeiro contato, Elizabeth inclusive. Ele aparece como um sujeitinho arrogante, intratável e horrorosamente antipático nas situações sociais, daqueles que não bate-papo nem tira as mocinhas pra dançar nos bailes. Ele possui dois grandes vícios paralelos: o orgulho e o ressentimento. “I cannot forget the follies and vices of others so soon as I ought, not their offences against myself”, confessa. “My temper would perhaps be called resentful. My good opinion once lost is lost for ever.” (63)

Elizabeth, ouvindo isso, forma uma péssima imagem de Darcy como alguém que odeia todo mundo e que se gaba da “implacabilidade de seus ressentimentos” como se isso fosse um mérito. Quando o venenoso Wickham lhe conta sobre os maus-tratos que sofreu nas mãos de Darcy, ela atinge um dos ápices de revolta contra este último: “I had supposed him to be despising his fellow-creatures in general, but did not suspect him of descending to such malicious revenge, such injustice, such inhumanity as this!” (pg. 90)

A cena em que Darcy pede Elizabeth em casamento, para absoluto espanto dela, é uma dos momentos mágicos da história da minha relação com a literatura: são páginas que li quase perdendo o fôlego, esquecendo do tempo, “caindo” totalmente dentro do diálogo, tão cativante e dramática é a situação. Pois Elizabeth está sendo cortejada por um homem que odeia: um sujeitinho pretensioso, abominavelmente orgulhoso, que fez das piores patifarias contra o pobre Wickham e que ainda foi responsável por estragar a possibilidade de casamento entre Jane e o Mr. Bingley! Ainda que ela sinta um pinguinho de satisfação por ver Darcy manifestar tão surpreendente desejo (“it was gratifying to have inspired unconciously so strong an affection” - pg. 215), ela não pode evitar lançar contra ele o anátema, o jorro de sua ira, sua cruel e machucante rejeição, expressa nos termos mais duros:

ELIZABETH PARA DARCY: “From the very beggining, from the first moment of my acquaintance with you, your manners impressing me with the fullest belief of your arrogance, your conceit, and your selfish disdain of the feelings of others, were such as to form that ground-work of disapprobation, on which succeeding events have built so immoveable a dislike; and I had not known you a month before I felt that you were the last man in the world whom I could ever be prevailed on to marry.” (pg. 215)

Se a declaração de Darcy gera nela uma onda de ira e retaliação, em que ela fere sem dó um homem que então desprezava com toda a força de sua alma, a carta de Darcy representa um "ponto de virada", uma reviravolta quase completa. É com esta carta que se começa a desvelar aos olhos de Liz o "verdadeiro caráter" do Mr. Darcy e uma certa "intimidade" começa a se estabelecer entre os dois. "...she had never, in the whole course of their acquaintance, an acquaintance which had latterly brought them much together and given her a sort of intimacy with his ways, seen any thing that betrayed him to be unprincipled or unjust - any thing that spoke him of irreligious or immoral habits" (pg. 229).

O arrependimento pelo preconceito que alimentou, e o "choque" positivo de perceber em Darcy um "bom homem" que ela nem suspeitava que podia viver por detrás de uma superfície tão antipática e pouco convidativa, fazem com que convivam nela, por uns tempos, um imbróglio de vergonha por si mesma e de crescente admiração pelo Darcy que antes desprezara. Ela até mesmo é obrigada a engolir seu orgulho, reconhecendo que as críticas que Darcy faz à sua família eram "merecidas" - o que não surpreende o leitor que soube captar toda a ironia que Lizzie volta contra suas irmãs caçulas, fúteis garfadoras de oficiais, e sua mãe, obcecada casamenteira. "The justice of his charge struck her too forcibly to deny." (230)

Aqui, o amor está muito longe de ser à primeira vista e só surge depois que os “pombinhos” já se bicaram, se xingaram, se machucaram até não poder mais. Tendo expectativas bem baixas em relação ao Darcy que ela considerou, a princípio, um sujeitinho desprezível e antipático, Liz não se choca pouco com a transformação que ocorre na imagem dele dentro dela: “the difference, the change was so great, and struck so forcibly on her mind, that she could hardly restrain her astonishment from being visible.” (288)

O caráter “anti-social” de Darcy, que o pessoalzinho altamente sociável e polido que o rodeia reputa como um “vício”, depois irá se desvelando, principalmente ao olhar de Elizabeth, muito mais como uma virtude. Até que enfim ela descubra, fascinada, que gosta do fato dele não ser um homem frívolo, um hedonista superficial, capaz de se encantar por qualquer mariazinha de belos peitos e dotes - e que tinha até altas exigências em relação à “mulher ideal”. Esta, para Darcy, precisa ter algo “substancial”, que ele sugere que só será conquistável pela leitura (“in the improvement of her mind by extensive reading” - pg. 43).

Quando, mesmo depois de ser rejeitado sem a mínima ternura por Liz, Darcy mostra-se gentil e amável, ela não consegue erguer diques contra as marés de ternura e de gratidão que lhe adentram o coração voltadas ao seu ex-inimigo:

"...when she considered how unjustly she had condemned and upbraided him, her anger was turned against herself; and his disappointed feelings became the object of compassion. His attachment excited gratitude, his general character respect..." (pg. 234). “Gratitude, not merely for having once loved her, but for loving her still well enough, to forgive all the petulance and acrimony of her manner in rejecting him, and all the unjust accusations accompanying her rejection. He who, she had been persuaded, would avoid her as his greatest enemy, seemed most eager to preserve the acquaintance. (...) Such a change in a man of so much pride excited not only astonishment but gratitude – for to love, ardent love, it must be attributed.” (291)

Aqui se mostra com clareza que Jane Austen parece colocar o afeto acima da paixão, como Harold Bloom bem apontou. Elizabeth, que no livro passa por um certo “encantamento à primeira vista” com Wickham, e depois descobre-o como lobo em pele de cordeiro, encontra um “verdadeiro” amor que é baseado não em impressões apressadas, fugidias e sensíveis, mas em gratidão, estima e admiração. Nos meandros dessa narrativa, Jane Austen parece filosofar que o amor só é sólido se baseado não somente em encantamentos dos sentidos, mas num vínculo afetivo mais profundo baseado em valores como personalidades harmônicas, interesses comuns, confiança mútua, intimidade e confiança (em suma: “a general similarity of feeling and taste”, pg. 382). Tanto que Elizabeth, quando pensa nas chances de felicidade de Lydia e Wickham, não deixa de suspeitar que seriam pífias: “...how little of permanent happiness could belong to a couple who were only brought together because their passions were stronger than their virtue, she could easily conjecture.” (342)

Consuma-se, pois, a inversão de papéis: Wickham, ainda mais depois que foge com Lydia, passa a ser demonizado (e como! Lizzie chega a sugerir que "o vício contido em toda raça humana estava concentrada em um só indivíduo"). Inicialmente adorado e admirado pela sua "casca" sedutora e simpática, ele é depois visto por Elizabeth, sob o efeito das revelações de Darcy, sob uma luz bem menos favorável. Ela passa a vê-lo como alguém sem escrúpulos, que não hesitou em trabalhar pelo naufrágio do caráter de Darcy, e que é francamente mercenário em sua escolha de mulheres. Darcy, depois de conhecido a fundo e em detalhe, aparece sobre uma luz intensamente favorável. "There certainly was some great mismanagement in the education of those two young men. One has got all the goodness, and the other the appearance of it." (pg. 249) Elizabeth sente-se invadida por um intenso remorso ao perceber o quanto tinha alimentado falsas imagens sobre estes dois homens, baseadas essencialmente em preconceitos apressados. "She grew absolutely ashamed of herself. Of neither Darcy nor Wickham could she think without feeling that she had been blind, partial, prejudiced, absurd." (229)

A própria opinião pública, “instituição” que Austen é mestra em descrever com ironia devido à sua volatilidade e instabilidade, sua frivolidade e maledicência, sofre também uma revolução: “All Meryton seemed striving to blacken the man who, but 3 months before, had been almost an angel of light. (...) Everybody declared that he was the wickedest young ma in the world; and every body began to find out that they had always distrusted the appearance of his goodness.” (323)

Darcy e Lizzie, de certo modo, no fim dessa montanha-russa emocional que enfrentaram, tornam-se gratos um ao outro pelas lições que se deram. Ela, encarnação do Preconceito que Austen pôs no título de seu romance, confessa que sua relação com ele fez com que ela vencesse esse seu vício: “gradually all her former prejudices had been removed” (405). Já ele, que por seu lado é encarnação do Orgulho, confessa que também aprendeu com ela a reconhecer sua pequenez e sua insuficiência: “Dearest, loveliest Elizabeth! What do I not owe you! You taught me a lesson. (...) By you, I was properl humbled. You showed me how insufficient were all my pretensions to please a woman worthy of being pleased.” (407)

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RESSALVAS

Por maior que seja minha admiração por uma obra literária tão bem-composta, tão deliciosa de ler, repleta de perspicácia e fina ironia, eu não posso evitar sentir um certo desagrado por certos “fatores”. Por exemplo isto: apesar da trama de “Orgulho e Preconceito” estar inteirinha centrada nas atrações e repulsões entre os sexos, a descrição desses “jogos” de sedução jamais “se rebaixa” ao nível do carnal, do sexual. Este é um livro “sobre o amor”, de 400 e tantas páginas, em que nenhum casal, jamais, dá uns beijinhos na boca ou se diverte com uns amassos ou umas trepadas! Os mocinhos, quando se interessam pelas ladies, jamais têm ereções imprevistas, jamais olham famintos para as zonas erógenas ou arriscam cantadas com um sugestivo cunho luxurioso. Tudo em Jane Austen me soa asséptico, higiênico e bem-comportado demais – e a sexualidade é completamente varrida para debaixo do tapete, num processo que Milan Kundera talvez considerasse como puro “kitsch” literário. Claro que era de se esperar que liberdade para fazer, falar e escrever sobre sexo não tivesse espaço de manifestação no mundo subjetivo de uma filha de reverendo, vivendo em tempos de moralidade vitoriana, que não pôde assimilar todas as benesses da libertação sexual advinda com a pílula anticoncepcional, o movimento hippie e todas as conquistas do feminismo no século 20.

Jane Austen, pois, mantêm-se sempre “elevada”, “espiritual”, como se o amor nada tivesse a ver com os corpos, com a libido, com o tesão – e com isso mutila de sua obra algo crucial tanto para a compreensão quanto para o retrato literário das criaturas humanas. Se digo que ela nunca “se rebaixa” ao domínio carnal, não será também por causa de um preconceito da autora (obviamente condicionado por sua educação e a cultura de seu tempo!), que faz com que ela censure e não permita que existam em sua obra esses “elementos” que ela aprendeu a chamar de “sujos” e “baixos” e indignos de figurarem nas páginas da Alta Literatura?

Toda essa pudicícia austeniana daria, aliás, uma ótima paródia – imaginem que hilário um Orgulho e Preconceito Versão Pornô, com diálogos mais ou menos assim:

ELIZABETH: Oh! Darcy! I'm obliged to confide that I shall not be able to conceal from you any longer the fact that I'm so god-damned horny! Shouldn't you punish me violently with your sword for my reproachable misconduct on being such a nasty little girl?

DARCY: Oh! Lizzie! I shall in no time have you acquainted with my noble willie-willie, who shall punish you infinitely!


Se Jane Austen tivesse “apimentado” este seu prato com um pouquinho de erotismo, talvez se saísse com um romance ainda mais excitante de ler e com um cheiro mais forte de realidade – mas que certamente iria escandalizar bem mais seus contemporâneos. Mas seria exigir dela que fosse o que não poderia ter sido, dadas suas circunstâncias biográficas e sua educação. Uma Jane Austen pimentinha, endiabrada, só poderia surgir no pós-1960, na esteira das conquistas do feminismo e da revolução sexual, e até me arrisco a sugerir que uma candidata já surgiu: Erica Jong, a ótima autora americana, que não é menos excelente por ter sido best seller, e que me soa como um mix entre Austen, Woody Allen, Sterne, Fielding e proto-Sex And The City em seus romances deliciosos - como “Medo de Voar”, “Salve Sua Vida” e “Fanny”, entre outros.

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Outra coisa que me dá um pouco de comichão é que há também uma constante idealização do matrimônio que soa bem ingênua e demodê a alguém como eu, acostumado a ler os ataques furiosos de Wilhelm Reich e José Ângelo Gaiarsa ao casório e que foi “educado” sobre o assunto por obras como Cenas de Um Casamento, de Bergman, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols, e Revolutionary Road, de Sam Mendes (só pra ficar em poucos exemplos).

Os personagens de Jane Austen estão sempre doidinhos pra casar, como se isso fosse a coisa mais doce e sublime do mundo: o “grande dia” de subir ao altar é visto pelo Mr. Collins, por exemplo, como “the day that was to make him the happiest of men” (pg. 137); ver as filhas casadas causa à mamãe Bennett certos êxtases quase orgásticos; e as mocinhas, quando se consuma o pacto de casamento, vêem-se como as mais felizes das criaturas. Que possa haver uma pontinha de ironia austeniana na descrição dessas altas expectativas românticas em relação ao idílio conjugal, até acredito que possa ser verdade; mas como deixar de considerar isso como água-com-açúquice exagerada, nós todos que não temos um pingo dessa crença no maravilhosidade da “coisa”?

Também neste sentido Elizabeth parece uma mulher menos ingênua, mais complexa e infinitamente mais sábia do que todas as mulheres que a rodeiam neste livro. Ela não está “doidinha pra casar”, como as maninhas, e recebe as propostas de Mr. Collins e de Darcy sem dar mostrar de tolas ingenuidades ou de crenças absurdas em mágicas felicidades que nasceriam do enlace. Atormentada por dúvidas, filosofa a certo momento:

“...since we see every day that where there is affection, young people are seldom withheld by immediate want of fortune from entering into engagements with each other, how can I promise to be wiser than so many of my fellow creatures if I am tempted, or how am I even to know that it would be wisdom to resist?” (pg. 164)

O próprio casamento dos pais não é nada tão idílico e harmonioso a ponto de parecer algo digno de inveja. Em um dos trechos mais impregnados de fina ironia do romance (e quiçá de todo o romance inglês do século 19), Austen escreve:

"Had Elizabeth's opinion been all drawn fro her own family, she could not have formed a very pleasing picture of conjugal felicity or domestic confort. Her father captivated by youth and beauty, and that appearence of good humour, which youth and beauty generally give, had married a woman whose weak understanding and illiberal mind, had very early in their marriage put an end to real affection for her. Respect, esteem, and confidence, had vanished for ever; and all his views of domestic happiness were overthrown. (...) Her ignorance and folly had contributed to his amusement. This is not the sort of happiness which a man would in general with to oew to his wife; but where other powers of entertainment are wanting, the true philosopher will derive benefit from such as are given." (261)